Entrevistas

Palestrante, escritor e youtuber referência em autismo no Brasil conta sua história de superação

Marcos Petry, produtor do canal Diário de um Autista, utiliza a internet para ajudar no entendimento do Espectro do Autismo e compartilhar vivências dentro do TEA

Marcos Petry, 26 anos, é formado em Comunicação Institucional e pós-graduado em Design Gráfico pela Unidavi (Centro Universitário para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí). Marcos é escritor, músico, youtuber e palestrante sobre TEA (transtorno do espectro autista). Ele já publicou dois livros: O primeiro, em 2016, pela editora Chiado, “Contos de Meninos e Meninas, Contos de Homens e Mulheres”; e o segundo, publicado em 2018, pela Editora 3 de Maio, “Memórias de um autista por ele mesmo”.

Além de produtor do canal Diário de um Autista, Marcos também é músico

Além de produtor de conteúdo do canal Diário de um Autista, Marcos também é músico Imagem: Reprodução/Engelus

Além de escritor e músico, é produtor de conteúdo do canal “Diário de um Autista”, que recentemente alcançou a marca de 100 mil inscritos. Diariamente, Marcos abastece o canal com vídeos sobre vivências do autismo, tendo o principal foco na autonomia dos autistas e o potencial deles evidenciados na internet. Ele ainda dá palestras sobre autismo no Brasil inteiro. Aos 7 anos de idade, descobriu o TEA de forma tardia, e desde então, se presta a vencer desafios e passar informações sobre o transtorno.

A história de Marcos
Em meio a complicações de parto, Marcos passou por problemas graves. O primeiro foi uma ruptura de uma membrana do coração que ocasionou uma Comunicação Interventricular (CIV). Atrelado a isso, foi necessária uma cirurgia de emergência, pois o sangue vazava do coração para o pulmão, ocasionando uma complicação pulmonar. O outro problema identificado aos três meses de idade foi a lesão de três pontos do cérebro. Neurologistas constataram que ele não viria a falar, nem caminhar, e que iria praticamente vegetar. A expectativa era do falecimento com 1 ano de idade em decorrência de morte cerebral.

Tendo passado por esse processo, os pais de Marcos conhecem um método de estimulação, desenvolvido pela escola Charlotte, na cidade de Brusque, em Santa Catarina, que se chama Véras. Interpretação brasileira do método desenvolvido nos anos 1940 por Glenn Doman, o método consiste em desenvolver o cérebro da criança aproveitando tudo aquilo que se pode absorver do ambiente e da interação. Marcos embarcou em conjunto com seus pais em uma jornada de descobrimento, resignação e muita luta. Somente aos quatro de idade, depois de um longo período de tratamento, que os métodos começaram a surgir efeitos. A partir desse momento, então, ele conseguiu desenvolver as habilidades falar e caminhar.

Como descobriu o autismo?

Toda a falta de contato visual e a sensibilidade aos barulhos foi explicada quando aos meus 7 anos e meio uma psicopedagoga que estava fazendo uma especialização que concernia ao autismo, veio até nós e comparou o meu comportamento a todas as características e traços de autista. Até então, nós atribuímos que o meu comportamento era fruto da lesão cerebral. Isso já se fazem dezoito anos, e não haveria a menor possibilidade de informação sobre autismo que se têm hoje em dia. Então, o que eles fizeram (os pais), foi resolvido que eu seria tratado da mesma forma, como antes, com método de Glenn Doman, enquanto ainda não encontravam nada mais conclusivo sobre autismo.

Crescer dentro do espectro autista é um desafio?

O tempo foi passando, e eu fiquei muito retraído com os amiguinhos. Então, os meus pais perceberam que tinham que trazer os meus amigos para cá (em casa), então, inventaram acampamentos, inventaram que eu tinha saudades deles (os amigos) e que eu queria brincar com eles. Pegaram uma turma de outros amiguinhos e eu ficava só cinco minutos brincando com eles, porque a criançada fazia muito barulho, fazia muita coisa ao mesmo tempo e eu não conseguia nem me expressar naquele meio de informação, nem explicar pra eles porque eu ficava só quinze minutos brincando. Eu comecei aos poucos a fazer amizades com o tempo, influência direta da minha mãe.

Como surgiu a ideia de ser produtor de conteúdo do Youtube?

A partir dos 13 anos de idade, eu comecei a refletir sobre o que era o autismo. Em meio à época da adolescência, à época dos namoros, eu percebi que nunca estava conectado aos grupos, e eu percebi foi a hora de eu começar a pesquisar sobre o tema para eu me informar melhor porque eu tinha determinados comportamentos, porque era tão difícil chegar ao próximo. Eu comecei a reunir material, em conjunto com o que meus pais me falavam e com que eu pesquisava na internet. Aí eu comecei a perceber e me questionar: ‘Poxa, se eu tivesse entendido isso antes, teria sido muito melhor.’ Foi aí que isso despertou uma faisquinha na minha cabeça pra fazer alguma coisa: ‘Opa, eu posso informar’. Mas daí com treze anos, eu pensei: poxa, eu não tenho idade para postar coisas na internet. Mas a ideia estava ali. Passados três ou quatro anos, eu comecei a postar vídeos no meu antigo canal chamado ‘Marcos Petry’, lá eu postava vídeos meus cantando e tocando violão. Ai eu percebi que as pessoas interagiam entre si (nos comentários do vídeo), e elas pediam para que eu cantar e cantar músicas e avaliavam o conteúdo do vídeo. Aí pensei: Aquelas ideias de autismo caberiam bem aqui perfeitamente. Foi aí que eu peguei uma câmera velha, de segunda mão e um tripé improvisado com uma pilha de livros e eu fiz um vídeo apresentando o novo canal ‘Diário de um Autista’.

O canal Diário de um Autista é a principal referência em autismo no Youtube

O canal Diário de um Autista é a principal referência em autismo no Youtube

E as palestras sobre autismo, como surgiram?

Eu tenho uma tia que é professora de um colégio, e nesse colégio aconteciam muitos casos de bullying, principalmente atribuído a pessoas com deficiência. Ela não conseguia mediar direito a situação, pois o índice de bullying no colégio era muito grande. Foi aí que ela me chamou: ‘Por que tu não vens palestrar aqui no colégio, conversar com alunos? Então, eu pensei: ‘Eu vou focar no autismo, é o que eu entendo melhor.’ Foi aí que nasceu a ideia das palestras, a primeiro momento, foi focada no bullying de maneira geral, mas com enfoque em autismo, na minha experiência. Isso em 2016. Foi aí que pessoas do Brasil inteiro começaram a se interessar, e eu passei a associar o trabalho das palestras com o do canal.

Qual é o seu processo para criação dos livros?

Eu comecei a escrever por hobbie, aquele primeiro livro (Contos de Meninos e Meninas Contos de Homens e Mulheres) eu escrevi para falar de como as pessoas utilizam a tecnologia de forma errada, e de como ela afasta um do outro no quesito relação. Eu comecei a escrevê-lo bem cedo, eu ficava me balançando sozinho pela casa e murmurando coisas. Até que o meu pai me aconselhou: Marcos, porque tu não pega essas histórias e começa a escrever ao invés de ficar falando sozinho? A partir desse momento, eu fui enchendo o caderno, até que eu pensei: ‘Poxa, eu sei escrever.’

E qual é a temática do último lançado?

Depois em 2018, veio a necessidade de escrever outro (Memórias de Autista por ele mesmo) pra falar de questões que não estavam lá no youtube, pra falar de questões que sempre perguntavam. Sobre as histórias da minha infância, de como foi brincar com os outros, como foi sentir o mundo. Foram questões que eu não podia responder com um vídeo no youtube, daria um vídeo enorme. Então, eu escrevi em forma de crônica para ser mais divertido de ler, e apresentei um texto com linguagem minimalista.

Qual foi o fato que desencadeou a sua busca intensiva de informações sobre autismo?

Eu fiz tudo isso pra eu me sentir seguro, e para parar de fazer as pessoas especularem. A especulação por si só, é muito ruim. Quando eu ia pra escola, sempre apontavam: ‘olha lá, olha o deficiente da Alerte e do Orlando’. E ninguém de fato sabia qual era a deficiência. Eu, por exemplo, faço movimento repetitivo e as pessoas pensam: ‘ele tá ficando louco’. Eu queria fazer as pessoas pararem de especular da auto estimulação ou da estereotipia como é chamada pelos médicos. Então, eu percebi que quando eu comecei a fazer os vídeos, as pessoas que eu conhecia começaram a me parar na rua e afirmar: ‘Nossa, eu não sabia tanta coisa sobre o autismo’.

Para fechar, quais são suas definições do autismo?

O autismo é outra forma de processar as informações que estão no teu meio. Os estímulos, como cheiros, cores, toque ou até mesmo a fala dos outros. Tudo é processado de uma forma diferente e é processado muito aos poucos. Eu definiria assim o autismo. Basicamente é um grupo de desordens complexas no cérebro que afetam três processos no cérebro: De comunicação, de reciprocidade e caráter gestual. O autista geralmente não lê sutilezas, por exemplo. E ele acaba sendo literal.

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