Saúde

Precisamos falar sobre gravidez na adolescência

No Distrito Federal, número de casos de gravidez na adolescência passa de 2.700 no período de janeiro a maio de 2019

Ao longo dos anos, diversos métodos foram desenvolvidos  com a capacidade de evitar uma gravidez, os chamados “métodos contraceptivos”. Porém, o aumento contínuo de casos de adolescentes que engravidam, na maioria das vezes, sem planejamento é evidente. No Distrito Federal, segundo dados da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, em 2018, foram registrados 6.328 partos em adolescentes entre 10 e 19 anos. De janeiro a maio de 2019, o número já chega a 2.720 casos.

O impacto social e psicológico na vida de uma adolescente que descobre que está grávida é enorme, uma preocupação que a jovem não estava preparada para lidar. Em consequência disso, é necessário ter que abandonar coisas básicas da vida de uma adolescente como estudar, por exemplo.

Segundo dados da pesquisa sobre evasão escolar feita em parceria com Ministério da Educação, a Organização dos Estados Ibero Americanos (OEI) e a Faculdade Latino-Americana de Ciências (Flacso), 18,1% dentre as meninas indicaram que foi a gravidez o principal motivo de deixar a escola.

“No período da gestação eu tive que me ausentar da escola, tive que começar a modificar toda minha rotina, parar de sair para determinados lugares, me acostumar a ser mais caseira e deixar um pouco de lado os meus planos passados pra me adaptar com a realidade que eu estava vivendo,’’ explica Giovana Daniela, 22, mãe de Maria Antônia. Ela engravidou aos 18 anos.

Giovana conta que por ter reduzido o lazer, ela sentia que as pessoas não faziam questão de estar com ela naquele momento. “Todos me desejavam bem, mas poucos tinham essa empatia de conversar sobre os medos e as inseguranças que estavam por trás daquele amor e felicidade tão grande de saber que estava gerando o amor da minha vida.’’

“Tudo tem seu tempo” 

No dia 3 de fevereiro de 2020, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, lançaram a campanha “Tudo tem seu tempo”, que visa educar jovens sobre sexo e gravidez na adolescência. Essa campanha gerou polêmica por conta das declarações da própria ministra, que sugeriu a abstinência sexual para os jovens como forma de evitar a gravidez.

‘’O adolescente deve ser respeitado em sua individualidade. Cada um tem seu tempo, sendo necessário deixá-los adquirir sua autonomia para decisões e atitudes. Nosso papel como pediatra e hebiatra é oferecer informações adequadas para evitar a gravidez na adolescência e as infecções sexualmente transmissíveis,’’ afirma a hebiatra Daniele Cotini sobre essa campanha.

A ginecologista Mônica Miranda cita que as causas de uma gravidez na adolescência são a baixa escolaridade aliada ao desconhecimento dos métodos contraceptivos e da forma correta de usá-los, a situação econômica que as obriga a abandonar os estudos e cuidar de afazeres domésticos, como única perspectiva de crescimento econômico, juntando o fato de ter que ir morar com o parceiro, a maior aceitação da gravidez na adolescência por parte das famílias de baixo nível sócio-econômico, visto que a grande quantidade de filhos  e o trabalho precoce geram perspectiva de auxílio no orçamento familiar.

Ela ainda cita que a maioria das mães do Brasil possui poucos anos de escolaridade, é negra e vive nas regiões menos economicamente desenvolvidas no país. Estatísticas da OMS (Organização Mundial da Saúde) de 2014 mostram que cerca de 85% delas não completaram o nível médio, somente 20% ainda estudavam. Cerca de 35,8% vivem no Nordeste e 69% se declararam pardas ou pretas.

Fisicamente, ela afirma que os riscos da gravidez na adolescência incluem aumento da incidência de eclâmpsia e pré-eclâmpsia, parto prematuro, baixo peso ao nascer, abortos espontâneos, complicações no parto e aumento das taxas de cesariana.

 

A gravidez na adolescência acarreta problemas de desenvolvimentos emocionais, comportamentais, educacionais, além de complicações no parto.

A gravidez na adolescência acarreta problemas de desenvolvimentos emocionais, comportamentais, educacionais, além de complicações no parto

 

O apoio familiar e o diálogo são fundamentais

A hebiatra Daniele Cotini diz que o apoio familiar é fundamental nesse momento. ‘’Quando se tem uma família que cuida, que acompanha, qe acolhe, que apoia e orienta a adolescente, ela consegue ter uma gestação mais tranquila, com menos riscos para ela e para o bebê, conseguindo realizar um pré natal adequado, ter uma boa alimentação, realizar amamentação e dar seguimento à vida profissional.’’

O diálogo sobre sexo ainda é um tabu entre as famílias brasileiras. Porém, a prevenção de uma gravidez precoce consiste em um diálogo franco e sincero com os pais. ‘’Minha família sempre foi muito religiosa e de certa forma isso impediu muito que eu tivesse esse diálogo. Hoje, depois da Maria isso mudou, e muito, tenho muito mais abertura e criou-se também mais abertura para instruir minha irmã quando ela atingir a idade certa,’’ diz Giovana sobre o pouco diálogo que teve com os pais com relação à gravidez.

 

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