Meio Ambiente

Defesa do meio ambiente é desafio em “tempos de globalismo”

Surgida em movimentos de direita, pauta ambientalista tem enfrentado dificuldades diante do avanço de ideologias que acreditam que a defesa do meio ambiente é uma “conspiração internacional”

Uma linha de pensamento do atual ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, tem ganhado força na política nacional e internacional, apesar de ser bastante questionada principalmente pelos ambientalistas. A ideia consiste, para além de seus inúmeros significados, em acreditar em uma conspiração internacional, chamada de “globalismo” ou “marxismo cultural”, que busca destituir os valores de uma nação.

Em outubro do ano passado, Ernesto Araújo foi ao seu blog, intitulado “Metapolítica 17 – contra o globalismo”, para explicar esta suposta conspiração internacional. “A tática da esquerda consiste essencialmente no seguinte: sequestrar causas legítimas e conceitos nobres e pervertê-los para servir ao seu projeto político de dominação total”, escreveu. Em seguida, o ministro do governo de Jair Bolsonaro (PSL) utiliza a causa ambiental para exemplificar o enunciado.

Iniciado pelo conservadorismo, em meados do século 18, o movimento relativo à causa ambiental, segundo Ernesto Araújo, foi sequestrado e pervertido, nos últimos 20 anos, pela esquerda até chegar ao paroxismo, com a ideologia da mudança climática – o que ele chama de climatismo.

“O climatismo juntou alguns dados que sugeriam uma correlação do aumento de temperaturas com o aumento da concentração de CO² na atmosfera, ignorou dados que sugeriam o contrário, e criou um dogma ‘científico’ que ninguém mais pode contestar sob pena de ser excomungado da boa sociedade – exatamente o contrário do espírito científico”, explicou, ainda em seu blog.

Batizada de “neofascismo” pelo Observatório do Clima (OC), a ideologia defendida por Ernesto Araújo e membros da extrema-direita — de combater uma suposta conspiração internacional –pode causar riscos a nível mundial. Membro da coordenação do OC, Claudio Ângelo explica sobre a possibilidade de perder o controle sobre o desmatamento, o que tornaria as metas climáticas brasileiras impossíveis de cumprir.

“O neofascismo traz em seu bojo uma fragilização da democracia e um aumento do isolamento dos países, numa rejeição ao multilateralismo. E vários dos principais problemas do mundo, como a questão da imigração, o terrorismo cibernético, as crises do clima e da biodiversidade e os plásticos no oceano demandam cooperação multilateral e democracia para serem solucionados. Ou seja, o neofascismo está criando um mundo mais inseguro para todos”, destaca Claudio.

O ex-jornalista relembra que a proteção do meio ambiente é um tema historicamente ligado a movimentos de direita. O embrião do Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, nasceu em 1973, durante a ditadura de Emílio Garrastazu Médici (1969-74). Na ocasião, o ex-presidente criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), no âmbito do Ministério do Interior.

“É preciso deixar claro que a política ambiental não tem ideologia, a atmosfera não tem partido, as florestas não leem Gramsci e a água potável não vem de Cuba”, ressalta Claudio Ângelo. “A direita precisa recuperar essa bandeira, porque, quando o mar subir, as ondas não vão perguntar se você votou 13 ou 17. Todos estamos em risco. Todos precisamos buscar a solução. Todos nos beneficiamos de mais proteção”.

Campo de debate

Apesar de não enxergar este “neofascismo” a nível local, o deputado distrital Leandro Grass (Rede) concorda que a ideologia tomou conta de parte do governo Bolsonaro, assim como o de Donald Trump, nos Estados Unidos, e que pode causar uma certa confusão na mente das pessoas. Sociólogo, pesquisador e gestor cultural, o parlamentar explica que o termo acabou virando um slogan político.

“É uma estratégia política, de tentar fortalecer o discurso nacionalista, atrelado a uma suposta soberania nacional que precisa ser defendida”, pontua. Segundo o distrital, é um slogan que defende uma visão de que o Brasil tem que ser somente para brasileiros, “ignorando uma nova dinâmica da comunicação, do comércio internacional e da troca de conhecimento entre os países”.

Entre os prejuízos que a ideologia pode causar, Leandro Grass exemplifica com a desconstrução do pensamento científico conquistado ao longo de toda a humanidade. “A pós-verdade, que contraria a construção científica ao longo de muitas décadas, é muita perigosa. Quando você cria uma dissidência em relação a construção científica, acaba gerando uma fragilização das decisões políticas no campo socioambiental que nós defendemos nos últimos anos”, relata.

Eleito em 7 de outubro deste ano com pouco mais de 6,5 mil votos, o professor é o único representante da Rede Sustentabilidade na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Assim como seu partido, o parlamentar acredita na construção de uma sociedade mais sustentável, inclusiva, igualitária e diversa.

Assim, o político conta que um dos maiores desafios que tem enfrentado é o de não ter que fazer somente políticas ambientais. “Além de convencer as pessoas de que nós temos que promover ações ambientalmente sustentáveis, também temos que fazer essa disputa no campo ideológico da narrativa”, finaliza o distrital.

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