Educação

Possível “pente fino ideológico” no Enem 2019 divide opiniões

Maior avaliação do país foi envolvida em polêmicas no decorrer do ano

Desde a criação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 1998, nem o Ministério da Educação, nem o próprio Presidente da República haviam interferido na elaboração das provas. No ano de 2018, ele havia dito em vídeo publicado na internet que iria “tomar conhecimento da prova antes” da realização do Enem, medida que confronta critérios técnicos e de segurança do exame. Entre educadores, o sentimento no momento é de desconfiança quanto ao futuro da maior avaliação do país.

A professora de língua portuguesa Alana Guedes, que atualmente leciona em 3 colégios de Brasília, explica que apesar da possível mudança, o aluno precisa se preparar para persuadir o leitor com argumentos condizentes com uma ética e moral que os conduza a não violar direitos humanos. Por isso, é essencial a capacidade de compreender o mundo e as pessoas como seres pensantes, além de mostrar empatia.

“Não existe um receio que a limitação interfira nas notas, já que os estudantes continuam livres para pensar e argumentar e a diversidade já está inserida no cerne social atual,” diz Alana. Segundo ela, os possíveis temas que podem ser pedidos são: violência contra a mulher (feminicídio), temas conservadores, como a onda militarista, os ônus e bônus desse novo governo; direitos coletivos e atuantes nos Direitos Humanos.

A docente relata que os estudantes devem ter alguns cuidados em relação ao texto que envolvem apresentar um tópico frasal e argumentos coerentes à temática, não entrando em contradições e nem apresentando opiniões extremistas. “Mesmo que o governo tenha mudado, os corretores continuarão com os mesmos critérios avaliativos, logo, o domínio da norma culta, compreensão da proposta, as seleções verbais, conhecer a estrutura do texto dissertativo e a proposta de intervenção permanecerão como critérios para uma boa elaboração textual”, opina.

De acordo com a professora de português e literatura Ana Lúcia Reis, o receio existente em relação às notas vem dos próprios alunos que se acostumaram ao longo dos anos com temas pré-estabelecidos, fáceis para professores preparadores para o Enem jogarem com a sorte, tentando acertar os temas propostos. “Vivemos dentro de um sistema e devemos como cidadão nos adequar a ele. Os alunos não devem se prender a temas pré-estabelecidos, se comportando como “robôs”, não é desse tipo de cidadão que nossa sociedade precisa. Precisamos de seres pensantes capazes de se adequarem às mudanças”, diz a professora.

Ela explica que os alunos precisam ter cautela ao levantarem situações políticas em questão e aposta em temas como segurança pública no Brasil e sistema prisional brasileiro.

A estudante Eduarda Magela, de 20 anos, já pega firme nos estudos há 2 anos. Isso por que seu sonho é cursar Direito na Universidade de Brasília e, para isso, dedica até 6 horas do seu dia para exercícios, leituras e resumos. Como a família não tem condições de pagar uma faculdade particular, ela vê no Enem uma grande oportunidade de dar esse orgulho aos pais. “Acho que o Enem naturalmente é uma prova mais tranquila do que o vestibular tradicional, então o foco tem que ser total”, diz a estudante.

A estudante Eduarda Magela prioriza resumos e leituras que aparecer no exame

 

Mesmo já realizando a prova anteriormente para ambientação, ela explica que esse ano alguns colegas comentam sobre a desorganização do novo governo. “É um entra e sai de ministros, muda isso, muda aquilo e depois voltam atrás. A gente fica sem entender”. Ela está confiante, mesmo com a pressão natural que ronda os jovens nesta etapa.

Um método de estudo que adota e recomenda é refazer as provas do exame de anos anteriores, já que dá uma base do que a banca costuma cobrar. “Estou estudando bastante e estarei com uma boa bagagem independente das mudanças que aconteçam”, finaliza a menina.

Atitude polêmica

O ano de 2019, inegavelmente, começou com muitas discussões. Ainda mais quando se fala sobre o governo do presidente Jair Bolsonaro. Logo após vencer as eleições, Bolsonaro criticou questões do Enem e disse que tomaria conhecimento do conteúdo antes de a prova ser distribuída para aplicação.

Isso tudo por um motivo: Uma das questões do último ano, que citava texto jornalístico que abordava um dialeto da comunidade LGBT, havia sido questionada por Bolsonaro. Em 2015, o tema da redação do Enem foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. A prova trazia ainda uma citação da filósofa francesa Simone de Beauvoir, o que foi considerado uma tentativa de doutrinação por parte do então deputado federal e candidato à Presidência. Até o mês de maio, o presidente não pediu para ver a prova, como prometido.

O Inep, órgão do Ministério da Educação responsável pelo Enem, chegou a anunciar em fevereiro de 2019, a criação de uma comissão para fazer um pente fino ideológico dos itens. A comissão teve apenas 10 dias para a conclusão dos trabalhos, porém o resultado da análise nunca foi divulgado. A realização do exame está marcada para os dias 3 e 10 de novembro e registrou 5,09 milhões de inscrições confirmadas de acordo com o órgão.

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