Política

O eleitorado mudou?

Participação ativa de jovens de 16 a 24 anos foi muito determinante para a eleição do candidato à presidência ligado a extrema direita

A onda conservadora é uma realidade mundial. Para alguns pesquisadores, a ascensão da direita é irreversível e tende a se consolidar nos próximos anos. Os jovens têm sido considerados parte importante nesta guinada histórica, que no Brasil levou Jair Bolsonaro à presidência da República. Para o cientista político Aryosvaldo Toledo, esse crescimento da direita não é essencialmente político, mas principalmente econômico. “O neoliberalismo viu a necessidade de se fortalecer, fazendo passar suas propostas, seus projetos e garantir o seu sistema de dominação. Era importante estar consolidado politicamente nos países. O objetivo principal é de fortalecimento do capitalismo, porém um capitalismo bem voraz”, avalia.

A eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, é considerado um marco simbólico para alavancar a direita e reverter o avanço da esquerda. “A eleição do Trump fez com que a extrema direita no mundo inteiro ganhasse um novo aliado, a gente vê todos os movimentos dele no sentido de fortalecê-la”, destaca Toledo.

Liberais na economia, assim são taxadas as pessoas que concordam com a ideologia da direita. É quase um consenso entre os jovens dessa vertente que a economia e a política no Brasil necessitam urgentemente de uma renovação. Não satisfeitos com as medidas dos últimos governos para sanar problemas nessas áreas, enxergam na direita a reestruturação nacional. Para o analista de TI Pedro Vitor Alves, 22, a forma como a vertente lida com a economia é melhor. “O que mais me agrada é o livre mercado, a grande concorrência em vários setores, os preços baixos causados pela concorrência, o desaparelhamento do Estado, a rigidez que normalmente é empregada nas leis criminalísticas e as privatizações”.

O estudante Lucas Gimenes, 20, considera que a diminuição do poder governamental é uma das formas para o avanço. “Eu defendo uma participação menor do Estado para diminuir a corrupção enraizada em nossa política e, principalmente, promover o desenvolvimento econômico”. Assim também pensa a aluna de relações internacionais, Andressa Reis, 24. “Qualquer pessoa com um mínimo bom senso em economia sabe que quanto mais estatais o Estado tem, mais o contribuinte paga por isso e por um péssimo serviço. É preciso analisar quais as empresas que estão dando mais prejuízos e privatizá-las já”, defende Andressa.

O cientista político Bruno Garschagen se define como “conservador” e afirma que muitas pesquisas mostram que o brasileiro médio ainda acredita no protagonismo do governo sobre o desenvolvimento social e econômico. Dessa maneira, os diferentes setores da economia não podem se desprender completamente do governo, já que não se sustentariam independentes do Estado.

Uma característica do Brasil é que não há definição bem acabada entre direita e esquerda. Pessoas de mesmas vertentes concordam em determinados pontos e discordam em outros, mas ambas afirmam seguirem conceitos de certa ideologia política. Para Pedro Vitor, ser de direita é visar uma melhora na economia, com medidas propostas pelo segmento para melhorar a vida da sociedade em geral. Já Lucas Gimenes, que também se identifica com a direita, o conceito é diferente: “A direita descreve uma posição específica que aceita a hierarquia social ou desigualdade social como inevitáveis”.

Desde o início do governo, muitas manifestações já foram realizadas, principalmente sobre a reforma da previdência

Desde o início do governo, muitas manifestações já foram realizadas, principalmente sobre a reforma da previdência

Conservadores

Se na economia são liberais, nos costumes a direita está associada ao conservadorismo e à religião. Uma pesquisa feita pelo Ibope em outubro de 2018 apontou que a maior parte dos católicos e dos evangélicos tinha o candidato Jair Bolsonaro como favorito.

Apesar da identificação com um dos candidatos mais conservadores, parte dos jovens não se afina com a pauta defendida. Na avaliação de Andressa, a divergência está no conceito de família. “Somente um homem e uma mulher conseguem fazer um filho naturalmente e isso que é dito por família tradicional. Ponto. Mas o que não exclui o fato de que há outros tipos de família, por exemplo”.

Para Pedro, a diversidade de ideias, sejam elas quais forem, é fundamental. “Não concordo muito com o tradicionalismo porque estamos em uma sociedade cada vez mais diversificada, então querer impor uma coisa para as pessoas não faz mais parte dos dias atuais, cada um segue o caminho que for mais agradável”, conclui Pedro.

É justamente a diversidade um dos principais pontos de divergência. Uma das críticas da esquerda é de que a vertente política que governa o país pratica uma certa segregação com as minorias sociais, como mulheres, negros e homossexuais. O estudante Mateus Rodrigues, 23, considera uma política para “maiorias” extremamente negativa. “Não é uma questão de busca de privilégios. Estamos falando de casais homossexuais poderem adotar um filho, se casar, terem uma vida minimamente segura e viver em paz. Eu não consigo entender a complexidade para essa discussão porque é uma pauta puramente democrática, não é como se a gente tivesse que fazer uma revolução para dar direitos para os negros terem a carta de alforria”.

A secretária da Juventude do  PT no Distrito Federal, Letícia Espindola, considera que houve um retrocesso na democracia: “É complicado que em 2019 a gente tenha que lutar pela permanência dos nossos direitos e não lutar por mais direitos. Então para a gente é muito difícil”.

A liberdade de opinar inclusive pelo modelo de democracia que se quer é essencial para a Andressa Reis. Ela afirma sofrer retaliações por ser mulher e concordar com as ideias defendidas majoritariamente por grupos de direita. “Sou muito julgada, principalmente dentro da faculdade. A esquerda é a primeira a levantar a bandeira pela liberdade de expressão, mas quando você discorda é apedrejada”.

O conceito de família continua sendo diferente para a população

O conceito de família continua sendo diferente para a população

Estudante de ciências ambientais, Leonardo Sales, 22 anos, analisa que no momento pelo qual o Brasil passa é importante que a sociedade lute e se manifeste para garantir os próprios direitos. “Você deve lutar pelas suas causas. E outra, se você discorda, também tem que fazer a sua parte”. Ele lembra que o Brasil já foi marcado por diversas manifestações, o que deve motivar ainda mais as pessoas e, principalmente, os jovens para se erguerem a favor do bem para a sociedade.

Os dois polos ideológicos reconhecem discordar com os ideais do outro, mas admitem que o debate saudável é a melhor maneira de chegar a um consenso, sempre que possível. “Tem uma galera que a gente odeia, politicamente falando, mas a gente senta na mesa, conversa e debate durante o período eleitoral”, afirma Mateus. Para Pedro, o grande problema gerador dos conflitos é o radicalismo: “Radicalismo das duas partes e, às vezes, falta de conhecimento. Um debate não é feito caso alguma parte dele não tenha conhecimento necessário para a conversa”.

Nazismo é de esquerda ou direita?

Discussão mais recente que também gerou atrito entre as vertentes é se o nazismo é de direita ou esquerda. Comandado por Adolf Hitler na década de 20, o nazismo exercia um grande controle da população, foi responsável pelo assassinato de milhões de pessoas, principalmente judeus. Por apresentar certas ideias que compactuam com ambos os lados da política mundial, adeptos da direita e da esquerda tentam encaixar esse movimento no adversário, para diminuir a credibilidade. “É uma tentativa de reescrever a história, uma narrativa sem qualquer tipo de sustentação com a realidade, mas que é uma característica do nazismo e do fascismo e dos movimentos de extrema direita”, afirma o deputado federal Paulo Pimenta.

Pelo outro lado, o deputado estadual Arthur Moledo do Val defende que aspectos como a intervenção do Estado devem ser bem observados. “O nazismo se assemelha muito mais à esquerda justamente por causa dos controles estatais, dessa ideia de nacionalista de protecionismo, do Estado controlar a imprensa e não dar liberdade para o indivíduo, mas o nazismo é um negócio bem próprio e acho ridículo as pessoas dizerem que é de direita”.

Direita ou esquerda?

Direita é uma palavra usada para representar um posicionamento político, partidário e ideológico. De acordo com o conceito das Ciências Políticas, o posicionamento político de direita é marcado por características mais conservadoras em relação a aspectos sociais e de governo.

Quando uma pessoa se identifica com a ideologia política de direita, ela costuma dar prioridade aos direitos individuais em relação aos direitos coletivos. Entende que a sociedade será melhor organizada se os direitos individuais tiverem prioridade sobre os direitos de todos, ou seja, da coletividade.

A direita também defende que o poder do Estado seja limitado, que os governos não tenham tanto poder sobre o funcionamento e a regulamentação dos setores da sociedade e das empresas e no livre mercado.

Esquerda é o termo usado para denominar um posicionamento político, partidário e ideológico que tem como principal objetivo a defesa de interesses de grupos sociais e de igualitarismo.

Do ponto de vista político, quando se diz que uma pessoa é de esquerda significa que esta concorda e compactua com os posicionamentos ideológicos deste espectro político.

Ideologia política de esquerda defende que o controle feito Estado, através dos seus governos, é a solução para que exista igualdade entre os cidadãos.

De acordo com essa ideia o Estado deve ser o responsável por controlar o funcionamento de vários setores da sociedade, além de ser responsável por proporcionar educação, saúde, trabalho e outros direitos básicos aos cidadãos.

A ideologia de esquerda defende, principalmente, as classes sociais menos favorecidas na sociedade, ou seja, aquelas que necessitam de mais atenção e serviços públicos.

Os grupos de esquerda também são conhecidos por apoiarem sistemas de reformas sociais, como o socialismo e o comunismo.

 

Notice: Tema sem comments.php está obsoleto desde a versão 3.0 sem nenhuma alternativa disponível. Inclua um modelo comments.php em seu tema. in /var/www/publicacao/jornalismo/site-root/wp-includes/functions.php on line 2957

Deixe uma resposta

Turismo e Lazer
capa Nova edição da revista Redemoinho discute temas polêmicos
Economia
Movimento Empresa Júnior: empreendedorismo começa cedo
Cultura
IMG_2603 Arte fora do eixo

Mais lidas