Cidadania

ESPECIAL: Tecnologias mostram novos horizontes para pessoas com deficiência

A tecnologia quebrou barreiras e tem sido um suporte na comunicação para surdos e cegos

O uso de audiodescrição, do intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e da legenda nos telejornais e nas redes sociais são recursos essenciais para que as informações cheguem de forma clara aos cegos e surdos sem que esse público precise recorrer a outros recursos. A tecnologia tem feito a diferença, pois tem sido uma ponte facilitadora para a comunicação dessas pessoas.

Olga Freitas, 52 anos, é professora de Libras e também coordena a área de inclusão no Centro Universitário Iesb onde trabalha. Segundo ela a principal dificuldade em promover a inclusão de surdos e cegos na universidade é a falta de compreensão de alguns profissionais e estudantes quanto à potencialidade das pessoas, independentemente das deficiências, e o desconhecimento sobre os direitos e a acessibilidade das pessoas com deficiência.

Olga explica que quando os alunos chegam no ensino superior, os cursos se adaptam para recebê-los e todo processo é feito com base nas orientações constantes dos laudos ou relatórios médicos e de especialistas.

O universitário  Iury Moares enfrenta desafios para se atualizar das notícias diárias

O universitário Iury Moares enfrenta desafios para se atualizar das notícias diárias

Iury Moraes, 25 anos, estudante de Letras Libras da Universidade de Brasília (UnB) gosta de se manter informado sobre as notícias do mundo. “Não assisto muito às notícias, depende da minha rotina de vida. Minha maior dificuldade ao querer assistir um jornal na TV é a utilização da legenda em língua portuguesa”. Em relação às notícias, Iury prefere acessá-las na Internet, pois às vezes as notícias na TV apresentam a legenda em português de forma muito rápida. “Leio as notícias na Internet para esclarecer melhor as notícias mundiais.”

Telecomunicação para surdos

TV INES oportuniza acessibilidade aos surdos

Na TV INES, apresentadores e equipe inclui pessoas surdas

Aulio Nóbrega, 42 anos, é apresentador surdo do jornal “Primeira Mão”, também apresentado por Roberta Savedra, 38 anos, jornalista surda da TV INES.

No canal, todos os apresentadores são surdos. Já a equipe de produção é formada por ouvintes e surdos. “Nossos apresentadores e repórteres são selecionados através de teste de vídeo e aprovados pelo INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos)”, diz Aulio.

A TV INES conquista de maneira crescente e constante grande audiência. “Estamos na web TV 24 horas por dia (em streaming e vídeo on demand), com transmissão via satélite, através de parabólica, e em aplicativos para celulares, tablets e televisores conectados à internet. Hoje, já são mais de 3,5 milhões de pessoas acessando a programação nos múltiplos canais de transmissão. Nossos seguidores nas redes sociais crescem a cada dia, já são mais de 44 mil seguidores no Facebook, 19,8 mil assinantes no Youtube, 11,2 mil seguidores no Instagram e mais de 36 mil downloads de app. E os desafios não param: pretendemos chegar às redes de transmissão por canal fechado até alcançarmos a TV aberta”, explica Aulio.

Aulio diz que a comunidade surda se mostrou bastante empolgada em ter uma TV apresentada por surdos, com acessibilidade em Libras e legendas, de maneira mais ampla. A evolução se deu com a participação de intérpretes de Libras.

“Eu, como jornalista e pesquisadora da UFRJ, percebi a demanda por notícias acessíveis em Libras. Após fazer um diagnóstico do conhecimento informal do surdo percebi a dificuldade na compreensão de matérias simples e de grande relevância, importante para a formação do surdo. A TV INES contempla toda a comunidade surda que é bastante heterogênea, com legendas e Libras. Também destaco a questão da identidade em ser uma TV produzida e apresentada por surdos”, destaca Roberta.

Aulio reforça que a TV INES é 100% acessível bilíngue. Para ele, para pensar em acessibilidade a mídia precisa pensar qual o seu público alvo. Há diferentes demandas de acessibilidade, uma vez que a população surda é bastante heterogênea. Também precisa conhecer não só a população surda como a estrutura da Libras antes de pensar no produto com foco na mesma.

Roberta acredita que a grande mídia é ouvinte uma vez que suas características de cobertura não contemplam a lacuna vivenciada pelos surdos. “Por exemplo, em entradas ao vivo o repórter visa aproveitar as imagens enquanto o surdo precisa fazer a leitura labial ou ter, de forma concomitante, o intérprete. Melhor ainda seria com o apresentador surdo. Mas a produção é mais complexa pois há a necessidade de o surdo se apropriar daquela informação antes de passar para seus pares. Na minha opinião, para que exista acessibilidade de forma plena aos surdos precisa formar surdos para informar. Uma TV para surdos precisa ser feita, principalmente, por surdos. ”

O que diz a lei 

A advogada Lucileide lembra que a legislação de acessibilidade ainda não é cumprida na totalidade

A advogada Lucileide lembra que a legislação de acessibilidade ainda não é cumprida na totalidade

Lucileide Galvão, 36 anos, advogada, lembra que a Lei 10.098, de 19 de dezembro de 2000 – que trata da Acessibilidade — trouxe em seu artigo 19 a obrigatoriedade de uso da língua de sinais ou legenda para garantir o direito de acesso à informação às pessoas portadoras de deficiência auditiva.

Na busca de aprimorar a legislação já existente houve a tentativa de aprovação do Projeto de Lei no 2.115, de 2011, de autoria do deputado André Dias partido, que foi arquivado em razão do fim do mandato.

Diante disso e em razão do rico e importante conteúdo houve o resgate do assunto através do Projeto de Lei 6.281, de 2016 de autoria do deputado Giuseppe Vecci, que estabeleceu a obrigatoriedade da adoção de legenda em filmes, programas de televisão, séries, telenovelas e espetáculos teatrais cuja produção tenha sido financiada ou patrocinada com o uso de recursos públicos. “Até o presente momento ainda não tivemos nenhuma demanda judicial que envolvessem os direitos relacionados a deficiências em geral.”

Hoje, todos os órgãos de defesa do consumidor, como Procon, Defensoria Pública, Ministério Público e o próprio judiciário possuem programas de acessibilidade permitindo que as demandas advindas de pessoas com deficiências sejam tratadas de forma prioritária. O acesso vai desde o atendimento pessoal nos órgãos ao acesso pelos atendimentos virtuais como os centros de conciliação que tratam de demandas pré-processuais.

“Na minha opinião a legislação existente atende a necessidade, o que falta realmente é um maior investimento na qualificação de profissionais habilitados para atender o público portador de deficiência, bem como uma maior fiscalização na execução da legislação existente. Precisamos melhorar as bases com a inclusão da disciplina de Libras nas escolas desde os primeiros anos”, destaca Lucileide.

Como familiar de uma portadora de deficiência auditiva Lucileide vive a dificuldade de conseguir acesso a cursos regulares de Libras para melhorar a comunicação. A advogada diz que,  muitas vezes, se sente culpada por até hoje não ter domínio na língua de sinais, mas ao mesmo tempo não consegue conciliar o curso de Libras com as atividades profissionais, em razão dos mesmos serem ministrados apenas em horário comercial. “Tenho orgulho de possuir uma sobrinha deficiente auditiva que ensina a surdos e ouvintes o poder da comunicação, pois quando tenho dificuldades em me comunicar é ela quem sempre encontra uma solução de forma a manter nossa relação estreita e sem limites para comunicação”, diz Lucileide.

Comunicação acessível

Camilla avalia que ainda há lacunas na comunicação para torna-lá acessível deficientes

Camilla Toledo avalia que ainda há lacunas na comunicação para torna-lá acessível aos deficientes

A jornalista Camilla Toledo, 40 anos, trabalha com comunicação há 17 anos. Atualmente atua como coordenadora de comunicação da Norte Energia na área de comunicação corporativa.

Ela explica que atualmente, a maior parte dos profissionais responsáveis pela produção de conteúdo já considera a veiculação de informações em plataformas multimídia, como televisores, computadores e smartphones. Isso possibilita que mesmo que o conteúdo não tenha sido produzido sob a premissa da acessibilidade os recursos disponíveis nessas plataformas (aplicativos de audiodescrição, uso de legendas ou intérpretes de Libras e ajustes nas cores/contraste de telas, por exemplo) contribuam com a compreensão e a participação das pessoas com deficiência envolvidas nesse processo comunicacional.

Profissionais de comunicação e empresas que não fizerem isso estão abrindo mão, segunda ela, de se comunicar com parcelas importantes da sociedade. “Trabalho em uma empresa sensível a estas questões e que se importa em levar informação qualificada ao maior número possível de pessoas. Nela, a equipe de comunicação é orientada a conceber produtos como materiais audiovisuais com locução e legenda, por exemplo”.

No que se refere à comunicação, Camila entende que os governos têm o dever de proporcionar uma comunicação de qualidade, acessível e transparente a todos os cidadãos. No entanto, não é isso que se vê na prática. “A aplicação da lei é pouco fiscalizada, tanto no âmbito da comunicação como do próprio ambiente urbano livre de obstáculos. Ainda temos muito a avançar”, pontua Camila.

O jornalista Rodrigo Farhat, 56 anos, é secretário de Comunicação Social do Conselho Nacional de Justiça. Segundo ele, no CNJ, a acessibilidade é sempre uma das pautas dos profissionais de Jornalismo e Comunicação do Conselho Nacional de Justiça.

Na empresa a acessibilidade é promovida, hoje, apenas nas redes sociais do Conselho Nacional de Justiça, que têm descrição da imagem feita no abre de cada post e nos vídeos do Youtube, nos quais as legendas são publicadas. “A tecnologia influencia muito a carreira do jornalista e hoje as áreas de atuação são inúmeras. O jornalista atual precisa ser multitarefa e multiplataforma e, por isso, precisa estar sempre atualizado.”

Uma jornalista surda no rádio

Karen Elysee, 21 anos, surda, é estudante de Jornalismo no Centro Universitário IESB. Quando entrou na faculdade diz que teve algumas dificuldades, mas aos poucos os professores e as disciplinas foram se adaptando.

A disciplina que mais marcou sua vida foi a de radiojornalismo, ministrada pelo professor Márcio Peixoto. “No começo tive dificuldades, medo de não conseguir. Por ser surda muitos julgaram impossível.”

A disciplina foi adaptada com vídeos de apresentação em Libras e tradução da intérprete de Libras fazendo a voz. Mas usando as regras de radiojornalismo sem perder nada de matéria. “O professor sempre se preocupava comigo. Nas aulas dele sempre me pedia para sentir as vibrações dos sons, aprendi muito”.

Ao final da disciplina os alunos apresentaram o último trabalho: um programa de rádio ao vivo. O programa “Esporte em Ações” na rádio do IESB, falou sobre inclusão no esporte. “Achei muito interessante esse programa de rádio. Eu fiquei muito nervosa, pensei que não ia conseguir, mas minha família, amigos e professor estavam lá, torcendo por mim. Eu consegui, fiquei emocionada, a experiência foi incrível. Eu pude representar a comunidade surda. Somos capazes de trabalhar em qualquer área, basta se esforçar.”

Para Karen, as rádios em precisam se preocupar mais com a inclusão de pessoas com deficiência, tanto no mercado de trabalho, dando mais oportunidades, como nos programas de rádio, com vídeos com intérprete de Libras, legendas claras e audiodescrição.

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