Entrevistas

Arranha-céu e novos horizontes

Primeiro álbum autoral da cantora Zeni Rainha traz feminilidade, resistência e empatia

Lançar um álbum é sempre um momento marcante na vida de um artista, principalmente quando estamos falando do seu primeiro trabalho autoral. É esse momento que a musicista, cantora e compositora Zeni Rainha está vivendo agora.  O interesse por música sempre existiu, mas sua experiência musical começou aos 18 anos, quando quis aprender a tocar violão. Há dez anos, começou a cantar e a compor também. Prestes a lançar o Ep Arranha-Céu, Zeni conta quais são suas motivações, dificuldades, reflexões e mensagens que construíram o seu primeiro trabalho autoral.
Como foi o surgimento do Ep Arranha-Céu? 

O lançamento do Ep Arranha-céu é a concretização de um grande sonho. Toda essa trajetória de compor, de trabalhar com música, se materializa a partir do lançamento desse Ep. O Ep traz nas letras das músicas muito de uma experiência feminina, essa experiência de ser mulher, de ter que se superar, as experiências amorosas. Trata de feminilidade, trata também de feminicídio, de suicídio, do valor da vida. Ele se chama Arranha-céu porque ele realmente vai me remeter para além do que eu vivi até hoje. É como se fosse uma mudança de etapa, uma transição dos meus valores, da minha vida.

O Ep é autoral, e sabemos que nem sempre é fácil trabalhar com música no Brasil. Quais dificuldades você encontrou nesse caminho da música autoral e quais foram as suas motivações para enfrentá-las?

Acho que as principais dificuldades estão relacionadas a essa questão de você ter que ser um músico independente, fazer tudo sozinho, correr atrás do registro de músicas, encontrar pessoas que queiram trabalhar com você. Até mesmo enquanto mulher, eu acho difícil, porque, hoje, embora eu seja uma compositora, esteja lançando esse trabalho de uma perspectiva feminina, e também feminista, todo o grupo de arranjadores e músicos que estão, nesse momento, fazendo esse apoio é um grupo masculino. Então, a gente tem uma dificuldade de diversidade de gênero em relação a essa questão toda. Mas o que me motiva a continuar com esse trabalho? Eu preciso continuar, é uma necessidade que eu tenho, vital, de continuar fazendo música. Eu tenho essa necessidade de contribuir com a sociedade, e nesse momento eu penso que a minha contribuição musical vai trazer diversidade como compositora,  como cantora, como musicista independente. Eu contribuo através da música para que a sociedade se transforme. Eu penso que eu posso contribuir, é como se fosse algo que eu acumulei e agora quero compartilhar com as pessoas que quiserem me ouvir.

Essa transição de que você falou, que vem por meio do Ep, o que você espera dela? Quais reflexões você espera despertar nas pessoas que ouvirem o Arranha-céu?

Quando eu falo de transição, eu falo a respeito do que eu vivi até agora e o que eu pretendo viver daqui pra frente. Eu deixei essa carreira musical durante muito tempo para trás, não me dediquei o suficiente, não acreditei o suficiente, porque eu coloquei outras prioridades acima disso tudo: veio a faculdade, depois, a família, então todo esse sonho, todas essas inspirações, essas músicas, estavam guardadas. A partir do lançamento desse Ep, a partir dessa socialização desse trabalho, desse sentimento, eu espero me manter nessa estrada, me firmar como compositora. Eu quero ter mais tempo para me dedicar à música, quero trabalhar exclusivamente com a música.

Com o Arranha-Céu, eu quero despertar nas pessoas a alteridade para coisas que, muitas vezes, têm passado despercebido. Muitas vezes a gente não está sendo alegre o suficiente, não está sendo empático com a dor do outro, nem com a alegria, às vezes. Eu quero trazer as pessoas para esse sentimento, dessa experimentação sonora, musical, desses sentimentos de alegria, empatia, às vezes de dor. A gente não precisa sentir alegria o tempo inteiro, mas eu quero que elas sejam empáticas com esses sentimentos e mensagens que eu vou trazer através das minhas composições.

Ep Arranha-Céu também contou com financiamento coletivo para se tornar realidade.

Ep Arranha-Céu também contou com financiamento coletivo para se tornar realidade

 

Você participa também de rodas de samba em Brasília, certo? Como está o cenário do samba em Brasília, hoje? Você que canta também sobre feminilidade, se sente representada como mulher nesses espaços?

Eu comecei a participar recentemente, em alguns espaços em Ceilândia, e realmente eu não me sinto representada nas rodas de samba. A dinâmica, a forma que essas rodas são realizadas, elas não me contemplam. A representatividade feminina é quase zero. Em algumas rodas você não tem mulheres, inclusive existe dificuldade em chegar e conseguir cantar em uma roda de samba. Eu não digo que é uma questão de “não pode cantar”, mas existe, assim como a questão do racismo, um machismo velado nesses espaços. Às vezes, o machismo é muito claro, você senta e os homens se levantam da roda porque não querem tocar para você. Ou não deixam você tocar na roda e falam “só canta, só fica aí”. Muitas vezes, a mulher, na roda de samba, não consegue ficar. Existe uma pressão muito grande em relação a sua própria presença ali, incomoda muito as pessoas. Muitas vezes você vê um olhar de “ah, vai desandar a roda”. Existe até mesmo a questão do som. Às vezes, você não consegue os ajustes adequados no microfone, então isso deixa a gente muito deslocada na roda. Muitas vezes você quer cantar um samba e se sente “arrastada” pelo grupo de homens, pela dinâmica, pela forma que tocam. Então não me sinto representada, me sinto muito incomodada. Mas esses sambas vão amadurecendo com o tempo, à medida em que o tempo vai passando. É importante que a gente ocupe esses espaços também. As mulheres podem trazer essa leveza nas rodas de samba.

O que você acha que precisa ser feito para acabar com essa desigualdade de gênero na música, como acontece nas rodas de samba, por exemplo?

A gente precisa propiciar, oferecer condições para que as mulheres estejam participando. Só que a gente tem uma questão estrutural, então muitas vezes a mulher que se propõe a fazer música não tem o apoio da família, do marido. Além disso, ela acumula muitas funções. Então, às vezes, esse acúmulo de funções faz com que a mulher acabe deixando isso de lado ou não consiga se dedicar o tempo que ela precisa para ter um bom resultado. É questão de oportunidade, nós precisamos de oportunidade, e segundo, de condições. Porque muitas vezes da forma que a gente trabalha com música, é sem dia, sem horário,  não remuneram bem. A gente fica sem condição de participar mesmo. Eu penso que é uma estrada muito longa, mas quanto mais mulheres estiverem presentes, mais a gente vai conseguir quebrar os tabus. E também os incentivos. As Facs, as leis de incentivo que já priorizam na escolha dos seus projetos, mulheres. São incentivos muito importantes e que não podem ser retirados.

 

Show de lançamento

Para conhecer o trabalho de Zeni Rainha, basta acessar sua página Zeni Rainha no Facebook ou visitar sua página no Instagram, @zenirainha, onde você encontra vídeos do seu trabalho e mais informações sobre agenda. O show de lançamento do Ep Arranha-Céu ocorre nos dias 18 e 19 de maio, no Teatro do Sesc Estação 504 Sul. Os ingressos serão disponibilizados para venda online e também na bilheteria do Teatro. Mais informações em www.sympla.com.br/lancamento-do-ep-arranha-ceu–zeni-rainha__516682.

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