Saúde

Professores que adoecem

Cerca de seis a cada dez profissionais da área já tiveram que se afastar por conta de problemas de saúde, segundo pesquisa. No DF, depressão está entre as maiores causas

Maio de 2016. Era segunda-feira, por volta das 12h20, quando a professora do ensino fundamental de uma escola pública em Taguatinga, Marina Timo, se deparou com uma situação que viria a colocar a vida dela de pernas para o ar. Uma briga entre dois alunos de cerca de oito anos deixou um deles gravemente ferido.

O menino que teve o pescoço perfurado tinha uma família desestruturada, com um passado familiar marcado por prisões e assassinatos. Marina Timo começou a imaginar o pior que poderia acontecer: uma revanche ou retaliação. “A sensação era de que acabou o mundo. Eu fiquei muito nervosa”, relata a professora.

Após o acontecimento, entrou no carro, andou cerca de 50 metros, e paralisou. “Meu corpo começou a tremer, o coração acelerou e eu chorava, chorava e chorava”, enfatiza. Quando Marina conseguiu sair do ponto, já com a ajuda de uma amiga, o ponteiro do relógio marcava 15h30 – ao todo, foram cerca de duas horas e 40 minutos de pânico. “Foi o pior dia da minha vida”.

Assim foi o gênesis do que mais tarde os psicólogos diagnosticaram como reação aguda ao estresse. Marina só voltou a dar aula cinco meses depois, em uma escola do outro lado da cidade, mas ainda apresentando alguns traços resultantes do trauma que aconteceu.

Quando o assunto é saúde, a categoria de professores é uma das mais prejudicadas profissionalmente. Pesquisa online realizada em 2018 pela Associação Nova Escola identificou que 66% dos professores já precisaram se afastar das salas de aulas por questões de saúde.

Entre as maiores causas de afastamentos estão estresse e dores de cabeça, insônia e dores nos membros. Além disso, o levantamento ainda reconheceu que 28% dos professores sofrem ou já sofreram de depressão. Os dados foram feitos com mais de cinco mil educadores de todo o país.

A psicóloga organizacional Elisabeth Rossi explica que o afastamento é maior dentro das salas de aulas devido à organização do ensino no Brasil. Salas superlotadas, sobrecarga de ensino dos professores e excesso de responsabilidade dos educadores no dia a dia com as crianças têm trazido uma certa confusão para a profissão, explica.

Para reverter o quadro, a psicóloga diz que é preciso repensar o papel do professor dentro da sala de aula. “Qual o papel dele no plano pedagógico?”, indaga Elisabeth Rossi.”É como se o professor tivesse assumindo uma responsabilidade que é da família”.

Saúde no quadrado

Na capital federal, o número de professores afastados também é grande. Segundo levantamento das secretarias de Educação (SEE) e Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplag), foram apresentados 7,6 mil atestados na educação pública por transtorno mental e comportamental (TMCs) em 2017. No DF, existem 37,3 mil servidores dessa área.

Segundo o relatório, os profissionais do ensino – junto aos da saúde -lideram as pastas que mais obtiveram atestados por TMCs. As duas áreas correspondem a 90% das ocorrências. As principais causas são depressão (44% dos casos) e ansiedade (29%).

Secretário de Educação do DF, Rafael Parente entende que o número de pessoas com problema de saúde mental no mundo está crescendo, mas reconhece a necessidade de conceder um ambiente de trabalho qualificado e saudável, principalmente quando o assunto é educação.

“Se tem uma escola que é cheia de violência, não tem infraestrutura e aluno nem pai respeitam os professores é um lugar perigoso”, explica o secretário. “Em um ambiente tóxico, qualquer um adoece”, completa.

Um dos cinco pilares do Educa DF – plano estratégico do GDF em parceria com a Secretaria de Educação – pretende construir um ambiente fraterno nos ambientes de ensino. Batizada de “Educação para a paz”, a ação prevê instalação de câmeras e interligação com a Polícia Militar do DF. “A gente precisa mexer nesse ambiente. Às vezes a situação é tão ruim que a única solução é uma gestão compartilhada com a PM”, ressalta Rafael Parente.

Rafael Parente, Secretário de Educação do DF. Foto: Tácio Lorran

Ambiente tóxico leva ao adoecimento, diz Rafael Parente, Secretário de Educação do DF. Foto: Tácio Lorran

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