Comportamento

“Força na cabeleira prateada!”

Mulheres cansadas dos padrões impostos começam a assumir seus cabelos brancos e quebrar velhos conceitos

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#cabelos #cores #tendência mulher

Nos últimos anos, as mulheres têm enfrentado diversas lutas em favor da quebra de padrões. Uma delas é deixar os cabelos brancos à mostra. Por vezes, o ato de assumir uma passagem natural da vida é julgado como desleixo da mulher. Raquel Guimarães, 33 anos, não pinta o cabelo há dois anos. Tudo começou com a vontade de ver sua aparência sem tinta e pelo cansaço da obrigação de ter que pintar o cabelo duas vezes por mês. “Acho chato ficar retocando, dispendioso porque não sei pintar em casa e preciso ir ao salão, além de achar que a química agride muito o cabelo” , afirmou Raquel.

O que a influenciou muito na decisão foi a gravidez que a impediu de pintar as madeixas. Foi crescendo e a moça ficou curiosa para saber como ficaria totalmente sem tinta. “Então a decisão não foi difícil, mas me incomodava quando ele não estava uniforme, quando tinha tinta ainda nas pontas e a raiz estava mesclada com o branco e o cabelo natural”, completou.

Taís Ladeira, 49 anos, já não pinta seus cabelos há 20. Conta que seu processo de aceitação foi muito natural. “Por imposições estéticas da sociedade, incentivada pela chamada ‘indústria da beleza’, as mulheres são estimuladas a seguir dezenas de padrões. Como nunca me encaixei ou quis me encaixar nestes padrões, usar os cabelos brancos, ao natural, foi uma escolha tranquila pra mim”. Raquel enfatizou que essa não deveria ser uma questão para as mulheres, mas que infelizmente sabe que é. “Eu realmente não ligo, faço brincadeira sobre as preocupações do cotidiano e digo que são luzes naturais”.

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Raquel brinca que tem luzes naturais e aconselha outras mulheres a experimentarem a fazer diferente

A possibilidade de uma mulher não ter que esconder o envelhecimento está dentro dos movimentos feministas. A psicóloga Carol Fernandez ressalta: “Para uma mulher assumir seus cabelos brancos, antes de qualquer coisa, ela precisa estar bem consigo mesma.” Ela contou que as mulheres têm se desprendido cada vez mais desses padrões destrutivos da sociedade, mas que ainda há um grande processo pela frente. “Nós, mulheres, precisamos entender que não somos escravas de paradigmas. Ter cabelo branco não tem relação com velhice, descuido e falta de saúde. Muitos homens têm cabelos brancos, e eles são vistos como? Charmosos. Por que nós somos vistas como descuidadas pela mesma atitude?”

Não são todas as mulheres que têm a coragem de Raquel e Taís. Durante a conversa, elas mencionaram algumas situações chatas e desconfortáveis por simplesmente assumirem seus fios brancos. Raquel, que já passou por várias situações desconfortáveis, afirma: “As pessoas fazem expressões de surpresa ‘Quanto cabelo branco!’ como se fosse algo inaceitável deixá-los aparentes. Já ouvi que eles me deixam com uma aparência de desleixo e que devia me arrumar mais.”  Taís diz que algumas mulheres já pediram até pra tocar. “Os fios eram muito branquinhos e algumas mulheres pediam para tocar a mecha, olhar a raiz, para ver se era mesmo natural ou se era descoloração. Isso me incomodava um pouco, mas aproveitava para dizer que eram meus mesmo, e que não tinha nada demais a gente escolher a cor branca para nossos fios. E mais: que cabelos brancos em mulheres também podem ser charme, ao invés de descuido.”

O apoio

Alex Costa, tem 35 anos, é cabeleireiro desde os 23. Conta que de dois anos pra cá começou a ter clientes que o procuravam com a seguinte fala: “Estou cansada de tinta! Me ajuda?”. A partir daí Alex começou a incentivar e cuidar dos cabelos dessas clientes com uma atenção especial. “Acho ótimo elas cansarem dessa ditadura da beleza. Elas descobrirem e perceberam que podem ser como quiserem e se sentirem bem assim.” Alex deu algumas dicas pra quem quer assumir os branquinhos, mas não sabe por onde começar: água quente, poluição e piscina são amareladores naturais. É necessário ter um shampoo roxo e usá-lo no máximo 2 vezes por semana para o branco ficar com aquele aspecto prata.

Na internet, um movimento americano de quatro blogueiras incentiva mulheres que desejam passar pela “Revolução Cinza”, nome do site traduzido (Revolution Gray). Lá, elas compartilham suas histórias como fotos e depoimentos de transição. Todas assumiram seus cabelos antes dos 50. Taís comentou que, de fato, esse apoio tem um diferencial. “O que acontecia, há anos na Europa, finalmente chega por aqui e no tempo certo, com o questionamento de outros padrões de beleza também. Então, está bem mais fácil pra gente ‘ser grisalha’, tendo inclusive várias comunidades nas redes sociais de mulheres que contam a sua transição e incentivam outras mulheres ”.

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Taís Ladeira comenta que seu cabelo branco sempre chamou muita atenção e virou uma marca

Se você se interessou e ficou curiosa para saber como seu cabelo ficaria natural, experimente! Existem grupos de ajuda para interessadas, cabeleireiros especializados e uma sensação de liberdade indescritível. Você é livre para fazer o que te faz bem. Taís arrematou: “Se está começando a transição, você pode decidir se vai deixar crescer ou cortar bem curto para acelerar o processo, se vai usar lenço enquanto não cresce… Enfim, as possibilidade são inúmeras, mas as escolhas são bem pessoais. Escolha seu caminho, e força na cabeleira prateada!”. Raquel também deu sua dica: “Meu conselho é que ousem experimentar fazer diferente, sentir a liberdade para escolher como se sentem mais bonitas e melhores consigo mesmas. Cabelo nos permite ser versátil e mudar de forma rápida para o jeito que nos agrada.”

 

 

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