Comportamento

O isolamento dentro da quarentena

Mudanças na rotina, na simplicidade e nas coisas pequenas dentro e fora de casa são essenciais para o combate da Covid-19

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Dia 22 de janeiro, minha mãe estava de volta ao trabalho no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Ela é técnica de enfermagem na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e eu achava que seria mais um dia normal de plantão. À noite, chegando em casa, ela veio com a notícia de que uma ala do hospital já estava reservada para casos do novo coronavírus. Lembro que tomei um susto e ainda brinquei dizendo que isso não ia chegar tão cedo aqui, já que o ano só começa depois do carnaval. Ficamos apreensivos aqui em casa, mas até então, nenhum caso estava confirmado nem no Brasil e muito menos no Distrito Federal.

E a vida continuava normal: faculdade, estágio, aniversário, rolês. Não se falava sobre o coronavírus. Às vezes comentávamos nas rodinhas da sala ou nos bares que faleceram tantas pessoas, tal país estava em quarentena e isolamento social. Realidades tão distantes da minha vida e da dos meus familiares e amigos. Mas aí veio a melhor época do ano (depois da festa junina, é claro), o carnaval. O carnaval de 2020 em vários estados bateu recorde de público, a festa era garantida. Lembro que no dia 26 de fevereiro estava assistindo o jornal e veio a notícia: ‘’Brasil confirma primeiro caso de coronavírus’’ em São Paulo. Foi um baita susto, imediatamente minha mãe falou que era questão de tempo isso se disseminar e atingir boa parte do país.

Vida continuava… mas em questão de 9 dias depois veio mais uma notícia – “Primeiro caso de coronavírus é confirmado no DF’’. Dia 6 de março de 2020 a primeira paciente de Covid-19 da capital estava sendo encaminhada para o  Hran. Coincidentemente, a minha mãe estava de plantão. Tomei um baque e pensei: “agora é sério’’. Como poderia um vírus estar tão perto de mim, da minha família, e no trabalho da minha mãe ? A incerteza e a insegurança só aumentavam era tudo muito novo, sem conhecimento ou ideia, pois antes eram só “notícias’’.

Em casa

Chegando do trabalho, minha mãe imediatamente foi conversar e alertar-nos sobre o que tinha vivenciado naquele dia 6 de março. Lembro que ela falou que nunca tinha visto nada parecido em toda a sua carreira profissional na área da saúde. A vítima encontrava-se bastante debilitada, entubada, respirando com ajuda de um aparelho. O medo tomou conta da minha casa. Porém, ao mesmo tempo confiava muito no potencial profissional da minha mãe e da equipe médica e dos procedimentos que eles estavam adotando, desde o cuidado da paramentação e desparamentação das roupas utilizadas, e nos pequenos detalhes que fazem a diferença até hoje.

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O cuidado com a paramentação da roupa no trabalho dos profissionais de saúde é essencial para combater a Covid-19 Foto: arquivo pessoal

Dia 13 de março, o Governo do Distrito Federal decretou a suspensão das aulas em faculdades e escolas. Minhas aulas e a dos meus irmãos  foram suspensas e meu estágio também. Meus irmãos ficaram animados, até comemoraram dizendo que eram “érias prolongadas’’, isso porque iam iniciar a semana de prova. Achei estranho todo mundo em casa, logo eu que não parava em casa com a correria do dia a dia. Menos a minha mãe. A demanda do trabalho dela aumentou, os plantões também, não tinha gente para substituir a escala e as coisas mudaram dentro da minha casa.

Minha mãe explicou que iríamos ter que nos disciplinar ainda mais, e mudar a conduta e a rotina dentro e fora da nossa própria moradia. Eu, particularmente, de início, achei um exagero, mas os dados mostravam outras coisas. O governo precisou decretar a suspensão das atividades não essenciais no DF. No mês de abril o DF já tinha registrado 4 mortes pela doença, em maio já são aproximadamente 55 vidas que foram perdidas.

Mudanças

Toda mudança repentina é difícil. Só o fato de estarmos isolados dos amigos e demais familiares me deixou abalada. Notícias sendo atualizadas a todos os instantes com mais e mais infectados. O isolamento social e a quarentena são os melhores remédios para se precaver do vírus. Como isso seria possível com a minha mãe trabalhando na linha de frente dessa pandemia, ela e mais inúmeros profissionais?

Rapidamente o número de pacientes do Hran aumentava. Tivemos que mudar alguns hábitos considerados ‘’simples’’ dentro da minha casa.

Um simples almoço em família não havia mais, pois cada um comia separado. Talheres, copos, pratos, toalhas são individuais e identificados com o nome de cada um. Limpamos a casa todos os dias com água sanitária, as compras são higienizadas e lavadas com álcool em gel e sabão. Não sair de casa sem máscara, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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Desde o dia 11 de maio é obrigatório o uso de máscara como medida preventiva no DF               Foto: arquivo pessoal

Quando chegamos da rua tiramos os sapatos e limpamos com água sanitária para não trazer o vírus para dentro de casa. Toda roupa, colocamos para lavar e passamos álcool nos objetos. Fazemos isso em uma área reservada da casa para não contaminar o resto.

Meus pais não dormem no mesmo quarto há três meses, sendo uma mudança necessária tanto para ele quanto para ela. Não podemos abraçar a minha mãe, e quando conversamos com ela mantemos uma certa distância. O  DF tem aproximadamente 2,8 mil casos de infecção sendo 513 são funcionários da linha de frente ,18% desse total.

Mas, sem dúvidas o dia mais feliz nessa quarentena infinita foi o dia 24 de abril. Com mais de um mês cuidando dos pacientes da Covid-19 finalmente a minha mãe conseguiu fazer o teste para detectar o coronavírus. Ela e ninguém da UTI estavam contaminados. Logo ela mandou a notícia para o grupo da família e ficamos animados. Não sei explicar o sentimento que tive, foi uma mistura de alívio com felicidade e com medo também.

Essa insegurança, medo e perspectiva de quando tudo isso vai acabar ainda é recente. Aqui em casa temos o pensamento que é um dia de cada vez. Agradecer também pelo trabalho humanizado da minha mãe e de outros milhares de médicos, enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas e outras tantas profissões que estão batalhando na linha de frente dessa pandemia. Fique em casa para eles também ficarem em casa com suas famílias. Ainda é incerto, porém estamos aprendendo a  refletir sobre a importância da vida e dos momentos pequenos como comprar um pão na padaria até a importância de um abraço.

* Este texto é de inteira  responsabilidade do autor/autora e sua opinião não representa a do Portal de Jornalismo Iesb

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