Comportamento

“Não sou e nem curto afeminados”

Preconceito dentro da comunidade LGBT é o reflexo de uma sociedade machista e misógina

Nos aplicativos de encontros gay é comum ver as frases,” não sou e nem curto afeminados” ou “apenas caras machos”. Muitos perfis utilizam essas mensagens demonstrando seguir um modelo no qual ser afeminado é tido como algo ruim até mesmo dentro da comunidade LGBT. Esse tipo de comportamento se enquadra no conceito da afeminofobia, preconceito contra pessoas que saem dos padrões impostos por seus gêneros e não afeta apenas homens afeminados, mas também mulheres masculinizadas.  Dá a ideia de que a sexualidade pode ser assumida, mas sem exagero.

Uma pesquisa realizada em 2017 pela Revista Attitude do Reino Unido entrevistou 5.000 mil homens gays, na qual 71% deles afirmaram que deixariam de se sentir atraídos por um parceiro se ele se mostrasse afeminado. Não muito distante desta realidade no Brasil são inúmeros os perfis em aplicativos de encontros como Grindr, Hornet e Scruff que repudiam exposição de qualquer traço de feminilidade.

De acordo com o antropólogo Angelo Della Croce, esse tipo de preconceito vem dos papeis definidos pela binaridade de Gênero e dominação masculina em nossa cultura. “Por que somos gays não quer dizer que não somos machistas ou misóginos. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E não podemos esquecer que muitas vezes rejeitamos no outro aquilo que desgostamos em nós mesmos”, conclui.

Quando estava em um bar com amigos gays a cantora de 26 anos, Natália Afonso, se incomodou por eles estarem falando sobre o órgão sexual feminino de maneira inadequada, “me senti desconfortável pois além de ser a única mulher no espaço esse comentário fora totalmente misógino”.

Em outra ocasião um amigo homossexual tocou em seus seios no transporte coletivo sem que lhe desse permissão. Ela afirma que várias outras amigas já reclamaram da mesma situação sendo recorrente o índice de homens independente da sexualidade tendo a mesma postura e conclui, “isso comprova que o machismo está presente em todas os tipos de orientação sexual e até mesmo de gênero”.

Sem contato

“Além da indiferença, falta olharem dentro dos nossos olhos. Não tem muito diálogo”, relata o maquiador de 21 anos, Leonardo Teixeira, sobre o preconceito que sofre por ser afeminado. “Eles colocam o meio afeminado como um mal do meio gay e não é bem assim. Se eles se dispusessem a conhecer seria um avanço”. Por outro lado,  o maquiador conta que alguns afeminados desrespeitam outras pessoas. Segundo ele tal atitude “vem da mentalidade de que se o hétero pode fazer, eu também posso. Mas tem coisas que o hétero faz que não são legais e não temos que nos submeter a isso”.

O Estudante Felipe Guedes, 22 anos, acredita que existe desinteresse dos gays em assumirem relacionamento com pessoas afeminadas. “Acho que isso é um reflexo da sociedade, porque a sociedade como um todo é misógina. Para o homem hétero já é um absurdo que outro homem se comporte como uma mulher. Para um gay também é problemático”, acrescenta.

Cabeleireiro, Gutemberg Meenedeff, afirma não sofrer preconceito dentro da comunidade porque ele se impõe

Cabeleireiro, Gutemberg Meenedeff, afirma não sofrer preconceito dentro da comunidade porque ele se impõe

Outro ponto de vista é o do cabeleireiro Gutemberg Meenedeff, de 28 anos, ele afirma nunca ter sofrido preconceito por ser afeminado dentro da comunidade. “Até pelo fato de me montar drag e ter amigas travestis. Nunca deixei as pessoas me submeterem a qualquer tipo de ofensa. Acho que quando você se impõe não dá margem para isso acontecer”, pondera.

A aversão pela imagem do feminino também pode ser vista por casais homossexuais que se consideram discretos dentro de suas relações. O psicólogo comportamental Felipe de Baére explica que, “ser penetrado é ser simbolicamente uma mulher, por isso associam sujeitos afeminados como passivos. E a própria expressão ‘passivo’ já é carregada de depreciação, pois remete a uma pessoa subjugada, controlada, o que não é verdade. Ademais, é possível que o indivíduo afeminado da relação seja o ‘ativo’ da relação”.

Natália Afonso nega ter sido julgada dentro do meio lésbico por ser masculinizada, mas admite que exista um estereótipo de que quem cumpre o papel de ativa é parceira com mais traços masculinos e que isso nem sempre é verdade.

Em 2015 um casal homossexual viralizou negativamente na internet por causa de uma simples foto tirada no metro na Tailândia. Os dois estavam de mãos dadas, e o que deveria ser um simples gesto de afeto repercutiu de pela diferença estética. O tailandês Naparuj Mond Kaendi possui traços mais femininos do que seu marido o alemão, Thorsten Middelhof.

Foto de casal homossexual que viralizou negativamente em 2015

Foto de casal homossexual que viralizou negativamente em 2015

“A virilidade é um imperativo entre masculinidades na cultura gay. A dinâmica relacional costuma colocar as mulheres na vitrine como objetos a serem avaliados pelos homens, esse culto à estética e imposição da virilidade também fazem parte da cultura gay”, relata Felipe. “No momento em que um casal rompe com essa representação, será criticado pela maioria. Embora o casal tenha rompido com o imperativo estético, não rompeu com a heteronormatividade, tendo em vista que um dos casais era o sujeito afeminado enquanto o outro era mais viril’.

Para o psicólogo Felipe Baére, por meio de estudos impulsionados pelo movimento feminista, a desconstrução de muitos discursos e valores preconceituosos, pode ser a chave para ajudar pessoas que tem aversão ao feminino. “Compreende-se que a construção da masculinidade é comumente violenta e prejudicial para os próprios homens” completa.

“O diálogo entre a comunidade e o movimento feminista pode ser a ponte para a construção de uma nova relação entre masculino e feminino”, comenta o sociólogo Angelo Della Croce. Segundo ele, “uma vez que se trata de lutas semelhantes, contra o machismo e o sexismo, fortalece ambas as partes, favorecendo o surgimento de estratégias de ação que viabilizarão tomadas de consciência cada vez mais crescentes e efetivas no dia a dia de mulheres heterossexuais, lésbicas e homens gays”.

O termo em espanhol para afeminofobia é a plumofobia. No instagram um projeto chamado “Stop Plumofobia” traz relatos de pessoas que sofreram esse tipo de preconceito e tentam desconstruir esse e outros julgamentos da sociedade dentro da comunidade LGBT. No Brasil, não existe nenhuma página que trate sobre o tema de forma específica, mas existem canais que ajudam na desconstrução de preconceitos no meio. Com mais de 600 mil inscritos o canal do Youtube Para Tudo, comandado pela drag queen Lorelay Fox, ajuda com a quebra de alguns paradigmas dentro e fora da comunidade sendo uma alternativa para aqueles que querem compreender melhor os problemas do meio gay.

Na galeria confira alguns relatos traduzidos do Instagram Stop Plumofobia e prints de perfis do Grindr que demonstram aversão a afeminados

 

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