Saúde

Como a solidão afeta os idosos

O contato humano passou a ser evitado para evitar propagação do coronavírus, mas deixou espaço para a solidão na terceira idade

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Aos 86 anos, as melhores lembranças de Maria Rita seguem nítidas e intactas na memória. Ela se lembra com detalhes do dia que chegou em Brasília, em 1963, de como foi difícil chegar ao seu destino na capital e de como foi feliz pelas ruas das satélites, hoje regiões administrativas. Memórias que aquecem o coração e remetem a um tempo sem distanciamento social ou ao uso obrigatório de máscara facial. Período da vida de Maria Rita muito diferente do presente, quando podia estar com todos os sete filhos, com os mais de 30 netos e bisnetos espalhados pela casa e com a tataraneta no colo.

Tudo mudou com o surgimento do coronavírus, que acarretou em quarentena a partir de março. Desde então, almoços, festas e comemorações foram cessadas. A casa de Maria ficou vazia. Não lhe é permitido caminhadas ou idas à feira. O cuidado dos familiares com a idosa ocorre pelo medo de contaminação pela covid-19, que já afetou mais de 3 mil pessoas no Distrito Federal. A faixa etária de Maria Rita é a mais atingida pela doença, com taxa de mortalidade cinco vezes a média global. Das 16.118 mortes no Brasil, até 17 de maio, mais de 73% foram de pessoas com mais de 60 anos.

Maria Rita parou de receber visitas e de fazer passeios devido à quarentena social

Maria Rita parou de receber visitas e de fazer passeios devido ao isolamento social

 

A nova forma de cuidar pode trazer aos idosos o sentimento de solidão e de medo, que em larga escala desencadeia doenças físicas e emocionais. A solução em meio à quarentena é manter o contato com as pessoas, mesmo que à distância, principalmente com ligações diárias e chamadas de vídeo. Falar o que está sentindo também alivia o sofrimento do isolamento e evita a ansiedade, doença que afeta 9,3% da população brasileira segundo recente relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). O índice é o triplo da média mundial e faz com que o Brasil seja um dos países com mais pessoas ansiosas no mundo.

Além das ligações telefônicas, o modo encontrado para evitar que Maria se sentisse sozinha, sobretudo de noite, foi que um dos netos passasse a morar com ela. No entanto, devido aos jogos on-lines e hábitos noturnos do adolescente, pouca coisa mudou. Eis a próxima alternativa: revezamento de outros netos e filhos para dormir algumas noites com a idosa. Opção arriscada, mas que melhorou a aceitação da senhora com a quarentena. Os cuidados dos visitantes devem ser os mais rígidos possíveis, para que não haja possibilidade de contágio trazido da rua.

Do outro lado do mundo, na Itália, idosos que foram contaminados pela covid-19 conseguiram recuperar-se com sucesso. Como a italiana Alma Clara Corsini, de 95 anos,  primeira paciente idosa curada. Histórias como a de Corsini mostram que é possível superar a covid-19, por meio do respeito ao distanciamento social, que evita a sobrecarga do sistema de saúde. O ano de 2020 certamente ficará guardado na memória de Maria Rita como o período em que precisou estar sozinha presencialmente, mas sempre acompanhada de alma.

 

* Este texto é de inteira  responsabilidade do autor/autora e sua opinião não representa a do Portal de Jornalismo Iesb

 

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