Cidades

ESPECIAL: A vida por trás das entregas

Em meio aos perigos diários, motoboys lutam por melhorias na profissão

Sobre duas rodas, pessoas passam a maior parte do tempo se dedicando a ganhar dinheiro. Muito além disso, motociclistas, moto frentistas ou mais conhecido como motoboys, também fazem ações em prol de campanhas para ajudar a sociedade.

A profissão é perigosa porque os motoboys não são respeitados no trânsito. Muitas frases como: “que cara louco” ou “é por causa deles que acontecem os acidentes”. As reclamações são diversas, o reconhecimento é pouco. Para os motociclistas que realizam as entregas de lanches, medicações ou encomendas o prazo é curto e a velocidade é essencial.

O tempo para entrega é curto, agilidade é fundamental

O tempo para entrega é curto, por isso agilidade é fundamental

A rotina de Willian Kuzman já foi muito cansativa. Atualmente, ele trabalha com entregas duas vezes na semana. “Hoje, minha rotina é bem melhor. Quando eu era autônomo, trabalhava direto. Já cheguei a trabalhar de segunda à segunda, das 8h da manhã até meia noite. Com o salário que ganho fixo não preciso ficar me matando, até aprendi a andar devagar e administrar melhor meu dinheiro”, relatou Willian.

A vida de um motoboy nem sempre é fácil. Uns nasceram para isso e outros apenas viram na profissão um meio mais rápido e fácil para ganhar dinheiro. José Victor Aires Amorim, de 25 anos, trabalha como motoboy há 10 anos, sua vida gira em torno de motos. “Eu iniciei com 15 anos fazendo entregas em depósitos de gás em Planaltina de Goiás. Já pensei em desistir da profissão, até parei de rodar, mas é viciante”.

Motoboy há 10 anos, Victor Aires

Motoboy há 10 anos, Victor Aires tatuou um capacete e marchas de moto

Além de fazer entregas durante à noite para uma pizzaria, Victor se dedica à mecânica de motos no horário da manhã e à tarde. Dependendo da demanda, pode se estender até a noite. As marcas que carrega são de amor a profissão. Tatuou o símbolo de um capacete e também marchas da moto. Mas outras marcas foram deixadas pela profissão quando teve um acidente e quebrou a clavícula.

Para o motoboy Sérgio Araújo, de Itapemirim – Santa Catarina, é preciso haver algumas mudanças na sua região. “Muitas das vezes pensei, sim, em desistir, mas é o que sei fazer de melhor. Então, não trocaria mais por outra profissão. Na minha cidade falta muita coisa, principalmente uma cooperativa ou um sindicato, que não tem”.

Carlos de Oliveira Lima, de 39 anos, trabalha há 15 anos como motoboy em Curitiba e conta sobre a sua rotina cansativa. “Acordo às 7h, levo os filhos na escola e começo a trabalhar. Tem dias que não volto nem para almoçar. Retorno à tarde, descanso um pouco e vou para a pizzaria 3 dias por semana, segunda, terça e quarta. Quando estou de folga me dedico aos meus filhos e sempre que posso vou pescar. Iniciei aos 24 anos trabalhando à noite. Em 2009 passei a trabalhar só com moto. Já pensei em desistir, mas depois de tantos anos peguei amor ao trabalho e o fato de ganhar o que nenhuma empresa me pagaria faz com que eu não pare”.

Por iniciativa de Willian Kuzman, de Joinville – Santa Catarina, foi criado um grupo que une motoboys de vários estados. “A ideia surgiu quando eu estava debatendo sobre peças de moto num Facebook de motoboys e entregadores. Comentei na página que iria fazer um grupo no Whatsapp, que se chamaria Motoboys do Brasil e bombou comentários com muitos números. Hoje, o grupo conta com 256 membros. Lá, compartilhamos momentos alegres e tristes e ajudamos também aqueles do grupo que precisam, fazendo vaquinha online com depósitos bancários”.

As parcerias dos motociclistas são realmente impressionantes. Eles utilizam grupos com integrantes de todo o Brasil para se comunicar entre si e ajudar quando acontece algo. Quando um está em um estado diferente ou até mesmo quando fura um pneu ou acaba a gasolina. Mas além disso eles realizam ações de arrecadações de alimentos para pessoas que sofreram perdas por consequências de catástrofes ou que não tenha boas condições financeiras. A ação mais recente foi feita na páscoa quando os motoboys de Matinhos – Paraná realizaram arrecadações de doces e chocolates para as crianças carentes.

Momento da entrega de arrecadações dos motoboys de Paraná

Momento da entrega de arrecadações dos motoboys de Paraná

David Ismailer Morais, de 28 anos, junto com os integrantes do grupo, tiveram a vontade de ajudar quem mais precisa. “A ideia surgiu quando estávamos no grupo e iríamos fazer um caixa para arrecadar cestas básicas. Depois trocamos ideias e por que não fazer uma ação para a páscoa já que estava chegando? Então resolvemos fazer. Todo mundo abraçou a ação, divulgamos no grupo e recebemos apoio. O intuito disso é arrancar o sorriso dessas crianças e é muito gratificante”.

O objetivo da ação era alcançar 500 crianças e chegaram a 720 e ainda com quatro cestas de páscoa. Famílias carentes receberam a doação. “Eu acho que no fim das contas quem mais se emocionou e saiu de alma lavada foram os participantes e apoiadores”, disse Pedro Luiz.

Segurança no Distrito Federal

O Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, desde o ano de 2015, realiza Treinamento de Primeiros Socorros e Pilotagem defensiva para diminuir o número de acidentes envolvendo motociclistas. Hélcio Souza, 1° Sargento e Chefe da Subseção de Moto Resgate, fala como o curso é realizado. “Esse curso foi desenvolvido para minimizar a quantidade de acidentes envolvendo motociclistas. No Moto Resgate utilizamos motocicletas para fazer o atendimento pré-hospitalar e a maior quantidade de acidentados que nós pegávamos eram motociclistas. Nós sabemos que moto é o veículo que precisa de habilidade, e como nós fazemos vários cursos para trabalhar nessa função, pensamos por que não passar esse conhecimento para a comunidade? A partir disso a equipe bolou o projeto de pilotagem defensiva. Inicialmente nós damos uma hora aula de atendimento pré-hospitalar voltado ao atendimento de queda de motocicleta. Como é um período muito curto nós só orientamos os candidatos aqui a como acionar, a melhor forma de agir naquela situação. Então é uma coisa bem básica mesmo, mas que a atender melhor essa vítima”.

O resultado vem sendo positivo. “O feedback que nós temos aqui dos alunos que já fizeram o treinamento são vários e vários relatos de que o pouco que eles aprenderam aqui os tirou de várias situações que poderiam ter resultado em acidentes. Nós focamos na conscientização de limite, entender que a motocicleta é um veículo bastante vulnerável que precisa de maiores cuidados para não se envolver nos acidentes de trânsito”, diz Hélcio.

 

Glauber Peixoto, assessor de comunicação do Detran-DF, diz que “nós podemos falar de pelo menos 2 ou 3 casos em média por dia envolvendo esses motociclistas, principalmente esses encarregados de entrega que são os moto frentistas.  Realmente é um número muito alto. Disparadamente os motoboys são os mais envolvidos em acidentes de trânsito. Existem, inclusive, anuários mostrando que 90% dos acidentes de trânsito acontecidos no Brasil com motociclistas são com as motos de até 150 cilindradas, ou seja, essas motos que fazem entregas. Aqui no DF a profissão de moto taxista não é regulamentada”.

O motoboy de 53 anos, Pedro Luiz Alves Batista, pensa todo dia em sair da profissão. Há dois anos e meio voltou a trabalhar definitivamente nas ruas. “Hoje, no Brasil, é muito difícil a profissão. Basta aparecer uma oportunidade que eu trocaria”. Para ele o momento mais difícil foi quando seu filho presenciou um acidente de moto. “No dia do acidente, meu filho estava parado na esquina e presenciou tudo. Foi muito difícil ter que lidar com a dor e tranquilizá-lo ao mesmo tempo, mas foi muito importante ele estar ali na hora”.

Pedro passa tanto tempo fora de casa que seus colegas de profissão se tornaram parte da família. “ Não temos sábados, domingos e nem feriados. Trabalho em um restaurante entregando marmita das 11h às 14h, à noite das 18h à meia noite todos os dias. Nos horários vagos faço algumas corridas quando me chamam, então trabalho o dia todo”. Pedro Luiz já sofreu acidentes graves entre eles o que rompeu os ligamentos do pé direito. Precisou ficar parado durante três meses e desde 28 de janeiro de 2018 espera pelo INSS para realizar exames.

“Falta reconhecimento da profissão pelos órgãos competentes, falta a população se conscientizar que motoboys não são marginais, falta os próprios motoboys se valorizarem como profissionais se organizando em associações e sindicatos. Faltam cursos para motoboys e patrões exigirem menos dos seus funcionários. Além disso, falta conscientização no trânsito”, relata o motoboy.

Os prejuízos da informalidade

Os motoboys são importantes e estabelecimentos precisam que sejam ágeis durante as entregas para que o alimento ainda chegue bom até o cliente. Porém muitos trabalham informalmente e não tem seus direitos.

Luiz Carlos Garcia, presidente do Sindicato de Moto Frentista e Moto Taxista no Distrito Federal fala da importância da criação do sindicato. “O sindicato surgiu através da necessidade da categoria, entrou a terceirização da categoria. Antes era eu e o patrão, depois da terceirização sou eu, a terceirização, depois o patrão. Conclusão: é menos 40 por cento ou 50 de ganho. Após isso fundamos uma associação. Teve vários fatores, terceirização, aplicativo estilo de empresa robô. A associação foi fundada em 1997 e até 1998 nos organizamos e vimos que tínhamos que fundar um sindicato. Demos entrada no Ministério do Trabalho em 1998 com processo e o Cadastro Nacional de Identidade Sindicais. Três anos depois conseguimos uma carta sindical. ”

Em 2001 o Sindicato foi fundado, mas somente no ano de 2009 a primeira lei da profissão foi regulamentada.

Luiz Carlos faz uma crítica ao trabalho por meio de plataformas digitais. “A relação trabalhista vem cada vez se precarizando, levando o trabalhador a trabalhar em uma plataforma que não tem CLT. Eu não sou contra nenhum desses aplicativos, iFood, Uber Eats, vários. Todos para mim, são uma plataforma e uma empresa robô. Eu não sou contra eles, sou contra a forma como eles contratam e prestam serviços”, relata.

 

David Ferreira dos Santos trabalha como motoboy no Distrito Federal e fala sobre seu ganho médio trabalhando para aplicativo e clientes. “Eu trabalho 25 dias por mês. Claro que geralmente eu trabalho à noite. Eu saio de manhã para Brasília, às 10h, e fico rodando até às 17h30. À noite eu volto para Planaltina de Goiás e fico até a meia noite fazendo entregas para uma lanchonete. Eu tiro de R$ 100 até uns R$ 150 por dia, depende muito. Se a pessoa se esforçar consegue tirar até mais”.

Segundo relatos dos motoboys, quem trabalha por conta própria e dedica grade parte do seu dia para a função, consegue tirar uma boa quantia em dinheiro no final do mês. A maioria desses profissionais que fazem entregas não trabalham com carteira assinada e quando se acidentam ou se ausentam da rotina acabam ficando sem receber nada no mês. A luta é por melhorias na qualidade de vida e no trabalho.

 

 

Estatísticas de acidentes fatais

Em 2018, dos 263 acidentes fatais, 82 envolveram motos, representando 31%. Comparando com o ano de 2017, houve redução de 4% dos acidentes fatais envolvendo moto. Dos acidentes fatais ocorridos em 2018 envolvendo motos, colisão representou 60%. O dia da semana com mais acidentes foi o sábado, com 18 acidentes (22%). O período da noite (18h – 23h59) foi predominante, com 35 ocorrências (43%).

Vítimas fatais

Das 279 vítimas fatais em 2018, 85 morreram em acidentes envolvendo motos, sendo que 62 eram motociclistas (73%). Dos motociclistas mortos, 97% eram do sexo masculino. A faixa etária com mais vítimas foi de 20 a 29 anos, 24 casos (27%). 11 motociclistas mortos não eram habilitados para moto (18%).

Condutores de acidentes fatais

Entre os 376 condutores envolvidos em acidentes fatais, 84 eram motociclistas (22%), sendo que 95% eram do sexo masculino, 29% pertenciam à faixa etária de 20 a 29 anos e 18% eram não habilitados para motos. Ainda, 74% dos motociclistas envolvidos em acidentes fatais morreram e 19% ficaram feridos.

Frota de veículos no DF

A frota de motos em dezembro de 2018 foi de 203.483. A frota de carros em 2018 no Distrito Federal foi de 1.746.820 veículos.

Fonte: Detran DF

A Lei 12009 de 29 de julho de 2009

Regulamenta o exercício das atividades dos profissionais em transporte de passageiros, “mototaxista”, em entrega de mercadorias e em serviço comunitário de rua, e “motoboy”, com o uso de motocicleta, altera a Lei no 9.503, de 23 de setembro de 1997, para dispor sobre regras de segurança dos serviços de transporte remunerado de mercadorias em motocicletas e motonetas – moto-frete -, estabelece regras gerais para a regulação deste serviço e dá outras providências.

Art. 1o Esta Lei regulamenta o exercício das atividades dos profissionais em transportes de passageiros, mototaxista, em entrega de mercadorias e em serviço comunitário de rua, e motoboy, com o uso de motocicleta, dispõe sobre regras de segurança dos serviços de transporte remunerado de mercadorias em motocicletas e motonetas – moto-frete -, estabelece regras gerais para a regulação deste serviço e dá outras providências.

A lei foi regulamenta pelo presidente que estava em exercício, Luiz Inácio Lula da Silva.

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