Cidades

Quando o vírus bate à porta

Moradores de Brasília relatam como é ter familiares e conhecidos em cidades submetidas ao lockdown

No último dia 5 de maio, o estado do Pará contabilizava 4.756 infectados pelo novo coronavírus, com 375 óbitos. Diante desse cenário, o governo do Estado decretou o “lockdown”, medida para aumentar o isolamento social a fim de diminuir a propagação do vírus que, a partir do dia 7, proibiria a circulação de pessoas que não possuíssem motivo de força maior, sem máscara, além da reunião de pessoas. Os municípios que entraram em lockdown foram Belém, Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Bárbara do Pará, Santa Izabel do Pará, Castanhal, Santo Antônio do Tauá, Vigia de Nazaré e Breves.

Morador da capital federal, Matheus Ramiro, advogado penal de 29 anos, tem prestado assistência aos familiares de sua namorada, a fisioterapeuta Ana Carolina, 34, que residem em Belém. “Brasília não chegou perto [da situação de Belém]”, revela Matheus o porquê de ter enviado remédios à capital paraense. “A família da minha namorada não é pobre. E o que quero dizer com isso é que não é que eles não tenham acesso à farmácia ou algo do tipo, é que não tem para vender”. Essa foi a atitude tomada pelo casal ainda no início da crise de saúde no 2º estado mais extenso do país. Tal medida, ainda assim, não foi suficiente para conter o impacto do vírus na família da Ana. “De domingo à sexta-feira, morreram 3 pessoas próximas a ela”, enfatiza o jovem advogado.

“De domingo à sexta-feira, morreram 3 pessoas próximas a ela”

Acompanhando de perto desenrolar da pandemia na terra natal de sua namorada, Matheus inclusive mudou de opinião quanto o isolamento social. “Cheguei a ler muita coisa do isolamento vertical, achando que poderia ser uma solução viável, só que no meio desses estudos coincidiu com as notícias do Pará, me jogando para outra situação”, relembra o jovem. Um exemplo de notícias a que refere-se Matheus é da superlotação dos leitos da rede municipal de Belém, em 21 de abril, ou então na reportagem que assistiu na TV, que o advogado assim recorda: “Filmaram uma pessoa sendo atendida, sendo levada para o hospital e no mesmo dia ela morreu. E isso me afetou de forma tão negativa a ponto de eu conversar com minha namorada e dizer ‘não quero ver mais’”.

“Justamente um que falou que era uma ‘histeria’ foi quem precisou dos remédios que a gente mandou. A esposa e o filho dele que utilizaram” 

“Enquanto a gente banalizar a vida humana, a gente tá muito errado”, protesta Matheus. Que não fica apenas nas palavras, já que, mesmo para aqueles que não levam o isolamento social a sério, o advogado e sua namorada não negam ajuda. “Eu estou fazendo o certo, é bem simples isso. Essas pessoas que estão fazendo o errado”, desabafa. Inclusive, o casal chegou a mandar remédios para parentes que negam a importância de evitar o contato com outras pessoas, como relata Matheus: “Justamente um que falou que era uma ‘histeria’ foi quem precisou dos remédios que a gente mandou. A esposa e o filho dele que utilizaram”.

A situação está num nível que fez com que alguns familiares de Ana deixassem Belém, e os namorados cogitam expandir essa estratégia para os que ficaram. “Deixar alguém na fila do hospital, para mim, é inconcebível”, revela o advogado o diálogo que tiveram: “‘Ah, mas vai gastar 100 mil reais numa UTI móvel?’ Tá, e a outra opção é deixar morrer?”, questionou, deixando claro que não mediram esforços para salvar as vidas dos entes queridos.

Foto de Bruno Cecim | Agência Pará

Foto de Bruno Cecim | Agência Pará

 

  • Seria a grama do vizinho mais verde?

Outro governo que também decretou o lockdown foi do Maranhão. No último dia 03, quando o estado contabilizava 4.227 casos de covid-19 confirmados e 249 óbitos, o governador Flávio Dino atendeu a determinação judicial de acentuar o isolamento social nos municípios de São Luis, Paço do Lumiar, São José de Ribamar e Raposa a partir do dia 5. Dentre outras coisas, o decreto proibiu aglomerações em espaços públicos ou privados, a suspensão de certas atividades econômicas, a obrigatoriedade do uso de máscara em lugares de uso coletivo e, ainda, a emissão de Declaração de Serviço Essencial a ser emitida pelos empregadores de trabalhadores das atividade consideradas essenciais.

É nesse cenário que dona Maria Madalena, 53, e seu Bertolino, 58, se encontram. Filho do casal, Tiago Martins, 33, psicólogo e assessor na Câmara dos Deputados, conta os relatos que têm ouvido da capital maranhense. “Meus irmãos estavam me falando que no fundo do hospital Carlos Macieira tinha uma série de carros de funerária”, conta Tiago. Mesmo nessa situação, “tem muita gente em São Luis que tá fazendo à moda qualquer coisa (sic), de qualquer jeito. As pessoas estão indo para rua, supermercado…”, lamenta o psicólogo. E o vírus está se aproximando cada vez mais de seus pais, já que familiares próximos foram infectados como a prima de Dona Maria, um primo do Tiago e a esposa desse primo, além da vizinha de seus pais que, infelizmente, veio a óbito.

“A gente tem mais ficado na base da fé”

Para seu sossego, contudo, sua família é bem mais consciente quanto ao momento em que vivemos. Segundo Tiago, apenas seu Bertolino é que tem saído, inclusive para fazer as compras da casa, já que seu trabalho como vigilante na promotoria é considerado essencial. “Mamãe até adotou algumas coisas muito pelo que eu tinha falado: ‘papai saiu para o trabalho e voltou? Bota as roupas para lavar’. Sair de máscara, usar o álcool em gel ou álcool 70”, conta o assessor, orgulhoso de sua mãe e de tê-la ajudado.

Apesar da consciência do casal, eles não passam ileso pelas consequências da pandemia. “Tem impactado bem mais na minha mãe pois ela é autônoma e as pessoas não têm saído de casa para fazer serviços de depilação, sobrancelha e cortar cabelo”, expressa Tiago como a renda da casa foi afetada, contando agora apenas com o salário do pai. Até por essa queda na renda que a família ainda não tem um plano caso a situação na cidade piore, apesar de Tiago já ter pensado na possibilidade. “A gente tem mais ficado na base da fé”, confidencia o filho de dona Maria e seu Bertolino, que segue: “e rezado para que eles possam seguir as orientações direitinho”.

Foto de Biné Morais | Agência São Luís

Agentes fiscalizam feira na zona urbana de São Luís em 08/05/2020. Foto de Biné Morais | Agência São Luís

lockdown adotado no estado do Maranhão diverge em muitos pontos daquele implantado no Pará . Especialistas, inclusive, discutem o emprego do termo, que deveria se referir a medidas bem mais drásticas do que as tomadas pelos governos estaduais. Mas se tem algo que tanto Matheus como Tiago concordam é que se passa a reconhecer muito mais o poder da covid-19 quando os dados de mortos e infectados tornam-se nomes.

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