Comportamento

Homem dança ballet e mulher hip hop?

Dançarinos que vão contra o comum relatam o preconceito que sofrem nessas modalidades

Dançar é coisa de mulher. E não qualquer dança, tem de ser balé. Os homens não têm que se envolver nesse negócio, mas, se quiserem, que escolham um estilo de rua, como o break. Isso é o que dizem, muitas vezes, para as crianças que querem começar a trilhar o caminho artístico. Porém, o que poucos sabem é que não é isso que a história conta.

O balé clássico, por exemplo, foi uma criação masculina em meados do século XV, nas cortes italianas. As mulheres só passaram a praticar essa modalidade lá no fim do século XVII, em 1681. Mas, com o surgimento do romantismo, as histórias de amor ganharam protagonismo e, junto com elas, as mulheres com suas vestimentas e movimentos delicados.

A força feminina no balé clássico foi tão grande que, atualmente, a dança ainda é considerada “coisa de mulher”. Os homens que decidem apostar nesse movimento são motivo de preconceito, como foi o caso do bailarino Yuri Briedis. Ele conta que começou a sua história na modalidade aos nove anos, apoiado pela avó, que viu nele a inclinação para a dança e, no balé, uma possibilidade de futura profissionalização. Porém, entrar para esse meio não seria assim tão fácil. Yuri cresceu com o preconceito por participar da área.

“É triste, pois o balé foi uma dança criada para homens e por homens. O Brasil tem uma vista peculiar sobre a área artística. Na Coreia do Norte, no exército masculino de fronteira, todos possuem aulas de balé de três a cinco vezes por semana para desestressar. Em Cuba, todos os homens fazem balé até os 17 anos”, afirma o hoje professor de dança.

Machismo nos palcos

Quando falamos delas, a discriminação também acontece. Em modalidades como o hip hop e o breakdance, a participação feminina começou girando apenas em torno de sua sexualidade e não de seu talento. Apesar de ter evoluído, isso não mudou tanto assim. A professora de hip hop Michelle Pereira relata que o ambiente desse movimento ainda é muito masculinizado e, muitas vezes, machista. Ela afirma ainda que as batalhas nesse segmento de danças urbanas são dominadas pelos homens.

“Sinto que há um tipo de pressão que constrange as mulheres a se desafiarem numa batalha. E por sermos mulheres dançando um estilo mais enérgico, por assim dizer, temos que mostrar bem mais, quase que como uma obrigação de não só se dispor a estar num ambiente desafiador, mas de também mostrar algo bem feito para se conquistar admiração e respeito”, relata Michelle. Mesmo sendo um espaço difícil, a professora enxerga na dança uma oportunidade para se expressar e ser mais corajosa.

“Por sermos mulheres dançando um estilo mais enérgico,, temos que mostrar bem mais, quase que como uma obrigação de não só se dispor a estar num ambiente desafiador, mas de também mostrar algo bem feito para se conquistar admiração e respeito”, afirma a professora de hip hop Michelle Pereira / Foto: Felipe Fontinele (@fnt.photo)

“Por sermos mulheres dançando um estilo mais enérgico, temos que mostrar bem mais, quase que como uma obrigação de não só se dispor a estar num ambiente desafiador, mas de também mostrar algo bem feito para se conquistar admiração e respeito”, afirma a professora de hip hop Michelle Pereira / Foto: Felipe Fontinele (@fnt.photo)

Além de Michelle, outras mulheres fortes resolveram mostrar sua voz através dos passos de dança aqui na capital. O grupo Brasil Style Bgirls (Bsbgirls), por exemplo, é formado exclusivamente por mulheres e luta pela democratização da cultura e participação feminina na arte desde 2003. A dançarina Louise Lucena, que já foi juri pelo Brasil e competiu internacionalmente, participa da equipe e destaca a importância do grupo para elas.

“O preconceito, em termos sexistas, sempre foi muito forte dentro dessa modalidade. Porém, eu comecei no break num grupo formado exclusivamente por mulheres, algumas que já dançavam e eram incríveis, todas muito empoderadas e afrontosas. Então, vivemos muitas situações de preconceito, mas ao mesmo tempo desconstruímos muito a história e a imagem da mulher dentro desse estilo de dança. O grupo que faço parte foi vanguardista e divisor de águas dentro da história do break nacional”, conta.

Louise afirma que já viveu muitas histórias de preconceito dolorosas. Uma das que mais a marcou foi quando, mesmo após já ter consolidado sua carreira como bgirl (nome dedicado à mulher que pratica o breakdance) e ganho vários títulos nacionais e alguns internacionais, participou de um encontro e bate-papo sobre a história do hip hop no país e a representatividade de Brasília nacional e internacional. “Os caras que estavam lá fizeram questão de ignorar toda a nossa história. Isso machucou bastante. Enquanto eles ainda estavam começando a aparecer no cenário internacional, eu e algumas meninas do meu grupo já havíamos ganhado até títulos e isso para eles era completamente irrelevante. Daí percebi o quanto ainda precisaríamos lutar pela nossa história nesse espaço”.

Para ela, a dança pode expressar mais do que palavras. “Quando a palavra chega em seu limite, a dança dá continuidade a minha expressão e existência. Ela é fonte de resiliência, cura, saúde, conhecimento, conteúdo, política, cultura e muitas outras coisas. Seu arcabouço não tem fim”.

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