Entrevistas

“Sem dinheiro não se faz saúde”, diz Arlete Sampaio

A médica sanitarista e deputada Arlete Sampaio responde perguntas sobre o Dia Mundial da Saúde e faz um panorama da saúde no Brasil em tempos de Covid-19

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Brasil cuidados Saúde

Fotos produzidas pelo Senado

Comemorado no dia 7 de abril, o Dia Mundial da Saúde foi criado em 1948 pela OMS, Organização Mundial de Saúde, e traz consigo a importância da saúde como garantia de qualidade de vida. De acordo com a OMS, “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. A instauração da pandemia pela disseminação do coronavírus mostrou o quão essencial é o setor da saúde na sociedade, e que os governantes devem investir para que o sistema de saúde funcione e cumpra sua função, além da educação e a pesquisa para capacitar os profissionais e estudiosos para lidarem com as adversidades.

Arlete Sampaio é sanitarista, graduada em Medicina pela Universidade de Brasília e especializou-se em Saúde Pública. Foi Vice-Governadora do Distrito Federal entre 1995 a 1998. Iniciou sua militância política no movimento estudantil e foi dirigente do Sindicato dos Médicos do DF por três gestões (de 1985 a 1994). Fundadora do Partido dos Trabalhadores do Distrito Federal e da CUT-DF, exerceu diversas funções na Comissão Executiva Regional do PT, tendo sido presidente em três mandatos.

Arlete realizou trabalhos na área de saúde junto à população de Ceilândia, quando exercia o cargo de chefe dos Centros de Saúde nº 8 e nº 2, da Fundação Hospitalar do DF. Como sanitarista, também coordenou diversos programas de saúde pública.

Por que o planejamento público deve colocar questões de saúde como prioritárias?

O planejamento é fundamental na atividade governamental. Desde que, a partir da Constituição de 1988, nós iniciamos o processo de construção do Sistema Único de Saúde, que depois foi regulamentado na lei 8080 de 1990, e 8142 de 1990, começamos a implantar no Brasil, um sistema cujo o objetivo era atender a população de maneira universal, próximo de sua casa e de maneira integral, ou seja, atender em todos os níveis necessários da preservação da saúde da população. E nós sabemos que na saúde, sinteticamente falando, nós temos 4 níveis: proteção à saúde, prevenção, recuperação e reabilitação. A saúde, como bem essencial à vida, tinha que ser prioridade de qualquer governo sério, de qualquer governo que se preocupe com o povo.

Quais são as principais questões e medidas que precisam ser implantadas para que o sistema de saúde pública possa funcionar no Brasil?

As medidas para fortalecer a saúde devem partir do princípio dos 4 níveis, e além disso garantir a todos o direito ao trabalho, para que possam ter alimentação adequada, o direito ao lazer, transporte coletivo decente, cuidados da saúde mental, educação,F entre outros. Tudo isso importa enquanto medida para fortalecer a saúde. Obviamente isso é impossível se não se coloca o SUS como prioridade, se não há investimento na saúde, se não asseguramos os recursos necessários para que a saúde possa evoluir. Recursos como tecnologia, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e os demais profissionais, especialistas são necessários para que a população possa ter acesso ao atendimento de saúde de qualidade.

A falta de investimento e a distribuição de recursos ainda é um problema? Por que, na sua opinião, esse tipo de coisa ainda acontece?

Quanto aos recursos, como eu falei, é importante observarmos que aqui no Brasil nós tivemos um período em que a saúde avançou, vários novos programas foram implementados e agora nestes últimos tempos, desde o governo Temer, tivemos um retrocesso brutal. Porque no governo Temer houve aprovação da emenda constitucional nº.95, que congela os gastos públicos para a saúde, educação, assistência social e outras políticas públicas por 20 anos. Então se tem uma população crescente, mas o volume de recursos sendo reduzido ao nível de quando começou a prevalecer a emenda. Realmente é um fracasso, porque você vai desconstruindo o Sistema Único de Saúde, como também vai desconstruindo a atenção primária.

Como podemos fazer para que haja mais iniciativas de prevenção para evitar a sobrecarga do SUS? E como a medicina preventiva beneficia o sistema de saúde?

A questão da prevenção é um ponto fundamental que muitos governantes esquecem ou se omitem. Quando se investe em prevenção, se reduz custos na recuperação, com hospitais e com assistência à saúde diretamente. É também fundamental a retaguarda da saúde, para que possamos ter de fato condições de oferecer à população um patamar e um nível de qualidade de vida superior ao que temos hoje.

E nesse caso, o Investimento é muito importante. Sem dinheiro não se faz saúde, sem dinheiro não se acompanha o avanço tecnológico, sem dinheiro não se compra as vacinas necessárias, as máscaras, os equipamentos de proteção, os testes, os respiradores. Tudo que é necessário para que, em um momento como esse, de pandemia, possamos nos proteger. Ainda não é uma epidemia no Brasil, mas corremos o risco de chegar lá. Nós estamos vendo, com isso o tanto que o nosso SUS está sucateado, a ponto de não termos condições e estarmos improvisando leitos de UTI e leitos hospitalares. É porque deixamos a desejar nesses últimos anos com relação aos investimentos na saúde.

Você acredita que o Brasil teve avanços nos últimos anos quanto ao acesso da população à saúde e condições de trabalho dos funcionários?

Eu acho que nós podemos sinalizar uma série de avanços. Por exemplo, o Samu foi um avanço muito bacana do ponto de vista de socorrer as pessoas que tenham tido algum acidente, ou pessoas que estão em casa e não tem como se locomover até o hospital. O Mais Médicos foi um programa fantástico, que colocou profissionais em comunidades que nunca tiveram médicos. Lamentavelmente, este presidente, com seu obscurantismo, acabou com os mais médicos, dizendo que os médicos cubanos estavam aqui para fazer doutrinação, o que é um absurdo. Agora estamos sentido a falta deles para atender nossa população. E também os investimentos eram crescentes na saúde, e agora nós temos essa redução com a emenda constitucional nº. 95. Desde o Temer para cá, nós só tivemos retrocessos na saúde pública.

O que a população pode fazer neste momento?

Nós estamos diante disso, é uma realidade. Os vírus estão aí, e eles sofrem mutações. Começou lá na China, e eles conseguiram controlar bastante. Hoje eles estão tendo um número muito reduzido de mortes e já retomaram inclusive suas atividades econômicas, enquanto na Europa nós estamos vendo o absurdo de gente morrendo e com consequências graves na economia também. E agora nos EUA, o presidente Trump que até a pouco dizia que isso era bobagem está começando a se preocupar porque já passou de 300 mil pessoas infectadas e muitas mortes diariamente. Aqui no Brasil, estamos vendo a dificuldade de implementar as medidas que estão sendo tomadas em nível dos estados e do DF. Temos também um presidente da República completamente irresponsável que só se preocupa, ou pelo menos diz se preocupar, com a economia. Então, eu penso que a população não tem que escutar o presidente, tem que escutar as autoridades sanitárias. E aqui em Brasília eu creio que o governador tomou todas as medidas que deveria ter tomado cedo. Nós estamos tendo uma curva de crescimento da doença aqui em Brasília um pouco mais achatada. O que permite a gente dizer que podemos ter condições de atender as pessoas que têm necessidades. Hoje temos leitos de UTI já reservados para os pacientes com coronavírus e estão sendo implantados novos leitos de UTI. Assim como também ampliando a possibilidade de atendimento às pessoas que vão precisar.

Eu penso que o que a população tem que fazer hoje é ficar em casa e quando for preciso sair para fazer compras, que saia de máscaras e use o álcool em gel. Porque o grande problema que estamos tendo aqui em Brasília e no Brasil, talvez no mundo é a falta de testes. Ao lado das pessoas que já têm a confirmação da Covid-19, nós podemos ter um universo de pessoas assintomáticas, mas que estão infectadas e estão transmitindo para outras pessoas. É muito importante que a gente recupere a nossa capacidade de fazer testes e também muito importante que a gente possa oferecer à população os recursos necessários de proteção, como máscaras por exemplo.

Mas de preferência fique em casa, lave as mãos bem lavadas como se lava um cirurgião. Se tiver algum sintoma, observe se há piora no quadro. Se sentir febre alta e dificuldade respiratória então você deve procurar uma unidade de saúde. As pessoas têm que se conscientizar e contribuir para que a gente não entre no crescimento muito rápido da transmissão do vírus em Brasília, o que faria com que o nosso serviço de saúde não tivesse a menor condição de suportar todo mundo.

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