Cultura

Com os fotógrafos em casa, como fica o trabalho?

Como o coronavírus mudou a rotina dos profissionais da imagem

No período de isolamento social por conta da covid-19, muitas pessoas em seus lares estão experimentando com a fotografia digital para poder ocupar a grande quantidade de tempo disponível. Não é incomum encontrar pessoas que estão preenchendo o feed do Instagram com uma maior quantidade de novas fotografias feitas dentro de casa, tudo isso como um hobby.

Porém, é preciso olhar para um outro lado dessa questão: os profissionais da fotografia estão passando por dificuldades financeiras por conta do coronavírus. Muitos estão sem a sua fonte principal de renda pelo fato de não poderem sair de dentro de suas casas, ou porque os clientes não estão procurando os serviços neste período.

Giovana Leite Vieira, fotógrafa de 23 anos, conta que sempre teve a rotina de trabalho muito corrida. “Eu trabalho com ensaio feminino e trabalho sozinha, ou seja, sou eu quem faço a captação e atendimento de clientes, os ensaios e a pós-produção.” Ela explica que costumava sair para realizar ensaios em média de 2 a 3 vezes na semana e o restante do tempo era redistribuído entre as atividades de atender os clientes, gestão de mídias sociais e na pós-produção dos ensaios.

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“A fotografia é minha única fonte de renda hoje, quando eu percebi que as coisas iam mudar, a primeira coisa que eu pensei era que eu tinha que ter investido em outra fonte de renda secundária que não fosse a fotografia”, afirma Giovana. Ela conta que sabia que isso afetaria seu dia a dia na fotografia por conta das medidas de prevenção. “O distanciamento e o fechamento dos espaços me impede de realizar o meu trabalho.”

Quando foi decretado o isolamento social, Giovana fechou a agenda e os ensaios que já tinha agendado para todo o mês de março e início de abril foram desmarcados. “Estou com um pouco de medo por não saber muito o que me espera e estou buscando entender essas mudanças que irão ocorrer no mercado da fotografia como um todo.” Giovana está ansiosa para poder voltar a trabalhar, mas está ciente de que ainda não tem data para reabertura da agenda. “Eu prezo pela saúde da minha família, então só vou voltar a realizar ensaios quando perceber que o momento é oportuno.

“Hoje, para ocupar o meu tempo, estou me dedicando a estudar fotografia, também estou me especializando em estratégias digitais por meio de mentorias e cursos online.” A fotógrafa explica que quando percebeu esse tempo livre, viu nele uma oportunidade de se reinventar e de estudar coisas que antes não tinha tempo pra dar a devida atenção. “Não que eu tenha deixado de fotografar, estou produzindo muitos autorretratos como uma forma de me manter praticando e de matar a saudade”, desabafa Giovana.

Caio Victor Marins, fotógrafo por formação, de 22 anos, produz fotografias em sua maioria abstratas e retratos. “Com meus projetos abstratos, eu mantinha uma rotina de, ao menos 2 vezes na semana, sair procurando assuntos e formas que expressem aquilo que procuro, dependendo do projeto que previamente estabeleci.” Já os ensaios com clientes eram feitos através de diversas entrevistas na pré-produção, que poderiam durar até 2 semanas. Em resumo, um ensaio poderia levar cerca de 1 mês para ser finalizado por completo.

“Tenho um emprego, hoje em dia, que é minha fonte principal, tendo meu trabalho como fotografia minha fonte adjacente, por enquanto.” Caio conta que, quando a realidade veio à tona, pensou que o trabalho fotográfico com pessoas iria de 100 a 0. “Meus projetos pessoais de abstração iriam se desenvolver de forma mais lenta com isso”, explica.

Inicialmente ele se sentiu restrito e chocado com a situação. “De certa forma fui obrigado a colocar todos os projetos e clientes em espera, sem previsões de algum retorno, então a ansiedade foi constante. Minha renovação de portfólio de retratos teve que ser deslocada para a segunda metade do ano.”

“Como estou terminando minha formação em design gráfico, vi a oportunidade de aprofundar-me mais nestas questões, já que a maior parte do meu trabalho em design é feita de forma digital.” Caio conta que seus atuais projetos estão se inclinando, quase que exclusivamente, ao design e a mesclagem de fotografia com design. “Projetos que eu tinha em gaveta, que estavam parados pela correria semanal, consegui tirar, desenvolvê-los e colocá-los em prática.” Caio abriu uma loja de estampas para camisetas e está desenvolvendo um livro.

Fotógrafo, não surte

Em períodos como esse, muito se fala sobre reinvenção. Muitos fotógrafos brasileiros estão criando meios para que o seu trabalho seja exercido de uma forma diferente. Em tempos de crise essa pode ser a salvação de uma pessoa que é a sua própria empresa e que tem como sua principal fonte de renda a fotografia.

Caio Victor conta que está acompanhando novos projetos de colegas de trabalho e percebeu um crescimento na área do auto-retrato e projetos que procuram explicitar o que o isolamento pode influir em um indivíduo.”A fotógrafa Ekateria Belinskaya, fotógrafa de moda, fez um projeto onde ela se coloca no lugar de suas modelos com o mesmo figurino. A brasiliense, Lorena Assis, está fazendo ensaios por meio de videochamada, em que o cliente posiciona o celular de acordo com as instruções, juntamente com poses e as fotografias são feitas a partir de prints.”

“Este período é ótimo para experimentar o que temos vontade, desenvolver outras técnicas e o melhor, melhorar as nossas famosas gambiarras fotográficas, pois com recursos de espaço e luz limitados, nossos artifícios para gambiarras são sempre bem vindos.” Caio Victor aconselha sempre aos colegas fotógrafos que sempre é bom arranjar um jeito novo de trabalhar e pensar o ofício. “Faça novas metodologias, é um bom exercício.”

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Giovana recomenda que os colegas estudem fotografia e o seu próprio modelo de negócio. “Entendam seus objetivos e estudem formas de chegar até eles. Tenha em mente todo o momento que estamos vivendo.” A fotógrafa defende que o isolamento mostrou a importância do fotógrafo também estar presente no ambiente digital para não cair no esquecimento do seu cliente. A jovem ainda dá uma dica para os colegas que estão passando por problemas de bloqueios criativos. “A Caroline Castro, de Goiânia, está desenvolvendo uma ação digital com foco em ajudar os fotógrafos a superar esses bloqueios e a se reinventar em meio à pandemia.”

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