Cultura

No DF, quadrilhas juninas se esforçam para manter raízes

Em processo de modernização, os grupos se preocupam em manter a identidade

Vestidos simples, calças com barras por fazer, camisas com retalhos remendados, chapéus de palha, dentes pintados de preto e, na fala, um forte sotaque caipira. Todas essas características fazem referência às quadrilhas juninas, dança tipicamente nordestina, que ganhou o Brasil e tem um movimento forte e respeitado em Brasília e nas cidades do entorno do Distrito Federal. Mas essas características não são mais unanimidade. Na verdade, a denotação pobre e humilde tem sumido dos “arraiás” (espaço onde as quadrilhas se apresentam), especialmente nas principais agremiações da região.

Atualmente, o que se vê são grandes produções, com altos investimentos: trajes típicos trabalhados com tecidos da mais alta qualidade, desenhados por estilistas da área, cenários gigantescos, bandas de forró, shows pirotécnicos, contratação de coreógrafos e professores de teatro, maquiadores, bem como preparadores físicos e equipes de apoio que cuidam da movimentação do cenário.

A Liga Independente de Quadrilhas do Distrito Federal e Entorno (Linq-Dfe), entidade que organiza o Circuito Regional de Quadrilhas, e conta com mais de 50 grupos filiados, se preocupa em manter a tradição da dança. O presidente da Linq-DFe, Bruno Anderson Cardoso Brito, de 37 anos, explica que o próprio regulamento da competição faz com que as quadrilhas não se distanciem muito das raízes juninas. “Para que a dança típica de quadrilha junina não se perca, nós temos, no regulamento, alguns passos tradicionais que são obrigatórios, como cumprimentos ao público e entre damas e cavalheiros, passos em roda e nas laterais do ‘arraiá’, além da marcação típica. Isso faz como que as quadrilhas não inventem demais”, pontuou.

Em Brasília, muitos são os grupos que migraram do estilo tradicional para o estilizado, trazendo inovações em suas apresentações, com investimentos altíssimos, chegando a até 75 mil reais em uma única temporada. “Dentro do estilizado há mais espaço para a criatividade. Muitos grupos inserem em seus trabalhos, por exemplo, a dança contemporânea, mas isso deve ser feito sem fugir da tipicidade e sem perder as características da dança popular”, explicou Bruno.

Apesar do alto investimento, as chamadas quadrilhas estilizadas não têm obtido grandes resultados nos principais concursos. As tradicionais que também investem bastante vêm ganhando a maioria das competições. A Quadrilha Arroxa o Nó, do Paranoá-DF, por exemplo, investe cerca de 55 mil reais por temporada. Wagner Lima, presidente da agremiação, acredita que a simplicidade do seu grupo foi o fator fundamental para a conquista do Concurso Nacional, ocorrido em Palmas -TO, em 2017. “Em Palmas, disputamos com grupos que investiram mais de 150 mil reais, e o nosso trabalho provou que, com riqueza ou sem riqueza, é possível se fazer cultura popular de qualidade”, afirmou.

Wagner Lima

Wagner Lima, da Arroxa o Nó, apostou na simplicidade para conquistar prêmio nacional de quadrilhas

Um dos principais responsáveis pelo trabalho realizado na Arroxa o Nó é o ator, figurinista, maquiador e coreógrafo, Willy Costa, de 33 anos, que busca mesclar o típico e o contemporâneo. “Acredito que a cultura popular é a raiz do povo brasileiro. E, como a quadrilha junina se tornou muito grande e popular, acho sempre importante inserir nela algo da cultura popular, envolvendo em sua temática personagens e características que valorizem a cultura”.

Willey Costa

Willy Costa, coreógrafo de quadrilhas, aposta no equilíbrio entre tecnologia e cultura popular

Willy acredita que é possível fazer uso de artifícios modernos, mas pondera que “pra se fazer quadrilha junina, nos dias de hoje, é necessário equilibrar as duas coisas, fazer o uso da tecnologia, do show pirotécnico, mas de forma equilibrada, sem deixar de lado a cultura popular, de modo que a tradição seja permanecida, mas não seja estacionada”, analisou.

Serviço:

A temporada 2019 do Circuito de Quadrilhas terá início nos dias 7, 8 e 9 de junho, com apresentações das quadrilhas do Módulo de Acesso. Nos dias 15 e 16 do mesmo mês, é a vez dos grupos do Módulo Especial se apresentarem, em locais a definir. Para mais informações, acesse a página da Linq-DFe no Facebook.

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