Comportamento

ESPECIAL: Movimento #BodyPositive nas redes incentiva o amor próprio

Na tradução literal do inglês, “body positive” significa “corpo positivo“, ou seja, imagem corporal positiva. É a prática de ter um olhar positivo e sincero para com a sua imagem e também com a dos outros

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O Instagram é considerado a pior rede social para a saúde mental dos jovens. (Reprodução/Instagram)

O Instagram é considerado a pior rede social para a saúde mental dos jovens. (Reprodução/Instagram)

Segundo uma pesquisa no Reino Unido, o Instagram é considerada a pior rede social para a saúde mental dos jovens. Na enquete, 1.479 pessoas com idades entre 14 e 24 anos avaliaram aplicativos populares em quesitos como ansiedade, depressão, solidão, bullying e imagem corporal.Com as redes sociais acabamos nos aproximando daqueles que estão distantes. E mais que isso, acompanhando diariamente a vida perfeita que muitos expõem na telinha do celular. A distorção da imagem corporal baseando-se no que vê na rede social foi um dos temas da pesquisa. Idealizar ou lamentar não ter o corpo ou a vida de quem acompanhamos nas redes sociais têm se tornado cada vez mais comum.

Aqui no Brasil, um relatório revelou que somos o terceiro no ranking de quem passa mais tempo na Internet. Os brasileiros gastam, em média, 9 horas navegando na web. O país também aparece entre os primeiros quando o assunto é o tempo gasto nas redes sociais: são mais de 3 horas diárias. Ou seja, tempos suficiente para uma pessoa comum se comparar com a vida perfeita ofertada nas redes sociais.

Organizações de saúde mental pediram às empresas que mantém os aplicativos para aumentar a segurança dos usuários. Em resposta, o Instagram disse que uma de suas maiores prioridades é manter a plataforma como um lugar “seguro e solidário” para os jovens.

O estudo da Sociedade Real para Saúde Pública (RSPH, na sigla em inglês), na Grã-Bretanha, sugere que as plataformas avisem, através de um pop-up, toda vez que houver uso excessivamente intenso das redes sociais, e que identifiquem usuários com problemas de saúde mental.

Depressão e transtornos alimentares
Yasmin Lopes, 28, designer gráfico, se tornou depressiva por ficar comparando seu corpo e sua vida com os perfis que ela seguia no Instagram. “Por muitas vezes me senti um lixo com a minha vida. Tenho 28 anos e nunca me relacionei com ninguém, me sinto um fracasso porque vejo essas pessoas nas redes sociais que trocam facilmente de namorados, e eu nunca namorei”, comenta.

Além da vida perfeita e do emprego perfeito, Yasmin conta que sempre se comparou aos outros, por achar que está atrasada na vida com relação aos outros, tanto no quesito relacionamentos, quanto na vida profissional e financeira. “O Instagram é como uma vitrine onde você assiste de camarote a vida dos outros, e isso me deixou depressiva, me comparar me deixou mal várias vezes, precisei buscar ajuda psicológica para lidar com essa inferiorização que faço de mim mesma”, desabafa.

Talita Vieira, 24, empresária, conta que por muitas vezes ao se sentir acima do peso que considera ideal, repudiou o próprio corpo ao ver tantas mulheres com corpos perfeitos e vestindo numerações pequenas de roupa. “Eu ficava horas no Instagram olhando fotos de pessoas que eu acho bonitas. Me sentia triste e me cobrava ser semelhante a elas. Já cheguei a forçar vômito para emagrecer mais rápido e atingir aquele corpo que eu considerava o ideal”, comenta a jovem.

Para a nutricionista Noemy Israel, o próprio meio médico dificulta e constrange o paciente que não está no seu peso ideal. “O magro vai ao médico com os mesmos sintomas que uma pessoa gorda, e ao magro pede-se exames, enquanto à pessoa gorda, manda-se ela emagrecer, sem sequer investigar as causas. A pessoa gorda tende a ir menos ao médico, porque sente-se constrangida porque sempre tem alguém dizendo que ela precisa perder peso, então a partir disso aquela pessoa pode acabar adoecendo de outas coisas por falta de atenção médica”, comenta.

Noemy também liga isso às redes sociais, aos perfis e pessoas que muitos procuram seguir e fazem os comparativos. “Então, entramos na questão das redes sociais. Ainda hoje essas pessoas costumam seguir outras que em nada se parecem com elas. E tendem a ficar olhando a vida daquelas pessoas, o corpo daquelas pessoas, onde aquelas pessoas vão e desejando aquela vida, porque acreditam que os seus corpos estão errados”.

Com isso, ela aconselha: “Eu acredito que a primeira coisa que qualquer pessoa fora do padrão deva fazer é procurar seguir pessoas que sejam parecidas com elas, que tenham algo a acrescentar na vida delas de verdade para que elas parem de se autodepreciar mesmo. Porque isso de ficar vendo a vida dos outros que é diferente, não que isso seja um problema, você pode ver a vida de quem você quiser, mas procurar seguir mais pessoas parecidas com você, ajuda a lidar consigo mesmo e a não se depreciar tanto”, conclui a profissional.

A especialista em redes sociais, Natália Nunes, comenta sobre esse fenômeno na plataforma, e detalha como o uso da rede social vem se tornando tóxico. “Por ter sempre que deixar tudo perfeito e interessante, a plataforma acabou se tornando tóxica, não só porque obriga a todos que mantém uma conta ativa a publicar o que outros acham interessante, e não o que realmente gostariam, como por também afetar quem não recebe likes no decorrer disto. O motivo: influenciadores digitais que usam o Instagram como empresa pessoal perdem contratos, seguidores e fornecedores. E, usuários comuns perdem facilmente a auto estima por não terem um retorno em suas publicações”, aponta.

Vida real, corpos reais

Na contra-mão da maioria, movimentos como a hashtag #bodypositive incentivam a mostrar o corpo real e a vida real. O movimento se tornou bem popular no brasil através dos influenciadores digitais. Na hashtag é possível acompanhar a rotina e as imagens de corpos fora do padrão, causando assim, empatia e identificação pessoal com o próprio corpo.

O termo “Body Positive” vem da união das palavras “corpo” e “positivo”, que trata da intenção de lançar um olhar positivo ao seu corpo, seja ele como for. Este movimento pode se resumir na ideia de que não importa o que a sociedade diga do seu corpo, mas sim o que você mesma pensa sobre ele. Sabemos que não é um processo fácil olhar com carinho para si mesma, aceitar aquilo que muitos julgam errado, mas é um processo necessário que exige paciência e tempo.

Na linha desse pensamento, o influenciador digital tem sido, cada vez mais, um meio diversificado que abraça a todos. Alexandra Gurgel, 30 anos, é jornalista, youtuber e ativista do movimento #BodyPositive através do seu perfil @alexandrismos. Militante da causa, Alexandra sofreu um ataque do humorista Danilo Gentili em 2017, onde ele fazia críticas ao seu corpo. Na ocasião, ela criou a também hashtag #GordofobiaNãoÉPiada, que ficou nos trending topics do Twitter.

Alexandra Gurgel, 30 anos, é jornalista, youtuber e ativista do movimento #BodyPositive

Alexandra Gurgel, 30 anos, é jornalista, youtuber e ativista do movimento #BodyPositive. (Reprodução/Instagram)

Para Alexandra, o processo de aceitar o próprio corpo começou há alguns anos, quando conheceu o feminismo. “Me forcei a entender que não tinha nada de errado comigo”. Em seu canal, Alexandra fala de como começou a se respeitar, de gordofobia, de body positive, assuntos abordados também no livro que a jornalista lançou. O “Pare de se odiar” é uma aula de como combater e lidar com a gordofobia.

Com a iniciativa do empoderamento do corpo através das redes sociais, a youtuber reforça o discurso de que é importante formar uma rede de apoio. “E como se amar e ser feliz sendo quem somos se todos nos dizem o contrário? A proteção é a maior solução para isso. Você tem que criar uma rede de apoio com pessoas que respeitam o seu corpo e quem você é”, comenta. “Então, você deve se amar entendendo que vai continuar sofrendo preconceito e passando por dificuldade, mas que não vai deitar para padrão algum e buscará ser da forma que você quer ser. Você pode criar alternativas para ter uma vida feliz, construindo sua rede de apoio, parando de seguir quem te faz mal, tirando da sua vida pessoas tóxicas e se empoderando de todas as formas possíveis”, conclui Alexandra.

Bernardo Boechat é ativista, publicitário, produtor e youtuber do canal Bernardo Fala. Na luta ativa contra a gordofobia, em vídeos didáticos, outros provocativos e também divertidos, narra a vida de um gordo e das dificuldades que encontra em uma sociedade preconceituosa que não é pensada para pessoas fora do padrão estético imposto pelo universo publicitário. Das cadeiras que não cabem, aos transtornos para acessar o transporte, as experiências são transformadoras para quem ouve e se abre para quebrar preconceitos.

Bernardo namora Caio Revela que também é youtuber. Moradores do Rio de Janeiro, Caio e Bernardo juntos falam sobre o empoderamento do corpo especificamente, gordo.

Bernardo namora Caio Revela que também é youtuber. Moradores do Rio de Janeiro, Caio e Bernardo juntos falam sobre o empoderamento do corpo especificamente, gordo. (Reprodução/Instagram)

 

Bernardo namora Caio Revela que também é youtuber. Moradores do Rio de Janeiro, Caio e Bernardo juntos falam sobre o empoderamento do corpo especificamente, gordo. Idealizadores da festa e da marca Toda Grandona, a dupla realiza mensalmente uma festa onde todo corpo é livre e bem-vindo. Caio comenta um pouco sobre sua trajetória até o body positive. “Passei boa parte da vida sem me sentir na minha própria pele. Sem sentir meu corpo com respeito, empatia e pertencimento. Hoje, pertenço à minha pele e aprendi a respeitar toda história que ela carrega. Uma história de muitos altos e baixos, de uma luta diária numa sociedade que invisibiliza meu corpo e quem eu sou”.

Hoje, através da festa, dos vídeos e da própria marca Toda Grandona, Caio se tornou um grande incentivador do body positive. “Eu vivi quase toda minha vida fazendo de tudo pra mudar meu corpo. Tomei inibidores de apetite, tive anorexia, tive bulimia, tive ortorexia e, hoje, estar em paz com meu corpo foi o melhor presente que recebi aos 30 anos de idade”, conclui.

"'O body positive é para todo mundo, a gente precisa falar disso sem a busca do biscoito, sem a busca o “Ah, você é maravilhosa”, não é assim que a gente quer. A gente quer pertencer", comenta a influenciadora. (Foto/ Aline Ramos)

“‘O body positive é para todo mundo, a gente precisa falar disso sem a busca do biscoito, sem a busca o “Ah, você é maravilhosa”, não é assim que a gente quer. A gente quer pertencer”, comenta a influenciadora. (Foto/ Aline Ramos)

Vanessa Campos, 39 anos, formada em jornalismo, é influenciadora digital com o perfil @blogueirafail no Instagram, há pouco mais de dois anos. A jornalista alterna a vida de assessoria de imprensa com um perfil inspirador na rede social onde aborda temas sobre aceitação do corpo gordo, body positive, moda e estilo de vida. Indo na contramão das influenciadoras digitais que em sua maioria são magras, Vanessa, carrega e defende com ela o discurso de que todo corpo é lindo, mesmo fora do padrão imposto pela sociedade. E com esse trabalho incrível, ela vem inspirando milhares de pessoas em seu blog. “Eu falo sobre o corpo gordo porque é o meu corpo gordo, é o meu local de fala. Não posso falar sobre um corpo magro, porque eu fui magra. Não sei como é a vivência de uma mulher magra. Atualmente eu falo muito do body positive, que é o corpo como um todo”, comenta.

Para Vanessa, o body positive é um movimento democrático dentro das redes sociais, onde ele pode e deve abraçar a todos, e tornar as redes sociais lugar de acolhimento. “O body positive é para todo mundo, a gente precisa falar disso sem a busca do biscoito, sem a busca o “Ah, você é maravilhosa”, não é assim que a gente quer. A gente quer pertencer. Internet cabe todo mundo, a gente tem essa plataforma aberta e é pra caber todo mundo mesmo, e a gente vai habitar”, finaliza.

 

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