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Atual medalhista paralímpico vive incerteza por causa do novo coronavírus

Cenário de pandemia global coloca em xeque a participação do mesatenista Guilherme Costa em Tóquio 2021

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Desde o início de março, quando os casos da covid-19 estouraram na Europa, inúmeras competições esportivas foram suspensas pelo mundo. Sejam torneios amadores, sejam campeonatos bilionários como a UEFA Champions League, a Liga de Basquete Americana (NBA) e a temporada da Fórmula 1, foram todos, com exceção dos campeonatos na Bielorrúsia, adiados, suspensos ou até mesmo cancelados. Mais recentemente, foi a vez dos jogos Olímpicos e Paralímpicos serem adiados.

As competições, que serão sediadas em Tóquio, agora ocorrerão em 2021, iniciando no dia 23 de julho. Essa mudança gera um efeito dominó que afetará todas as modalidades olímpicas e, consequentemente, os atletas. Um deles é o mesatenista manauara Guilherme Costa, 28, titular da seleção tupiniquim paralímpica na classe 2 e o brasileiro melhor posicionado no ranking da Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF) em sua categoria, com a 15ª colocação. “Tudo mudou de uma hora para outra”, queixa-se Guilherme.

Classificatórias suspensas ou adiadas, bolsa atleta, que é o sustento de muitos esportistas, foram parcialmente cortados e treinamentos interrompidos. Todos os atletas de todos os esportes foram diretamente atingidos pela pandemia, e Guilherme não foge à regra. O brasileiro ainda busca a vaga para os jogos na terra do sol nascente e toda sua preparação e planejamento foram interrompidos.

O que é, o que é: nasce em pé e renasce sentado? 

Hoje medalhista olímpico, Guilherme nasceu em Manaus (AM), mas cresceu na capital federal. Sempre apaixonado por esportes, tinha o comum sonho de ser jogador de futebol mas, em 2007, foi atropelado por um carro a 120 km/h enquanto atravessava o Parque da Cidade e, com apenas 14 anos de idade, ficou tetraplégico. “Em certo momento, uma enfermeira não deve ter percebido que eu estava acordado, disse ‘Tão jovem e vai morrer’”, relembra Nemo, apelido de infância de Guilherme. Contudo, o então menino conseguiu vencer o prognóstico da pessimista enfermeira, sobreviveu ao acidente e às sequelas causadas por ele e, sem perder a paixão pelo esporte, se achou no tênis de mesa. “No início eu não queria jogar ping-pong não. Mas, quase um ano após o acidente, disse para minha mãe que precisava de um esporte, e foi aí que o ping-pong apareceu”, revela o atual medalhista de ouro dos jogos Para Panamericano disputado em Lima no ano anterior.

Nesse período de adaptação às novas rotinas de treino, Guilherme conheceu Vinícius Coelho. Atualmente aposentado por causa da esclerose lateral amiotrófica, Vinícius, hoje com 32 anos, ainda era estudante de educação física quando comandava os três treinos semanais de Nemo. “Eu o ensinei a segurar uma raquete”, recorda orgulhoso o antigo treinador, e completa: “Profissionalmente, Guilherme é minha obra-prima”. A dupla viveu 2 bons anos juntos, com o auge na conquista do campeonato para panamericano juvenil, e então Guilherme partiu para desafios ainda maiores, trocando o comando de Vinícius pelo do então técnico da seleção brasileira de tênis de mesa, José Ricardo Rizzone.

Zé, como é conhecido, disse que viu em Guilherme um grande espírito de guerreiro e muita determinação para alguém tão jovem. “Quando ele veio treinar comigo, deixei claro para os pais que aquilo não seria fisioterapia, mas sim um preparo para que o Gui se tornasse atleta”, conta Zé. Comparado ao estilo Bernardinho de comando, o então técnico do atleta manauara revela que não aceitava menos que 100% de seus atletas e, por esse motivo, às vezes acabava se excedendo. “Havia momentos em que o Gui esmorecia. Então teve uma partida que ele estava vencendo no último set por 9 a 2 (ganha quem fizer 11 primeiro). Não só ele perdeu o set, como perdeu a partida. E eu acabei perdendo a cabeça”, revive o ocorrido um arrependido Zé.

A parceria que durou seis anos com expressivos resultados, como duas medalhas (bronze no individual e ouro por equipes) nos jogos Para Panamericano de Toronto em 2015, acabou a 1 mês e meio das Olimpíadas do Rio. Após ter deixado a vaga para os jogos de 2012 escapar, Gui teve certeza que o mesmo não aconteceria nos jogos em solo brasileiro, além de que aproveitaria ao máximo aquele momento. E assim o fez: “foi o melhor momento da minha vida!”, enfatiza Guilherme. Desde então sob a batuta de Paulo Ricardo Molitor, Gui não só viveu intensamente aqueles 11 dias como também aproveitou para se firmar no cenário mundial. “Deixei de ser promessa e me tornei realidade”, reconhece o atleta.

Apesar da derrota na semifinal para a dupla francesa medalhista de ouro, Guilherme recorda vividamente a disputa contra o time eslovaco pelo bronze. “A gente abriu 2 a 0, então a torcida, que mais parecia de futebol, começou a gritar ‘SÓ FALTAM 9!’”, inicia Nemo. “A partir daí entrei num frenesi. Quando eu dei por mim, estava comemorando o último ponto que garantia a medalha, jogando raquete para um lado, luva para o outro… Só que não era o último ponto, ainda faltava um. E foi o Iranildo que conquistou pois eu não tinha mais condição!”, conclui o medalhista olímpico.

Iranildo Espíndola, Aloísio Lima e Guilherme Costa celebram a medalha de bronze no Rio 2016. Foto Francisco Medeiros/Rede do Esporte/ME.

Iranildo Espíndola, Aloísio Lima e Guilherme Costa celebram a medalha de bronze no Rio 2016. Foto Francisco Medeiros/Rede do Esporte/ME.

 

Ao fim da tempestade, há um céu dourado

Infelizmente, para Gui, seu técnico Paulo Molitor, Iranildo e os demais brasileiros que buscam participar dos próximos jogos olímpicos, o sonho foi adiado por pelo menos um ano. Dois torneios classificatórios estavam previstos para março e maio deste ano, com o primeiro já suspenso e o segundo incerto, o que traz lamentos à Guilherme. “Eu estava no melhor momento para as Olimpíadas, tendo chances reais de medalha”, desabafa.

Com toda essa incerteza causada pela propagação do coronavírus, Gui, que morava sozinho em São Paulo e treinava no moderno Centro Paralímpico Brasileiro, teve de voltar para Brasília, onde se encontra hoje em completo isolamento, uma vez que faz parte do grupo de risco da covid-19. E as preocupações não param por aí, uma vez que não se sabe até quando os atletas receberão o aporte financeiro, que hoje vem somente do governo. “O valor da bolsa [atleta] caiu pela metade”, lamenta Guilherme, que já sente os efeitos da econômicos da pandemia. Que o aperto no bolso não se transforme em vazio no peito em 2021.

Guilherme posa orgulhoso com sua medalha de ouro no Para Panamericano de 2019 em Lima, Peru. Foto Ale Cabral/CPB

Guilherme posa orgulhoso com sua medalha de ouro no Para Panamericano de 2019 em Lima, Peru. Foto Ale Cabral/CPB

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