Cultura

Uma voz que ecoa da arte

Escritora e professora, Drielly Neres expressa na arte o poder de melhorar o mundo

Não fosse a moradora ilustre, o apartamento 204 tinha de tudo para ser mais uma sequência de letras, números e códigos, como todos os outros apartamentos ao redor.

A artista, Drielly Neres, pinta o sete em seu apartamento no Novo Gama. Cada cômodo leva a um teto de cores diferentes. Nas paredes, um emaranhado de obras, entre elas retratos, relógios, objetos, livros, palavras, sonhos e conquistas. Uma verdadeira exposição. Rabiscos e rabiscos, como uma casinha de criança, mas sem a presença da mãe para manter tudo em ordem.

Aos 31 anos, Dri é poetiza, escritora, professora e artista. Seu quase um metro e meio de altura e 49 quilos mal disfarçam a grandeza dessa mulher. Divide seus sonhos com a companheira Vanessa Bruna, e carrega consigo a ânsia de tornar-se eterna.

“O poder daquilo que fica registrado nos livros é o que me encanta mais”, explica, mostrando três de suas cinco obras já lançadas; uma coleção com dez livros aguarda patrocínios. “A escrita perpetua e fica lá registrada, não vai morrer nunca. Como diz Marcos Banha: a língua voa e a mão se arrasta”.

Enquanto arregaça a manga da camisa preta que vestia, ela mostra suas pequenas tatuagens “Até onde eu contei são 44”, diz. As figuras remetem a viagens, pessoas e livros que fizeram parte da vida da escritora, levando marcas da atemporalidade em seu corpo.

"Até onde contei são 44", diz a respeito das tatuagens. Foto: Gabriel Matos

“Até onde contei são 44″, diz a respeito das tatuagens. Foto: Gabriel Matos

Entre as mais especiais, estão as que fazem referência ao Pequeno Príncipe, uma das maiores paixões da vida de Dri, livro com o qual mais se identifica. Do menino de cabelos dourados, ela tira aprendizado pra vida, pra sociedade. “O Exupéry tem uma sensibilidade enorme em captar as coisas. Ele foi muito sinestésico em trazer de volta a criança para dentro de nós”.

Drielly se compara ao Pequeno Príncipe. Não fisicamente, é claro. Apesar da pequena altura e do sorriso fácil, a escritora tem cabelos pretos, não como o trigo, e responde a todas as perguntas. Reconhece que fala demais – característica que preserva desde que era criança e que a levou a ser quem ela é.

Do Pequeno Príncipe, afinal, Dri diz que carrega consigo a capacidade de cuidar incessantemente dos outros. “Aquela pessoa que se preocupa mais com o outro do que com ele próprio”, conta. “Ele (o pequeno príncipe) era sozinho e, então, num belo dia nasce uma rosa e fala ‘bom dia’. Aí ele tá aprendendo a cuidar”.

A rosa também nasceu para Drielly, e se chama Bruna, a companheira de 28 anos com quem divide o apartamento. Dri fica vermelha como um pimentão, olha para os lados, para as paredes, e se ajeita na cadeira para comentar. “É o amor da minha vida”, sorri.

Aliás, a identidade que Drielly constrói não é nada fácil – ser homossexual não é nada fácil. Uma luta contra colegas, alunos e o mundo, mas acima de tudo, contra a família. “A sociedade é extremamente preconceituosa e nossos pais projetam muito em nós. Dentro de casa a gente encontra muita barreira”. Apesar disso, reconhece o valor dos pais. Estão querendo ajudar, comenta.

Vestindo uma calça jeans preta que completava a camisa social, da mesma cor, com desenhos de diamantes, Drielly estava pronta para posar para um ensaio fotográfico sobre visibilidade LGBTQ+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers). Ela não deixa de se vestir da maneira mais confortável, como gosta de falar. Assim como se “vestem os meninos”.

“A gente tem uma falsa ilusão de que ser mulher hoje alcançou um patamar de igualdade, mas infelizmente não. A gente percebe isso pelas reações patriarcais antigas e vê a perpetuação disso hoje nas crianças”, conta relembrando um caso que aconteceu poucas horas antes da entrevista, quando uma criança presenciou no condomínio onde mora, um menino sendo “xingado” por outras crianças com adjetivos pejorativos, frequentemente destinados às mulheres.

E na carreira de escritora não é diferente. Apesar de reconhecer que as mulheres vêm ganhando cada vez mais espaço na literatura, Drielly não nega o fato de ainda existir um preconceito a respeito de obras e autores antigos, como Cecília Meireles e Clarice Lispector.

“As mulheres escritoras sempre existiram, mas tiveram o espaço negado”, completa. “Na própria história da literatura, se Machado fosse uma mulher, ele não teria o mesmo alcance que teve. Se José de Alencar fosse uma mulher e escrevesse Iracema, também não teria o mesmo alcance”.

"A gente começa pequeno, vai ganhando conhecimento, e quando pensa que tá no topo, a gente vem e se dissipa para começar tudo de novo", explica Drielly. Foto: Gabriel Matos

“A gente começa pequeno, vai ganhando conhecimento, e quando pensa que tá no topo, a gente vem e se dissipa para começar tudo de novo”, explica Drielly. Foto: Gabriel Matos

O último livro publicado por Drielly chama-se Cordel do Amor Encantado, lançado há um mês e já disponível na Amazon. Foi dedicado exclusivamente a sua amada. Uma maneira de retribuir ao mundo o presente que Dri recebeu. Uma forma de perpetuar o amor com que foi amada. Afinal, como diz o matemático Escobar, personagem de Dom Casmurro no qual Drielly fez uma releitura em seu livro Vozes de Escobar,“a felicidade não é cartesiana”.

Diante da enxurrada de notícias que os jornais publicam sobre casos de feminicídios, e da tentativa de combater esse preconceito contra o sexo feminino, como o projeto Elas por Elas, do portal de noticias Metrópoles, Drielly é também uma a implorar respeito e reconhecimento.

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