Cultura

Falta de acesso a bens culturais reflete no dia a dia da população

12 milhões de brasileiros nunca foram a teatros e 10 milhões não conhecem museus

O acesso a atividades culturais no Brasil está ligado diretamente com o grau de instrução da população. Isso é o que mostra o levantamento realizado pela consultoria JLeiva Cultura e Esporte em parceria com o DataFolha. De acordo com a pesquisa, o número de pessoas com ensino superior que afirmaram frequentar atividades culturais representa pelo menos o dobro dos que concluíram os estudos até o ensino fundamental. Além disso, metade dos entrevistados disse que nunca foi a museus, teatros, espetáculos de dança ou bibliotecas na vida. O dado assusta: 12 milhões de brasileiros nunca pisaram em um teatro e 10 milhões não conhecem os museus.

Na capital do país, a situação se repete. Os que não possuem o privilégio de fazer parte do Plano Piloto encontram dificuldades para ter acesso a um direito: a cultura. É nas periferias e regiões administrativas que a informação não chega e que os reflexos são encontrados. Agravando esse quadro, no dia 11 de maio, o secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Adão Cândido, confirmou a decisão que elimina uma vertente do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), o FAC Áreas Culturais. A medida levou os artistas da cidade às ruas em manifestação e foi tomada, entre outros fins, com o objetivo de levar parte dos recursos do fundo para a restauração do Teatro Nacional Claudio Santoro.

O estudo Trajetórias Individuais, Criminalidade e o Papel da Educação, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que conforme crescem as taxas de escolarização, os registros de crimes e violência diminuem. Vivendo a pouco mais de 10 minutos da Rodoviária do Plano Piloto, local que dá acesso a todos os pontos do Distrito Federal, o morador do Varjão Gustavo Vanuncio conta como a falta de acesso a bens culturais afeta sua vida e das pessoas ao seu redor. “Convivi e convivo com muitas pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades que eu. Algumas caíram no crime, outros nas drogas e, na maioria das vezes, em ambos. O acesso à informação conscientiza a pessoa dos seus direitos e deveres e traz uma oportunidade de futuro melhor pra ela e todos a sua volta”. Gustavo ainda afirma que se tivesse crescido com mais acesso à produção cultural teria uma visão diferente de mundo e um senso crítico mais aguçado. “O acesso à cultura traz à tona a capacidade de enxergar fora da sua própria realidade”, finaliza.

Assim como ele, há milhares de outras histórias na cidade de pessoas que não encontram uma oportunidade de aprofundar nos movimentos e produtos culturais. Por outro lado, existem pessoas que deixam de lado as dificuldades impostas pela falta de incentivo do governo e utilizam o próprio local em que moram como palco para a criação de novos movimentos. Isso é o que acontece na Praça do Relógio de Taguatinga todas as quintas-feiras. Às 19 horas, cerca de 400 pessoas se reúnem para criar composições de rap e competir na chamada Batalha do Relógio.

Jovens criam movimentos de rua para driblar a falta de acesso à cultura nas periferias

Jovens criam movimentos de rua para driblar a falta de acesso à cultura nas periferias

O atual coordenador do movimento Brenner Saboia conta que a batalha surgiu da necessidade de criar algo para quem não podia viver no centro de Brasília. Hoje o encontro recebe moradores de Ceilândia, Samambaia, Recanto das Emas e até Santa Maria. “Esse povo precisa disso, como eu preciso disso. As pessoas não têm muita diversidade cultural na periferia. A gente tem o direito de ocupar as ruas e as praças para levar isso. Não é só Brasília que precisa de cultura, né? Brasília para mim, tipo W3 Sul, Norte, Lago Sul, tem muito evento pago e a periferia talvez não tenha acesso a isso. A população daqui é um pouco atrasada, mas a gente não se vitimiza e a gente corre atrás. Isso aqui muda vidas”, avalia.

A culpa não vem só de cima

O Museu Vivo da Memória Candanga, no Núcleo Bandeirante,  é um dos poucos museus históricos do DF que se encontra fora do Plano Piloto. A estudante Carolina Oliveira divide seu tempo entre Guará e Candangolândia, onde moram seus pais e avós, respectivamente. Foi no segundo local que criou, desde pequena, as principais memórias com a história da cidade. “O Museu Vivo da Memória Candanga, além de um local lindo, também tem um valor muito grande pra história da minha família, pois meus avós logo que chegaram em Brasília foram morar na Candangolândia com minha mãe e minhas tias. As casas de madeiras coloridas tem um feitio de cidade do interior e é um local com muitas árvores frutíferas que aconchega os visitantes, inclusive é um local que visito até hoje com meus familiares”.

Carolina acredita que a falta de acesso à cultura não depende apenas do governo, mas também da falta de incentivo dos próprios familiares. “Falta o incentivo à cultura, pois temos ali perto das nossas casas o Museu Vivo da Memória da Candanga, tem também um projeto de aulas de dança pra comunidade, aulas de lutas gratuitas. Mas as pessoas não frequentam, pois não são incentivadas a buscar mais sobre o assunto. O reflexo disso são os jovens com tempo ocioso e criando vícios em bebidas e drogas”.

Projetos governamentais

Apesar da redução do Fundo de Apoio à Cultura, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa afirma possuir outros projetos que podem auxiliar na produção cultural, como a Lei Rouanet, a Lei de Incentivo Cultural (LIC), o Conexão Cultura, as emendas parlamentares e o orçamento direto.

Além disso, os brasilienses podem participar do projeto Diálogos Culturais, uma iniciativa que nasceu em 2015 para ampliar a participação da sociedade civil na formulação de políticas públicas de cultura, por meio de escutas abertas com todos os segmentos da comunidade.

 

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