Comportamento

Jovens desigrejados

Como a rua se tornou a casa de Deus em Águas Claras

Tags:
#Águas Claras #igreja #religião #desigrejados #jovens

Por: Gabriel Pinheiro, Maria Luiza Farias, Melissa Fernandes e Pedro Ângelo Cantanhêde

Religiosamente, toda terça-feira centenas de jovens se agrupam em uma praça no centro de Águas Claras (DF), buscando uma coisa em comum: um encontro com Deus. Por volta das 20h começa o ritual: meia hora de música, ou melhor, de louvor, seguido da leitura de um trecho da Bíblia, aquecendo para o clímax da noite, as pregações. O que se passa na conhecida Praça da Caesb é o movimento Céu na Terra (CNT), uma iniciativa cristã com inspirações evangélicas, mas sem vínculos com qualquer igreja convencional ou denominação eclesiástica, que chama a atenção pelo grande número de adolescentes e jovens adultos que se reúnem semanalmente para ouvir a palavra de outros jovens.

João Paulo Leandro Dias tinha 13 anos quando sua vida começava a traçar novos rumos. Enfrentava o luto após suicídio de sua irmã mais velha, quando se tornou usuário de drogas, envolvido também com roubo e tráfico. Antes frequentador de uma igreja evangélica, afastou-se completamente da religiosidade adquirida no berço familiar. João parou de ver sentido em uma vida, na visão dele, tão infeliz. A busca por um conforto o aproximou das mais diversas crenças, o fazendo entrar em contato com ensinamentos budistas, através do Cânone Pāli, além das práticas do pai do espiritismo, Allan Kardec, e o ateísmo de Nietzsche.

Dois anos depois, 17 de dezembro de 2015 se tornaria uma data marcante, noite em que o jovem, então ateu, afirma ter sido tocado por Deus. “Quando eu tive um encontro com Jesus não foi numa igreja. Isso foi no meu quarto. Não foi numa pregação, não foi num louvor”, relembra. Decidiu que não poderia guardar para si o sentimento glorioso que acabara de vivenciar, fez questão de que, no mínimo, seus amigos também conhecessem a experiência. Quatro anos se passaram e a busca de João Paulo o levou a liderar a multidão de jovens que se encontram no santuário edificado na praça da Caesb, fazendo jus à missão de evangelizar cristãos pelo Brasil e pelo mundo. Numa trajetória pouco linear, à medida que reúne cada vez mais fiéis, aumenta também as críticas de outras denominações.

O movimento ilustra um cenário que vem se tornando mais recorrente no Brasil e no mundo: o fenômeno dos desigrejados. Por definição, o termo trata de fiéis que têm preferência por praticar a fé em lugares que não a igreja física, optando por reuniões informais com determinado grupo ou dentro dos lares. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de desigrejados já soma mais de 4 milhões de brasileiros, abrindo espaço para discussões entre acadêmicos e líderes religiosos.

Segundo a socióloga e professora Franksuele Moreira, a migração de jovens para iniciativas como o Céu na Terra se dá pela identificação com o próximo. “Vejo que o que chama a atenção dos jovens é a identificação da figura. A figura de que ‘eu não vejo um padre ou pastor, eu não vejo alguém que vá me dar um sermão, mas sim alguém que está na mesma linguagem que a minha’, que é um jovem descolado falando de Deus e da ideia da positividade divina”, explica Franksuele. Para João Paulo, a causa do fenômeno está relacionada à existência de contradições na prática cristã. “Acho que o maior problema da igreja hoje é não pregar o Cristo da Bíblia e viverem de forma incoerente com o Cristo que pregam”. Em contrapartida, quando perguntado sobre os riscos de uma pregação independente para a fé cristã, o reitor do Seminário Missionário Arquidiocesano Redemptoris Mater de Brasília, padre Paulo Félix acredita que deve haver uma ligação e uma unidade com o magistério e uma hierarquia. “O problema de comunidades independentes que começam a fazer o anúncio mas sem uma ligação com uma realidade da tradição é que, num âmbito de um ‘pseudo cristianismo’, pode acontecer enganos, uma pregação independente e desvinculada, utilizando palavras cristãs mas que no fundo pode ter uma realidade de outro interesse.”

O fundador do movimento, João Paulo Dias, agora tem 21 anos

O fundador do movimento, João Paulo Dias, agora tem 21 anos

Quando questionados do motivo pelo qual frequentam os encontros, os jovens ali presentes relatam grande acolhimento, expressando com emoção o senso de pertencimento ao grupo. “Eu ia muito pra Igreja Católica, mas é algo que eu não me identifico mais, porque de um jeito te afasta em vez de te aproximar, e aqui (no Céu na Terra) é diferente”, afirma Larissa Lima, estudante de contabilidade. Para ela, a maneira como os valores são pregados no ambiente das igrejas resulta em constantes julgamentos entre os fiéis. “Lá para eles é errado eu ter um piercing ou uma tatuagem. Aqui não é. Aqui todo mundo usa porque todo mundo é jovem, sabe da sua liberdade, não tem que ficar se regrando para poder vir pra cá”, complementa.

Pausa para selfie

Apesar de ser um dos costumes mais antigos da humanidade, a religião também se rendeu à era digital. Assim como outros usuários, os perfis de ícones religiosos buscam consolidar uma identidade, e com o Céu na Terra não seria diferente. No Instagram, o perfil alcança quase 400 mil seguidores, em maioria jovens que acompanham as postagens diárias da rede social.

Para a teóloga Alessandra Santana, esse tipo de interação é uma oportunidade para preservação dos relacionamentos interpessoais. “Estamos vivendo um momento na qual as relações presenciais estão sendo trocadas pelas relações virtuais, assim a busca por uma identidade religiosa é importante para a socialização dos jovens. Afinal, ao engajar-se em movimentos como esses, há a oportunidade do resgate nessas relações”, justifica.

A identidade do movimento chama atenção, sobretudo, pela juventude enquanto protagonista das mudanças de um credo. Contudo, Alessandra destaca a importância de se trazer valores da família para tais tipos de construções sociais. “É preciso acreditar na juventude transformadora. Porém, também se faz necessário o resgate de uma vivência mais familiar e acolhedora, na qual os jovens possam se sentir mais seguros e maduros para exercerem tal protagonismo”, conclui a teóloga.

Pregações engajam os jovens todas as terças-feiras

Pregações engajam os jovens todas as terças-feiras

Idealizado em 2015, os primeiros encontros do Céu na Terra contavam com um pequeno grupo de ouvintes na estação de metrô Arniqueiras. Em questão de meses a aglomeração cresceu e passou a ser motivo de reclamações por atrapalharem o trânsito de pessoas na estação. Assim, as pregações passaram a acontecer na Praça do Elefante, também em Águas Claras. Situado em meio a prédios residenciais, o local foi palco de grandes conquistas para o movimento, marcando fase de grande soma de público. Uma problemática surgia: o barulho crescente incomodava os moradores dos prédios vizinhos. Denúncias foram registradas e, novamente, as pregações foram remanejadas para outro local.

Chegaram, então, à Praça da Caesb, já marcando uma média de 500 pessoas por reunião, com recorde de público de cerca de 3 mil pessoas. Atualmente, as preocupações vão além do barulho, que não deixou de ser motivo de reclamação. “Tem dia que incomoda sim, tem dia que eles vão até mais tarde. Dá 21h e 22h e eles estão ainda lá, às vezes até mais”, desabafa Davida Savedro, 43 anos, moradora do condomínio Márcia Muniz, localizado a 120 metros da praça. “Assim, é um movimento religioso, eu acho que é por uma boa causa, mas acho que poderia terminar mais cedo”, sugere a empresária. Outra queixa está relacionada ao trânsito nas vias que rodeiam a praça.

Segundo o Corpo de Bombeiros, a estrutura da praça confere risco aos que frequentam o CNT, posto que o ambiente das reuniões se trata de uma grande caixa d’água subterrânea. De acordo com Sargento Ximenes, integrante do batalhão de Águas Claras, não há autorização proveniente de vistoria técnica no local, sendo assim, a orientação é que as atividades não sejam realizadas ali. Ele afirma que a questão já foi assunto de reuniões de segurança comunitária. Contudo, não houve acionamento dos órgãos competentes para providenciar ações cabíveis, tendo em vista que o movimento é informal.

A Administração Regional de Águas Claras e a Defesa Civil atestam que não há pedidos para a formalização do Céu na Terra, não havendo documentação encaminhada com a finalidade de regulamentação do movimento. Já João Paulo, responsável pela organização, afirma ter autorização da Caesb para permanecer no local, tendo apenas recomendações para não ultrapassar o número máximo de pessoas, limite este desconhecido pelo líder. A reportagem entrou em contato com a Caesb, que argumentou não ter qualquer gestão sobre aquele espaço.

 

João Paulo insiste afirma que os órgãos de segurança estão presentes durante as atividades. “Eles disseram que não era necessário ter sempre, e aí a gente acredita né? Eu não pesquisei, mas pelo óbvio a polícia tem que ter”. Segundo ele, viaturas da polícia fazem rondas periódicas no local do evento, com horário e tempo de permanência indefinidos.

Desde o princípio, os movimentos religiosos foram fatores determinantes de várias características físicas dos edifícios, vilas ou cidades onde templos se estabeleciam. Na perspectiva do urbanismo contemporâneo, a expansão da igreja para fora do espaço edificado é muito bem-vinda.

Para o urbanista Átyla Oliveira, de 32 anos, esses modelos trazem reais possibilidades de novas experiências para os jovens participantes, ao mesmo passo que atraem novos olhares e aproximação de curiosos ou admiradores. “Até onde tenho conhecimento, eles não têm o objetivo de tornar o espaço público onde celebram seus cultos em um espaço religioso. Porém, com o uso ao longo de vários anos, estabelece-se, naturalmente, o costume e a tradição, e aí sim, estes fatores podem tornar aquele espaço especificamente conhecido como religioso, mesmo sem oficialmente sê-lo”, explica ele.

Clara Mendes concilia a faculdade de direito com as pregações no Céu na Terra

Clara Mendes concilia a faculdade de direito com as pregações no Céu na Terra

Juventude no comando?

Se tratando de um movimento jovem, nada melhor que ter a própria juventude no comando. A organização do Céu na Terra funciona com dez equipes, que cuidam da comunicação, do louvor, logísticas e staff, todas formadas por voluntários. Os líderes das equipes integram a equipe sênior, que discute os próximos passos do movimento. Além das pregações semanais, o grupo também promove ações de voluntariado, que atende a famílias residentes da Estrutural e Jardim ABC. Outra dinâmica é a das missões de evangelização de grupos, a exemplo de menores infratores, refugiados estrangeiros e indígenas.

Dentre os projetos, o carro chefe são as missões transculturais, elaboradas para levar a palavra para fora de Brasília. Por não haver a política do dízimo, o custeamento de tais iniciativas se dá por meio de doações opcionais dos jovens frequentadores, e vão desde dinheiro até peças de roupa, alimentos e artigos de higiene pessoal. As missões transculturais, no entanto, são financiadas pelas famílias dos líderes das equipes, que, além de bancar as viagens, também ajudam na promoção de eventos e conferências.

O clamor pela vida

Um dos grandes problemas enfrentados pela juventude do século XXI é a depressão. Considerada a doença do século, estima-se que ela afeta mais de 350 milhões de pessoas do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). E no DF não é diferente. Especialmente em Águas Claras, é comum ficar sabendo de constantes casos de suicídio.

Segundo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, 19 pessoas cometeram suicídio na cidade entre 2017 e 2018. E o Céu na Terra tenta mudar esse cenário.

Clara Mendes, 20 anos, estudante de Direito e pregadora do CNT, frequenta as reuniões desde o começo de 2016. Ela lembra que, à época, o número de participantes não ia muito além de 30. Ao ser questionada sobre como eles abordam o tema, afirmou que praticam “um trabalho preventivo”. “Toda reunião a gente faz um apelo: ‘quem tem pensado em suicídio?’, e conversamos com essas pessoas ao final”, afirmou ela.

No carnaval, reunião teve um público de mais de mil pessoas

No carnaval, reunião teve um público de mais de mil pessoas

O número de suicídios no DF saltou de 125, em 2015, para 168, em 2017. No último ano, contudo, esse número foi, excepcionalmente, reduzido para 161.

“Órfãos de pais vivos, vazios, precisando conversar, viver, ter um contato, com medo de não sobreviver à rotina.” É assim que Clara caracteriza muitos dos jovens que vão ao CNT em busca de refúgio. “Toda reunião a gente ora em relação a ansiedade e síndrome do pânico. No final, eles são incentivados a procurar ajuda.” O encontro, segundo ela, é um canal de esperança para estes jovens.

 

Notice: Tema sem comments.php está obsoleto desde a versão 3.0 sem nenhuma alternativa disponível. Inclua um modelo comments.php em seu tema. in /var/www/publicacao/jornalismo/site-root/wp-includes/functions.php on line 2957

Deixe uma resposta

Turismo e Lazer
capa Nova edição da revista Redemoinho discute temas polêmicos
Economia
Movimento Empresa Júnior: empreendedorismo começa cedo
Cultura
IMG_2603 Arte fora do eixo

Mais lidas