Educação

Sem alterações, cronograma do Enem é alvo de críticas

Ministro da Educação afirma que as datas do calendário do Enem não podem ser prejudicadas pela pandemia. Escolas de todo o Brasil estão com aulas suspensas

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Apesar do coronavírus ter afetado todo o mundo e ter sido reconhecida pelo Organização Mundial da Saúde (OMS) como pandemia, o Ministério da Educação (Mec) decidiu manter o cronograma do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) sem alterações. A medida é contrária a situação atual de todo o Brasil, que adotou a quarentena para evitar a propagação do vírus. O não adiamento também incita o aumento da desigualdade social, tendo em vista que as aulas nas escolas da rede pública foram cessadas, enquanto apenas instituições particulares seguem com as atividades remotamente.

A solução para a ausência das aulas e para a continuidade do cronograma, segundo propaganda do Mec, é que cada aluno estude sozinho, pela internet e por livros. Porém, cerca de 46 milhões de brasileiros não possuem acesso à rede, segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação ao uso de computador para acesso, cerca de 75% dos estudantes da rede privada possuem, enquanto o percentual de alunos da rede pública cai para 36%. Também segundo o IBGE, a quantidade de bibliotecas públicas nos municípios do país caiu de 97,7%, em 2014, a 87,7%, em 2018. Atualmente, há 7.130 bibliotecas desse tipo em todo o país.

De acordo com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, a interrupção nas aulas presenciais não é motivo de alarde e nem de adiamento do Enem. Durante transmissão ao vivo, no dia 17 de abril, Weintraub afirmou que “está difícil para todo mundo”, se referindo à pandemia causada pela covid-19, que matou 11.123 pessoas no Brasil até 10 de maio. “Isso que tem que paralisar tudo é bobagem. O Brasil não pode parar, não vai parar”, disse. “A gente vai selecionar as pessoas mais preparadas para serem os médicos daqui dez anos, os enfermeiros, os engenheiros, os contadores.”

A decisão de manter o calendário do Enem sem alterações incitou a campanha #AdiaEnem, realizada pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e a União Nacional dos Estudantes (UNE). Além disso, influencers digitais também se posicionaram contra. Como é o caso da universitária Débora Aladim, que possui 1 milhão de inscritos no Instagram e 2,54 milhões no Youtube, onde posta vídeo aulas sobre história e redação. Em vídeo veiculado no IGTv, Débora confronta o posicionamento dos representantes da educação e enumera os motivos para o Enem ser adiado.

Débora pretende lançar um curso online gratuito focado no Enem 2020

Débora pretende lançar um curso online gratuito focado no Enem 2020

No vídeo de pouco mais de 13 minutos, visto mais de 5,2 milhões de vezes, Débora afirma que a manutenção do calendário sem alterações ocorre por conveniência, pois as datas já estavam decididas antes da pandemia, e por medo da demissão do presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Alexandre Lopes, que comandou o órgão em meio a inúmeros erros na correção do Enem de 2019. “O problema não é a quarentena, não é a paralisação das aulas. O problema é o Ministério da Educação estar fingindo normalidade em uma situação em que todo o mundo decretou que não está tudo bem. Basicamente o que o Ministério da Educação fez foi falar ‘você tem direito a educação, a gente só não vai dar isso para você’”, afirma a influencer.

Com o calendário mantido, as provas ocorrem nos dias 1 e 8 de novembro, na modalidade impressa, e nos dias 22 e 29, na modalidade digital. De acordo com a professora de políticas educacionais da Universidade de Brasília, Catarina de Almeida, a realização nos dias divulgados, sem adiamento, é incerta e favorece a desigualdade social. “Em qualquer cenário, em qualquer perspectiva, não faz o menor sentido manter o cronograma. A gente sequer sabe qual será a realidade brasileira na data do Enem. Só poderia ser mantido diante da gestão do Mec, que na verdade não tem a menor sensibilidade com a realidade do Brasil”, explica.

A forma encontrada pelo Centro de Ensino Médio 04 de Ceilândia para retomar as aulas foi o uso da plataforma Google Sala de Aula, que é um serviço gratuito. Para o aluno do 3° ano Caetano Pereira, 17 anos, é uma forma de não perder tanto tempo, mas não é a mesma coisa que o ensino presencial, devido à falta de estrutura. “Os professores estão primeiro relembrando o que tinha sido estudado no começo do ano. Está me ajudando bastante, mas queria que as aulas normais voltassem logo, é difícil prestar atenção em casa”, explica o estudante, que não acredita que conseguirá um bom desempenho no exame.

Paródia 

A propaganda do Governo Federal sobre o calendário do Enem 2020 não foi bem recebida pelos internautas, que se indignaram com a forma como a interrupção das aulas foi abordada. O vídeo afirma que “a vida não pode parar”, e incentiva as pessoas a estudarem “de qualquer lugar, de diferentes formas”. “E se uma geração de novos profissionais fosse perdida? É preciso ir à luta, se reinventar, superar. Dias melhores virão”, diz o vídeo.

Propaganda original do Mec foi muito criticada na internet

Propaganda original do Mec foi muito criticada na internet

Inspirada na propaganda, a internauta Vic Pannunzio produziu paródia ironizando as falas do vídeo original. A paródia viralizou nas redes sociais e já teve mais de 1,52 milhões de visualizações no Twitter. “E se várias gerações morressem por conta de um vírus? E daí? Pais, avós, médicos, advogados, todos eles iriam para o mesmo lugar. Não seria o melhor para o nosso país?”, indagou. O vídeo também utilizou da expressão “você que lute”, que significa superioridade em determinada situação. “As mortes não vão parar. É preciso ir à luta, se reinventar, dias piores virão.”

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