Entrevistas

“É uma questão de validar tudo que a gente está sentindo”

Em conversa com o Portal de Jornalismo IESB, a médica psiquiatra Monique Scalco fala sobre os cuidados com a saúde mental no período da pandemia

Monique Gomes Scalco é médica psiquiatra, mestra em ciências médicas pela Universidade de Brasília, pesquisadora em depressão e sócia-fundadora de um instituto de psiquiatria. Nesta entrevista, ela explica, tira dúvidas e traz o seu ponto de vista sobre saúde mental em tempos de pandemia e isolamento social. Além disso, fala um pouco sobre a própria rotina corrida entre trabalhar atendendo pacientes e dar atenção para a filha pequena, de apenas 2 anos de idade. Confira:

Pessoas que já sofrem ou possuem tendência a sofrer de algum transtorno mental tendem a piorar nesse período de isolamento? Os transtornos podem se agravar?

O que eu tenho percebido: tem dois jeitos de reagir. Mesmo que tenham alguma doença mental, como ansiedade e depressão, as pessoas que já estão mais estáveis, em tratamento, conseguem lidar melhor. A verdade é que todo mundo, em algum grau, vai sentir o impacto do isolamento, medo da pandemia, enfim. Mas, quando a pessoa tem uma instabilidade desse transtorno mental, é possível, sim, que isso se agrave nesse contexto. Então, fica mais ansioso, mais preocupado, ou mais assustado.

Em contrapartida, tem algumas situações que eu, enquanto psiquiatra, tenho dificuldade, por exemplo: uma pessoa que tem tendência a se isolar ou que o isolamento faz parte dos sintomas dela, hoje eu não posso dizer para ela ir pra rua, para ela aceitar mais os convites pra ter maior interação social. Então, são os novos desafios até da maneira como eu vou lidar com esse tipo de problema. Porque tem alguns pacientes que estão bem confortáveis de estar isolados, não sentem mais a pressão para sair, se relacionar. Mas a reposta é, então, que depende mesmo do que está acontecendo na vida individual de cada pessoa.

O que você acha sobre as cobranças para ser produtivo na quarentena? Exemplo: “agora você não tem desculpa para não fazer tal coisa, pois tem tempo de sobra”.

Em relação a essa exigência de produtividade, ela tem que ser flexibilizada. É claro, e eu mesma sempre digo isso, é super importante a gente manter uma rotina, tentar pré-estabelecer as atividades que a gente faz durante o dia, ainda mais agora que a gente está ficando só em casa, isso é muito importante. Rotina protege a nossa saúde mental. A previsibilidade das situações no nosso microuniverso – dentro de casa – cuida, reduz a ansiedade.

Estamos num momento do mundo em que é tudo muito imprevisível, não sabemos ao certo quanto tempo vamos ter que ficar isolados, a gente não sabe ao certo as proporções que a pandemia vai atingir. Mas conseguimos cuidar ou tentar cuidar do nosso dia a dia, da nossa rotina. Então, começar do simples, horário para acordar, pra se alimentar, colocar um exercício físico, alguma atividade de lazer, isso eu acho que já é extremamente produtivo pra todo mundo.

Caso a pessoa consiga, além disso tudo, fazer um curso, aplicar melhor o tempo dela, excelente! Mas isso não é uma exigência desse período que a gente está vivendo. Até porque, é possível que a nossa produtividade inclusive caia, porque a gente não está nas nossas condições normais de trabalho, a gente está com medo de sair de casa, com medo de adoecer, de passar a doença pra alguém que de repente esteja no grupo de risco, tendo que se readaptar a todas as estruturas de trabalho. Alguém que trabalhava todos os dias e está fazendo home office, alguém que trabalhava por hora e agora está indo por demanda ou produtividade. Então, a gente precisa flexibilizar e ser mais gentil, não precisa ter toda essa exigência de produtividade.

Você considera as redes sociais boas aliadas durante o isolamento social, ou elas podem ser prejudiciais?

Qualquer tipo de interação social que a gente tenha nesse momento que estamos isolados é válida. Não é porque a gente está isolado que não podemos socializar. É a nossa ferramenta de socialização, por isso até que se chamam redes sociais. Mas o bom uso dessas ferramentas é super importante. Então, falar com as pessoas que vão te responder, cuidar para não se expor demais, são regras que já valiam antes da pandemia, mas continuam valendo. Imagina se a gente estivesse isolado em casa e sem essa possibilidade de ter essa interação social? Então, eu acredito que sejam aliadas sim.

Muito se fala sobre aprender lições com a pandemia. Com base no seu conhecimento, depois de meses de distanciamento e quarentena, como você acha que as pessoas voltarão para o convívio e para as atividades que exerciam antes? Na sua opinião, é possível se tornar “um ser humano melhor” após um acontecimento como esse?

É claro que ninguém sai igual de uma situação como essa, é um estresse muito grande. Eu acho que o desejo que a gente tinha era que tudo voltasse a ser como era antes, mas acho possível que as coisas nunca mais sejam como eram antes, é difícil. E é importante, também, não romantizar a pandemia: “Ai, vai todo mundo sair pessoas melhores, a gente vai estar mais unido”. Eu acredito, sim, que a gente possa conseguir de maneira assistida e cuidadosa, cada um tentar perceber as mudanças, tentar olhar um pouquinho mais para si.

É claro, tem uma coisa que também já me perguntaram: “Você acha que por conta da pandemia é uma oportunidade que a gente tem de ser obrigado a ser introspectivo, então, olhar pra dentro?” E eu acho que é um convite, mas também é um processo muito individual. Nós todos fomos colocados nessa situação de estar mais em casa, de estar convivendo com poucas pessoas, então não é todo mundo que vai conseguir tirar um excelente proveito dessa situação. Algumas pessoas vão só sofrer, outras pessoas vão conseguir viver a vida minimamente.

Como as notícias sobre a pandemia – muitas negativas – veiculadas de forma rápida e volumosa podem influenciar nos transtornos mentais de um indivíduo?

Neste momento da humanidade, se a gente quiser, a gente fica 24 horas por dia ouvindo sobre coronavírus, sobre pessoas com covid, número de mortos. Temos muito acesso à informação. O que eu sempre oriento, e na verdade é o que se orienta de maneira mais sistematizada, falando sobre saúde mental, é que a gente precisa não ficar tão envolto com essas notícias. Mas é claro, os veículos de informações são extremamente importantes nesse momento para documentar tudo que está acontecendo, para alertar a população.

A minha orientação básica é assim: escolha uma periodicidade para saber sobre o que está acontecendo. Às vezes é um dia sim e outro não, outras vezes é todos os dias tal horário em algum jornal, ou, ler de algum outro jornal. Mas, primeiro escolher seus veículos, que sejam veículos de comunicação confiáveis, veículos de credibilidade, para serem notícias checadas e pra não cair em fake news e, assim que você se inteirar, a pessoa entender o que está acontecendo, desligue a televisão e vá fazer outra coisa, ou feche aquela notícia ali no site, ou ainda, pare de ler o que está lendo e vá fazer outras coisas. Porque, neste momento, não é uma boa ideia deixar a tv ligada no canal de notícias indeterminadamente.

 

Monique Scalco em seu instituto de psiquiatria / Reprodução: Instagram

Monique Scalco em seu instituto de psiquiatria / Reprodução: Instagram

Agora, sobre a sua vida pessoal. Como você está lidando com a quarentena? Tem sido difícil? E em relação ao trabalho, consultório e pacientes. Como você fez para readaptar essa rotina?

Não está fácil pra ninguém, cada um tem os seus desafios, pessoas com filhos pequenos têm os seus desafios, as pessoas que estão sozinhas na quarentena têm os seus desafios, mas o meu aqui em casa é uma criança pequena. Eu trabalho num ramo, essa natureza do meu trabalho impede que eu tenha a minha filha por perto, por mais que eu esteja atendendo em casa. Então, desde o dia 20 de março que saiu uma resolução liberando a telemedicina, eu passei a atender basicamente por vídeo. A maioria das vezes eu estou em casa e é todo um esquema aqui. Eu tenho a ajuda do meu marido, mas, quando eu preciso atender, eu me arrumo como se eu fosse sair de casa, me despeço dela, aí eu dou beijinho de “tchau filha” e vou pro corredor, ele leva ela pra cozinha ou pro quarto, eu passo pela sala correndo, me tranco no quarto e vou atender. E o contrário é verdadeiro também (o esposo de Monique também é médico) quando eu termino meus atendimentos.

Geralmente, eu passo a tarde inteira só no quarto, ainda bem que eu tenho uma suíte com banheiro (ela brinca) e aí eu volto, toco a campainha e ela acha que eu cheguei. Fora isso, eu percebo que eu tenho conseguido lidar, estou conseguindo receber e atender meus pacientes, entendo a minha importância nesse momento de saúde mental de todos eles e, ao mesmo tempo, fico frustrada por tudo que está acontecendo com o mundo, isso se reflete mesmo no dia a dia e todo mundo está assim. Inclusive, uma coisa que eu acho importante dizer é: “todo mundo está assim, não é privilégio nem maldição de ninguém estar passando por isso, a gente está meio que junto nessa.” Então, até a nossa maneira de lidar com problemas grandes, esse maior problema – a pandemia – muda.

Inicialmente, na psiquiatria e na psicologia, a gente tem a orientação de redimensionar o problema da pessoa. Muitas vezes, a pessoa está hipervalorizando aquele problema ou está hiper reagindo de um jeito que ela não consegue ter ferramentas para lidar com ele, então a gente redimensiona e diz: “Como é que você acha que pode lidar melhor?” Se a gente for tentar redimensionar uma pandemia, a gente vai ficar cada vez mais ansioso, cada vez mais preocupado. Aqui, eu acho que é uma questão mais de validar tudo que a gente está sentindo, então, valida que vai ficar ruim, valida que vai ter momentos de ansiedade e, no segundo momento, entende que esses sentimentos são flutuantes. Eles vêm na mesma intensidade que eles vão. Aceitar que, às vezes, a gente vai estar mais ansioso, não vai conseguir fazer todas as coisas, que está difícil para você, mas está difícil para todo mundo. Então, que sejamos mais flexíveis com as outras pessoas também.

Que dicas você dá para as pessoas se distraírem em casa nessa quarentena, e, acima de tudo, para manterem a saúde mental e controlar a ansiedade ou outros transtornos?

Eu acho que, nesse momento, uma das coisas mais importantes que a gente pode fazer e as coisas que a gente consegue fazer, além da rotina, são: primeiro, entender que as pessoas que a gente ama estão bem, então, voltando lá para as redes sociais, é falar com seus amigos por vídeo, por áudio, falar com a sua família, entender que está tudo bem. Ter momentos de tranquilidade, de lazer, a arte é muito importante agora. Muitas pessoas falam: “O que está me deixando mais tranquila é poder ler os livros que eu estou lendo ou assistir as séries que eu estou assistindo, ver os filmes que eu estou vendo.” Então, é separar um tempo para isso. Conseguir fazer exercício físico com alguma frequência e regularidade, e focar nas pequenas coisas que você consegue planejar e controlar.

A maioria dessas dicas e tudo isso que a gente está falando são pra pessoas que não tenham problemas mentais prévios. Então, aqui eu estou falando para uma pessoa que não tenha uma ansiedade patológica, um transtorno obsessivo compulsivo, uma depressão em tratamento.

Se você perceber, por exemplo, que o seu sono está muito difícil de conciliar, que você tem crises de ansiedade, de taquicardia, preocupação, várias vezes ao dia, ou o dia inteiro em algum grau fica um pouco ansioso, um pouco inquieto, sem conseguir fazer as suas atividades, ou chorando, tendo prejuízo no dia a dia por conta dessas situações, aí é sempre importante procurar um profissional de saúde mental, seja psicólogo, seja psiquiatra. A maioria deles está atendendo por vídeo, eu mesma estou atendendo por vídeo e em alguns casos específicos, dependendo da gravidade, eu vou para o consultório e atendo de lá também, presencialmente, claro, com todos os cuidados: máscara, álcool em gel, distanciamento necessário.

Um alerta para caso tenha dúvida: “Será que isso que eu estou sentindo está exagerado, será que isso que eu estou sentindo é o esperado?”, procure ajuda. Não tente fazer esse trabalho sozinho, tem bastante gente habilitada para desenvolver e ajudar.

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