Saúde

Foliões buscam por diagnóstico de IST após carnaval

Segundo Secretaria de Saúde, cresce a procura por testagem de infecções sexualmente transmissíveis no período seguinte ao feriado

Durante todo o ano, o Ministério da Saúde distribui preservativos como forma de prevenir doenças e gravidez indesejada

Durante todo o ano, o Ministério da Saúde distribui preservativos como forma de prevenir doenças e gravidez indesejada

Dados da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES) mostram que, nos últimos anos, houve um crescimento de 10 a 15% na busca por diagnóstico de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) no período pós-carnaval, em relação à média mensal. Segundo a SES, no Centro de Testagem e Acolhimento (CTA), localizado na Rodoviária do Plano Piloto, realiza cerca de 990 testes por mês. No ano de 2019, no período pós-carnaval, o CTA realizou mais de 1.150 testagens. A secretaria ainda não tem dados da procura por diagnóstico deste ano.

Na visão da SES, esse aumento na procura por diagnóstico é consequência das campanhas anuais divulgadas antes do feriado para a conscientização e prevenção de IST. Informações sobre HIV, hepatites virais e sífilis, além de distribuição de preservativos e géis lubrificantes fazem parte das campanhas preventivas.

“O acesso à informação sobre formas de cuidado para evitar as IST, bem como a disponibilização de insumos de prevenção (preservativos penianos e vaginais e gel lubrificante) e as orientações sobre a importância do diagnóstico são eficientes estratégias de saúde pública. Por isso a SES amplia a oferta de tais insumos na rede neste período e intensifica a divulgação dos locais de distribuição, bem como de testagem e diagnóstico”, conta em nota a Secretaria de Saúde sobre a eficiência das campanhas preventivas.

Apesar dos dados divulgados pela SES, o sistema interno do CTA da Rodoviária do Plano Piloto consta um aumento na busca por testagem rápida, principal meio que os centros de saúde utilizam para detectar IST, no mês de janeiro. “Não existe muita divulgação do CTA durante o ano, mas recebemos mais pacientes em janeiro porque em dezembro acontece divulgações do Dia Mundial do Combate à Aids (1° de dezembro)”, relata a enfermeira Jenifer Olivatta. Em todo Distrito Federal (DF), existe apenas um Centro de Testagem e Acolhimento. Localizado no mezanino da rodoviária, o CTA recebe pessoas de todo o DF e de algumas regiões do Goiás, como Formosa e Luziânia.

Além das campanhas pré-carnaval, o estudante Lucca Henrique Rodrigues, 20, acredita que deveriam haver ações de incentivo à busca de diagnóstico nas semanas seguintes ao feriado. “Por ser um momento em que você dá mais margem para acontecimentos, dá mais margem para o não uso da camisinha, é importante que, além de você criar as campanhas prévias para informar a população dos riscos a que ela pode estar se expondo, você também precisa dar um suporte para que pessoas que admitiram esse risco possam ser diagnosticadas”.

Em um mês são realizados, em média, 1000 testes de Infecções Sexualmente Transmissíveis

Em um mês, são realizados, em média, 1000 testes de Infecções Sexualmente Transmissíveis

Lucca conta também que, segundo sua vivência, muitas pessoas deixam de fazer exames por falta de coragem ou de oportunidade. “A maioria dos meus amigos nunca fez o teste e muitos é porque acham que nunca vai acontecer. Mas a maior parte deles demonstra intenção, demonstra vontade, mas não o realiza na prática”, concluiu o folião, que fez a testagem após o feriado.

Segundo a SES, não há dados ou estudos que verifiquem aumento de infecção nesse período. Em nota, a secretaria explica que, em muitos casos, não há detecção devido à janela imunológica ou porque o paciente somente apresenta sintomas meses após a infecção.

Sentindo no dedo

Quando pensei em escrever sobre este tema, acreditei que minha maior dificuldade seria encontrar alguém que buscou por diagnóstico de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) após o carnaval e que estivesse disposto a conversar. Não foi. Minha maior dificuldade, desde o começo, foi conversar e conseguir respostas do sistema público de saúde.

Sempre que me apresentava como estudante de jornalismo as pessoas ficavam desconfiadas e não se mostravam muito dispostas a falar. Além disso, a maioria das pessoas com quem conversei acreditava que eu estava com vergonha de fazer o teste e por isso inventei a desculpa do trabalho da faculdade. Por esses motivos, resolvi furar o dedo e sentir como é passar por esse processo.

Nos lugares onde fui procurar respostas encontrei paciente tímidos e envergonhados. “As pessoas costumam buscar por diagnósticos e tratamento longe de suas casas porque ISTs, principalmente HIV, geram muito preconceito e elas se envergonham”, me explicou José Abilo Fagundes, farmacêutico bioquímico e gerente do Hospital Dia, um centro de referência no Serviço de Assistência Especializada em HIV/Aids.

E essa vergonha contamina. Ao entrar na sala de espera do CTA é fácil perceber o clima tenso. As pessoas não conversam e, caso o façam, falam cochichando, os pacientes evitam olhares e permanecem focados em outra coisa, geralmente na televisão, única distração na sala. E foi nesse meio que eu, que tinha total consciência da minha saúde, me peguei tensa e envergonhada simplesmente por estar ali.

O CTA está localizado no mezanino da Rodoviária do Plano Piloto e funciona de segunda à sexta

O CTA está localizado no mezanino da Rodoviária do Plano Piloto e funciona de segunda à sexta. Na imagem, seguro o resultado da testagem, que leva apenas 15 minutos para ficar pronto

Do outro lado da mesa, o profissional que senta diante do paciente não sente vergonha, mas sim indignação e frustração. “Tá tudo horrível”, me disse uma funcionária do CTA da Rodoviária do Plano Piloto em uma conversa sobre a funcionalidade do sistema público de saúde. Ela não foi a única a relatar como as coisas não funcionam. Alguns profissionais acharam engraçado quando eu questionei sobre a eficiência das campanhas pré-carnaval. “Que campanhas?”, me perguntaram, “essas que a gente vê na TV? Isso não é nada”.  Em todo o Distrito Federal há apenas cinco locais que acolhem pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis e nesses lugares faltam insumos, faltam recursos, falta divulgação, falta informação, falta muito.

O que senti no dedo não se compara ao que uma pessoa com IST sente. Depois de quinze minutos de espera pelo resultado da testagem, a vergonha e o medo passaram e o furo na ponta do indicador direito já tinha fechado como se o teste nunca tivesse sido feito. Contudo, nem todo mundo tem a minha sorte e pacientes com algum tipo de IST sentem essas emoções diariamente, além de precisarem encarar os diversos problemas da rede pública de saúde.

 

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