Comportamento

ESPECIAL: Masculinidade tóxica encontra espaço nas redes sociais

Anonimato e grupos fechados nas redes sociais são um ambiente propício para a disseminação de comportamentos masculinos agressivos

Não é tão difícil encontrar nos comentários em posts nas redes sociais casos de ataques feitos por homens perante assuntos que alguns julgam ser pouco relevantes. Discussões acerca de pautas como feminismo, homofobia e relação social dos homens na sociedade são, muitas vezes, tachadas por eles como “mimimi”. Conteúdos, como o vídeo produzido pela Organização das Nações Unidas intitulado “Precisamos conversar com os homens?”, comentários de influenciadores digitais defendendo o feminismo e até mesmo temas de séries e filmes costumam ser alvos para críticas feitas na maioria por perfis sem nome e foto.Comentário no vídeo "Feminismo e igualdade de gênero no Brasil/O FUTURO É FEMININO" produzido pelo canal GNT

Comentário no vídeo “Feminismo e igualdade de gênero no Brasil/O FUTURO É FEMININO”, produzido pelo canal GNT

A construção da identidade masculina está fincada em noções que valorizam a conquista de poder no regime social. Esta construção de masculinidade hegemônica é pautada em princípios baseados em comportamentos agressivos. O psicólogo Felipe Fiúza, formado no Uniceub e autor da monografia “Homens que se conectam: a atuação do psicólogo em grupos de homens”, enfatiza as causas desse padrão de comportamento: “Essa construção está pautada em determinadas expectativas do que se configura o ideal de homem em nossa sociedade, como ser viril, racional, bem-sucedido, competitivo, independente, violento, dominador”.

São comuns comentários que invalidam a luta de minorias

São comuns comentários que invalidam a luta de minorias

 

As influências comportamentais provenientes da cultura midiática pautavam como o homem “ideal” deveria ser e agir. As redes sociais são um movimento de acesso à informação e cultura de massa. O antropólogo e professor Cláudio Ferreira destaca: “Com o advento do feminismo, reposicionamento das mulheres, o movimento LGBT, o masculino começa a entrar forçosamente em uma mutabilidade que vai dialogar com a moda, com a cultura de massa e quando chega as redes sociais isso fica muito mais próximo”. A quebra de padrões e ascensão do discurso de minorias representadas, como mulheres, homens gays, trans e negros, levantaram questionamentos diante do comportamento padrão de homens brancos hétero normativos.

Por outro lado, a quebra de paradigmas e o desmoronamento da soberania masculina na sociedade encontraram na internet um local “seguro”, com falsas sensações de anonimato para grupos resistentes se formarem. “Esses discursos machistas, homofóbicos são muito mais no ambiente de uma construção de redes sociais do que no ambiente de vida cotidiana”, destaca Cláudio Ferreira.

Carla Cíntia, estudante de secretariado, pontua que comportamentos machistas que afetam mulheres diretamente na vida fora do mundo virtual influenciaram ela a lutar a favor dos direitos das mulheres e do grupo LGBTQI+. “Com esse pensamento, temos uma luta constante por reconhecimento, no qual tentam mostrar que ambos os sexos podem ser

tratados com igualdade, mas uma grande parcela dos homens acredita em sua soberania”, relata. Ela também conta que como mulher declarada bissexual já sofreu muito preconceito e já se deparou com ataques virtuais contra amigos: “Me tornei forte para defender meus amigos gays que são atacados virtualmente com montagens ofensivas e até ameaças de morte”.

O começo de tudo

No início das trocas de informações na internet, chats e fóruns online agruparam homens que estavam perdendo espaço no mundo físico e encontravam no ambiente virtual histórias semelhantes e compartilhavam suas frustrações diante da mudança cultural. Grupos como “4chain” ganharam visibilidade por ser um espaço hostil, com trocas de informações sobre armamento e como provocar assassinatos em massa.

O “4Chain” ganhou visibilidade quando foram detectados como meio de troca de informações, disseminação de ódio a grupos minoritários, como mulheres e homossexuais, e espaço para culto de assassinos, como os garotos Eric Harris e Dylan Klebold, que mataram 12 pessoas no caso da escola Columbine, em 1999. Dentro desses fóruns fechados, longe das vistas da massa que está na internet, informações sobre armamento e constante inferiorização da mulher, inclusive com incitações de violência e até morte, são tópicos levantados por meninos que não encontram mais espaço para a supremacia masculina branca e hétero na vida real.

Na reportagem “Transgressão a Direita”, publicada na Revista Serrote, escrita por Daniel Salgado, ele conta da sua experiência ainda adolescente no fórum online “Vale Tudo”. “ Em seu auge, elas funcionavam como fóruns, organizadas em tópicos e com milhares de usuários em um ambiente caótico”, explica o jornalista no texto e afirma: “O fórum foi também um dos criadouros de uma cultura masculina adolescente cooptada pela nova direita brasileira. Seus membros se definiam como excluídos na ‘vida real’ por suposta feiura, declarada inaptidão social, gostos tidos como ‘exóticos’ ou mesmo falta de vontade de fazer amizades. Por isso, acreditavam eles, o mundo virtual deveria se adequar às suas vontades e tolerar seus costumes – dentre eles, a homofobia e o machismo.”

O tóxico de dentro para fora

As exigências sociais impostas aos homens os rodeiam desde o nascimento. Frases como “homem não chora” induzem desde cedo que homem de verdade não demonstra fraqueza, nem vulnerabilidade. A constante negação de qualquer comportamento que possa remeter ao feminino é prontamente colocada como característica de um homem afeminado. Felipe Fiúza discorre sobre o padrão imposto aos homens: “Determinadas expectativas do que se configura o ideal de homem em nossa sociedade, como ser viril, racional, bem-sucedido, competitivo, independente, violento e dominador”. Felipe elenca quais comportamentos são discriminados dentro do universo masculino“padrão”: “O homem deve se afastar de tudo que possa ser remotamente feminino, não podendo ser cuidadoso, sensível, dependente, passivo e afetuoso”.

Vinícius Lima, jornalista, usa suas redes sociais para discutir sobre o masculino hegemônico, mas relata que, a princípio, as redes sociais como um oásis do que seu comportamento ideal deveria ser, porém sua postura fora das telas de smartphones e computadores era outro: “Enquanto essa imagem era bem cuidada, esse perfil na internet tinha uma reputação linda, o Vinícius estava totalmente destruído pelo machismo, interna e externamente. A chave, quando decidi mudar, foi quando vi o quanto eu estava ferindo várias mulheres com meu machismo, inclusive minha companheira. Foi um processo de muita culpa, muita dor, até hoje é, mas muito prazeroso. Olhar para trás e ver como consigo hoje me conhecer melhor, como consigo me amar mais e me perdoar mais”, ele conta.

Vinícius também relata que a partir de sua mudança comportamental, amigos também foram influenciados e os conteúdos que consumiam e compartilhavam mudaram: “Decidi falar desse processo nas redes sociais porque achei que era algo muito rico para ser guardado só comigo. Então, todo conteúdo que consumo sobre o assunto, jogo em grupos de Whatsapp que tenho com amigos. Isso é muito louco. Anos atrás tínhamos grupos sobre pornografia e, hoje, para divulgarmos assuntos sobre masculinidade.”

A mudança de discurso

As redes socais não são apenas ambientes nocivos com comentários pejorativos, agressivos e depreciativos. Movimentos comandados também por homens buscam dialogar sobre possibilidades de ser homem de maneira mais saudável. Alguns exemplos são do perfil do “Prazer, ele” que no Instagram e no Twitter debatem sobre como o machismo se manifesta e promovem encontros para discutir esses temas.

Com a abertura do conceito de como ser homem, novos perfis trouxeram um outro parâmetro e vivência para a pauta masculina, mesmo que ainda sofram preconceitos e violência, como conta Eduardo Kimura, estudante de terapia ocupacional da Universidade de Brasília e homem trans: “Eu já sofri muito nas redes sociais. Em questão de cyberbullying, de ver vídeos ofensivos, ler comentários ofensivos. Mas eu não me lembro de fato de ser algo diretamente para mim, para me atingir. Mas, pessoalmente teve várias coisas, desde que eu me assumi um homem”.

A narrativa do homem gay geralmente colocado à margem das questões masculinas também agrega novos olhares. Leonardo de Sousa, psicólogo da área de comportamento, comenta sobre o homem gay dentro desse ciclo: “O modelo hegemônico de masculinidade é pautado na hétero normatividade, então para um homossexual se encaixar ele precisa se assimilar. Então, elepode dissimular essa identidade sexual e conseguir ser inserido nos contextos de sociabilidade”.

O processo de desconstrução de padrões impostos há décadas não mudará de uma hora para outra. Mulheres e homossexuais também disseminam discursos machistas, por ser o ambiente em que foram criados e educados. Vinicius Lima enfatiza que o autodescobrimento e aceitação é o primeiro passo para um lento, porém possível, processo de desconstrução: “Acredito que o primeiro passo é nos assumirmos como machistas. Depois, acredito muito no poder do diálogo. Falar dos nossos problemas, das nossas feridas, dos nossos processos. Quando a gente fala, as pessoas se identificam com o nosso processo e nos curamos juntos”.

A masculinidade abusiva no trânsito

Contudo, a disseminação de comportamentos abusivos atinge homens e mulheres fora no ambiente virtual. No trânsito, 82% de vítimas de morte no trânsito são homens. Atitudes como o não uso dos equipamentos de segurança, abuso de ultrapassagens e utilização de aparelhos eletrônicos acabam se tornando frequentes causas de acidentes. E 75% das indenizações pagas por acidentes são feitas por homens jovens, entre 18 e 34 anos, segundo dados do DPVAT.

A violência contra as mulheres também é uma consequência dessa distorção do que ser homem representa. De acordo com dados de 2019 da ONG Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), entre 2017 e 2018, houve uma redução de 67% dos feminicídios, no Brasil. Porém, a cada 100 mil mulheres, quatro são mortas. Número maior que a média mundial de 2,3 mortes por 100 mil mulheres.

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O assunto em filmes, séries e documentários

The Mask You Live In: documentário do Netflix expõe como o machismo afeta e prejudica meninos e homens.

O documentário da Netflix traz depoimentos reais das consequências da masculinidade tóxica

O documentário da Netflix traz depoimentos reais das consequências da masculinidade tóxica

Homens: a série criada e estrelada pelo humorista Fábio Porchat conta a histórias de quatro amigos se redescobrindo como homens em uma realidade de ascensão das mulheres.

Eu não sou um homem fácil: o filme de comédia distorce os estereótipos de masculinidade, quando os homens se tornam alvos de assédio do dia-a-dia.

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Episódio do podcast Teologia de Boteco: discute sobre formas que a masculinidade pode ser exercida, quebrando padrões de violência e machismo.

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