Meio Ambiente

Agroecologia busca unir sustentabilidade e produção de alimentos

Em contraponto ao tradicional, a conservação dos recursos naturais e valorização da alimentação regional são pilares das redes agroecológicas, compostas por agricultores familiares que não utilizam agrotóxicos

Desmatamentos, utilização de agrotóxicos, pastos e irrigações não adequadas que prejudicam o solo são práticas diárias da agricultura convencional. Espera-se em 2050 a diminuição da produtividade agrícola de 2% de acordo com Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, além do aumento da temperatura e crescimento da demanda por alimentos de 70% no mesmo período, segundo relatório do World Resources Institute (WRI). Devido à necessidade de mudanças dessas práticas que afetam diretamente o meio ambiente a agroecologia surge como uma opção mais saudável e sustentável.

A Revolução Verde de 1950 deu início a agricultura convencional, conjunto de novas tecnologias que fez a produção de alimentos aumentar radicalmente. Essas técnicas fizeram dinheiro circular nas mãos de poucas pessoas. Donos de terras, eles utilizam químicas para controles de pragas, produzem um tipo de produto (monocultura) e degradam o meio ambiente pensando exclusivamente no lucro. Segundo a Confederação Internacional que Luta Contra a Pobreza e a Desigualdade (Oxfam) em relatório divulgado em 2016, no Brasil, 45% da área rural está nas mãos de menos de 1% das propriedades.

Em contraponto ao tradicional, a conservação dos recursos naturais e valorização da alimentação regional são pilares das redes agroecológicas, compostas por agricultores familiares que não utilizam agrotóxicos, preservando o ambiente daquela região além de estimular o consumo local.

Os desafios para cultivar no Brasil de forma mais saudável e sustentável são muitos. A começar que para ser agroecológico o produtor não pode utilizar agrotóxicos na irrigação ou no combate de pragas, mas como esse agricultor não trabalha só com um tipo de alimento a diversidade contribui para a saúde e força do solo.

O pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Edison Sujji explica que “se você olhar para a área de uma mata nativa verá uma grande diversidade de plantas. Vai para um plantio de soja ou de milho tem uma grande área só com uma espécie. Uma área nativa é muito estável, tem processo de regulação que a própria diversidade produz e mantém funcionando por um tempo”.

Caso um produtor convencional queira fazer a transição para o orgânico visando descontaminação do solo e da região de plantio são necessários de três a cinco anos. Essa é uma das maiores dificuldades que o produtor enfrenta segundo o pesquisador. “Nesse período ele tem todos os custos de deixar de usar alguns insumos e resolver de forma alopática”.

Agroecológico é orgânico?

“Todo produtor agroecológico é orgânico, mas nem todo produtor orgânico é agroecológico. Agroecologia trabalha com outras dimensões, além da produtiva e ambiental. O produtor orgânico pode trabalhar com monocultura e grande escala também”, relata professora e pesquisadora da Universidade de Brasília, Janaina Deane.

Para comprovar que os produtos são orgânicos,os produtores agroecológicos têm que pagar para certificar a falta de agrotóxicos nos alimentos. As certificadoras credenciadas pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) trabalham em conformidade com o Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica. Elas também fazem auditorias nas propriedades. As certificadoras podem ser verificadas no site da Associação de Agricultura Orgânica.

A agricultora Denise Barbosa da Silva comenta sobre a dificuldade de praticar uma forma mais ecológica de se produzir alimentos. “O produtor agroecológico tem muito mais a fazer por não usar defensivos químicos do que o agricultor convencional. Estamos fugindo do sistema agrícola atual do qual o Brasil faz parte sendo campeão na utilização de agrotóxicos”. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil está entre os países que mais utilizam agrotóxicos no mundo.

Cestas produzidas pelo agricultor Ambeltom Marx Ferreira para uma CSA

Cestas produzidas pelo agricultor Ambeltom Marx Ferreira para uma CSA

Comunidades que Sustentam Agricultura

As formas de se consumir e produzir produtos agrícolas estão mudando na medida em que a forma convencional traz problemas ambientais e alimentícios. Uma alternativa para os agricultores familiares que querem ter contato direto com seus consumidores são as Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA).

Essas comunidades transformam a maneira como o produtor se relaciona com o consumidor que deseja um produto mais saudável e ecológico.  São associações que ajudam o agricultor familiar a produzir de maneira mais saudável além de incentivar a integração dos consumidores com suas fazendas ou chácaras. As taxas das associações funcionam como assinaturas em que os clientes têm direito a cestas com vários vegetais e leguminosas.

O agricultor Ambeltom Marx Ferreira, de 29 anos, trabalha com CSA há um ano e fala sobre o interesse das pessoas nesse meio: “não só porque é orgânico, mas pela parte social. Não tem a coisa do balcão, então a gente tem a interação entre o produtor e o coagricultor. Eles investem na produção, o pessoal que paga a cesta conhece a chácara, planta junto, então estimula essa interação. Desperta o conhecimento até nas crianças em como é produzido os alimentos”.

O agricultor também fala sobre a função ambiental desse sistema. “A agroecologia trabalha além da questão do orgânico, a parte das florestas. A gente tem as áreas novas que começaram agora, mas daqui a sete, dez anos vai ser reflorestamento”.

Apesar de ter apoio técnico de organizações não governamentais ou empresas do governo, como Empresa de Assistência Técnica de Extensão Rural (Emater), o produtor agroecológico não tem nenhum incentivo financeiro por não estar utilizando agrotóxicos que contaminam solos e águas.

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