Entrevistas

Gentileza também gera café do bom

Patrícia Gentil, fundadora do Gentil Café, Pausa e Prosa, abre o jogo sobre como a pandemia tem afetado o mais novo membro da família

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Uma cafeteria aconchegante localizada no centro de Brasília. Um lugar para se tomar um café, talvez 6. Um lugar para se dar uma pausa, apreciar uma culinária carinhosa e atenciosa, e desfrutar o dia, ou noite, na capital. Um lugar para uma prosa descontraída, com funcionários receptivos e atenciosos. Gentis. Inclusive, um lugar onde a gentileza vem de família e está até no nome: Gentil Café, Pausa e Prosa.

Era isso que os clientes encontravam no estabelecimento de Patrícia Gentil. Encontravam. Como não é novidade para ninguém, o efeito devastador do coronavírus fez com que o governo do DF fechasse o comércio a fim de evitar aglomerações e, dessa forma, a loja na 410 sul teve que suspender suas atividades.

Empresária, Patrícia toca o negócio com as outras duas irmãs Gentil. Nutricionista de formação, passou anos atuando com políticas públicas relacionadas à alimentação saudável, e que ainda o faz, por amor, descrevendo como “militância” devido aos desafios encontrado. Nessa entrevista, a fortalezense de 42 anos compartilha suas angústias, reivindicações e esperanças com este blog.

As irmãs Gentil: Cristine, Patrícia e Michelle (esq. para dir.). Foto: Luís Tajes

As irmãs Gentil: Cristine, Patrícia e Michelle (esq. para dir.). Foto: Luís Tajes

 

Como surgiu a ideia do Gentil Café?

Michele, Cristine e Patrícia na loja, ainda em obras, que seria o Gentil Café. Foto: Luís Tajes.

Michele, Cristine e Patrícia na loja, ainda em obras, que abrigaria o Gentil Café. Foto: Luís Tajes.

A partir de 2016, eu decidi que queria mudar, queria fazer uma outra coisa e não queria mais trabalhar no serviço público, tava muito difícil, né? Foi um momento bem complicado e eu tava trabalhando num cargo que tinha muitas atribuições. E em função dessas dificuldades, eu tomei a decisão de que não ia mais me sujeitar a essas mudanças bastante inconsequentes da política pública, e não estou falando de partido, de nada. Aí tomei essa decisão e comecei a estudar, a pensar no modelo de negócio. Eu sempre tive o sonho de ter o negócio próprio e fui fazer curso: fiz o curso do Empretec do Sebrae, comecei a estudar o mundo do café e percebi que as habilidades para o empreendedorismo, mal ou bem, já havia testado na perspectiva do serviço público [risos], que é a resistência, a persistência, resiliência, capacidade de superação, criatividade, enfim. Fui me empolgando e fiz um plano de negócios com a EConsult da UnB [empresa júnior de consultoria] e nesse meio tempo, minhas irmãs também começaram a questionar a vida profissional delas. A Cristine, que é a irmã do meio, trabalhou a vida inteira como jornalista já estava muito cansada, numa fase muito difícil do jornalismo e aceitou a mergulhar no negócio comigo. E bem depois, a minha irmã mais velha [Michele], tava na mesma perspectiva depois de trabalhar muitos anos com turismo e também resolveu embarcar na onda da cafeteria. Então eu fiquei entre 2016 e 2018 estudando, pensando, gestando, e elas foram entrando e fazendo o negócio acontecer. Quando o Café nasceu mesmo, em novembro de 2018, já estávamos as 3 lá dentro, super envolvidas e se organizando a partir das habilidades de cada uma.

 

E qual é o diferencial do Gentil Café?

Minha mãe [Dona Sara Gentil], que tem uma história importante com comida, também entrou para ajudar. Não na sociedade, mas entrou no apoio moral, no apoio da experiência, porque a gente tem a história da comida afetiva, da cultura e dos nossos hábitos. Foi muito do que a gente aprendeu com ela e com meu pai: isso da casa cheia, de receber bem, e valorizar a comida para além do nutriente, mas enquanto a ordem social, de agregar pessoas, de dar todo esse sentido simbólico. O Gentil Café nasceu com essa perspectiva. E também não tínhamos experiência nenhuma na prática do negócio, e ao longo desse 1 ano e 6 meses a gente vem superando muitos obstáculos e desafios. Somos 3 mulheres com uma bagagem de experiência grande, cada uma com seu gênio [risos]. Somos 3 mulheres de personalidade forte e a gente tem se debruçado sob momentos bem desafiadores.

 

Fachada da loja. Foto: Luís Tajes.

Fachada da loja. Foto: Luís Tajes.

 

Como o Café estava se saindo antes da pandemia?

Estava sendo muito gratificante. O Café é muito novo, a gente ainda tem muitas dívidas da implantação e agora a gente tem se deparado com um momento bem difícil e o Gentil Café não é uma cafeteria como as outras. Além do café, a gente tem uma pegada forte de comida e de ambiente. Então acho que a gente saiu um pouco do padrão, e isso nos desafiou muito. Não é um estabelecimento pequenininho, ele é razoável que demanda muitos cuidados: de atendimento, de qualidade, de receber as pessoas. É uma operação bastante complexa. E ao mesmo tempo, a gente conseguiu superar e chegar numa fase equilibrada, com mais clareza das coisas. A gente teve muito apoio ao longo do primeiro ano, dos amigos, dos clientes, da própria família, da música, da imprensa. A gente, inclusive, ganhou o prêmio de revelação do ano do Correio Braziliense [Encontro Gastrô – O Melhor de Brasília 2019, na categoria Lanches e Guloseimas]. Foi muito inspirador viver tudo isso, mas ao mesmo tempo é uma labuta muito difícil e a gente foi se reconhecendo no mundo real.

 

“A gente não demitiu, porque não é o espírito da gente fazer isso” 

 

Quantos colaboradores o Gentil Café emprega?

Temos 12 colaboradores. 12 famílias hoje que dependem do Café. Temos nós 3 que estamos lá cotidianamente, sempre tem uma de nós lá, e minha mãe. Fora um chef de cozinha, uma consultoria financeira, e alguma estratégia que a gente busca para ter um olhar mais qualificado.

E como a pandemia afetou o negócio?

A gente não demitiu, porque não é o espírito da gente fazer isso. Como eu te disse, tem 12 pessoas, 12 famílias que dependem do Café e a gente sempre trabalhou com uma equipe muito reduzida. Nunca tivemos folga de caixa para contratar outra pessoa. Nossa equipe sempre foi muito reduzida e muito parceira, então se a gente demitisse alguém faria falta, então tem esse primeiro ponto. Segundo ponto é da gente ser fiel ao que acredita. Tem uma questão humana envolvida: é uma equipe que grande parte tá com a gente desde o início, que foi muito parceira e que faz parte da família. Então nem passou pela nossa cabeça demitir, pelo menos agora. E, ao mesmo tempo, teve a medida provisória do governo federal que de alguma maneira ajudou a cobrir os custos da folha de pagamento [MP 944/2020 para financia até dois meses da folha salarial das empresas], seja pela suspensão do funcionário ou por diminuir a carga horária, e a gente fez essa opção, apesar dos funcionários não estarem recebendo o que recebiam, pois tinham uma participação nas vendas. A gente fechou as portas no dia 19 de março, 1 dia antes do decreto sair [Decreto nº 40.539 que suspende, dentre outras atividades, bares e restaurantes] porque a gente também tava com medo, ficamos bastante assustadas, e a gente também tava numa exposição grande ali. A família tava preocupada, minha mãe é uma senhora, a Michele também está no grupo de risco por causa de uma cirurgia cardíaca. Então a gente ficou com muito medo de deixar a loja aberta e ficar se expondo ao risco. Foram mais ou menos 2 semanas fechados, sem dormir e com muitas preocupações, porque o faturamento passou a ser zero [risos de desespero]. Num primeiro momento a gente procurou ajuda dos bancos, que tinha esse movimento do GDF com o Supera por meio do BRB [programa criado para ajudar pessoas e empresa durante a pandemia da covid-19], e não conseguimos muitas coisas. Na prática, essa ajuda bancária não chegou, os bancos estão fazendo avaliações de risco muito cruéis, e não só com a gente. Tenho visto que muita gente não tem conseguido esses empréstimos. Então a gente começou a tentar negociar com os fornecedores que não tínhamos pago ainda, negociamos o aluguel com a imobiliária. A gente foi negociando prazo e redução de contrato, fazendo essa parte mais ‘dura’.

E quais foram as respostas para esse momento?

Entrada do Café com as medidas preventivas ao coronavírus atendidas. Arquivo pessoal.

Entrada do Café com as medidas preventivas ao coronavírus atendidas. Arquivo pessoal.

A gente resolveu se abrir para o novo. O Gentil Café tem uma parte muito relacionada com o ambiente, e não temos como levar o ambiente do Gentil Café para a casa das pessoas, então nossa ‘vibe’ nunca foi delivery, nunca foi entregar comida, até porque nossos pratos são todos feitos na hora, são pães de fermentação natural, é uma bruschetta, um tostado aberto. São tipos de preparações que não têm muito a ver com o delivery. Os modelos de embalagem não ajudam, a logística, o tempo [da entrega]. Por exemplo, a gente tem uma preparação que é a campeã [de vendas] que é o filé Gentil que, cara (sic), você tem que comer na hora senão ele não fica bom. Pensando nisso, a gente fez a opção pelos vouchers, num primeiro momento, de vendê-los antecipados. Foram 5 tipos de vouchers, de 20 a 100 reais, e também uma opção de voucher aberto, pois a gente não quis especificar o que seria, para dar a liberdade do cliente escolher o que quiser depois. A ideia do voucher tem o simbolismo da ajuda, e o que a gente pensou foi uma moeda de troca: você me ajuda agora e depois escolhe o que quiser consumir na loja. E aí a gente teve muita ajuda e reconhecimento dos clientes. Foi como a gente conseguiu ‘virar’ o mês, não foi suficiente mas deu uma folga para a gente, por exemplo, pagar os funcionários. Nossas redes sociais também deram uma impulsionada, muita gente nova entrou, já que a gente não tem a menor condição hoje de fazer grandes impulsionamentos e de contratar um super expert em marketing. A gente vai na raça e na coragem. É minha irmã [Cristine] que tenta, dentro do profissionalismo dela, mostrar como é nossa casa. Não tem uma grande estratégia publicitária por trás, é vida real. É diálogo real.

Em qual momento vocês aderiram aos deliveries?

A gente então começou a criar uma estratégia de venda por encomenda. A gente tinha muito medo de abrir o Café para delivery. Primeiro porque os custos são muito altos para abrir e não tem ninguém na rua para consumir, e segundo a gente não tem essa trajetória de delivery. A gente fazia entrega por aplicativos, mas nunca investimos muito nisso, nunca investimos em embalagens, não é muito o nosso estilo. Mas nossa ideia do delivery era levar os bolos mais vendidos no Café para a casa das pessoas, as empanadas e o empadão, que tem toda uma história para a gente, pois nós crescemos comendo, os netos cresceram comendo e todo mundo adora, e a gente começou a ter retorno. Durante o mês de abril, nas primeiras semanas, começamos fazendo encomendas uma vez por semana, porque a gente abria o Café uma única vez, iam dois funcionários que faziam tudo e no dia seguinte a gente fazia a entrega. Na terceira semana, decidimos montar a experiência do Clube do Bolo, que é a ideia de receber, durante 4 semanas, 1 bolo diferente, das receitas da Dona Sara e que eram os bolos que mais saíam no Café. Em paralelo, resolvemos aumentar as encomendas para 2 vezes na semana, entregar todas as quartas e sextas e, agora no mês de maio, resolvemos abrir a janela. A gente tava com sentimento de energia parada, a gente precisava voltar a dar uma movimentada e tava fazendo mal para a gente o Café fechado. Então abrimos só a janela da frente, deixamos uma pessoa lá com máscara, com álcool, com tudo, colocamos uma faixa para ninguém entrar e outra pessoa lá em cima [na cozinha] e demos uma incrementada num aplicativo de entrega. Na primeira semana foi muito ruim, muito ruim. Porque a quadra tava muito vazia e aos pouquinhos que as pessoas ‘Ah, vocês abriram? Vou vir aqui’, e aí nessas duas últimas semanas tem sido bem melhor para nós. Melhor, mas muito, muito longe de antes. Nós reduzimos nosso faturamento para 10%, para você ter uma idéia. A gente perdeu muito! O Café ficava aberto de 8 da manhã às 9 da noite, a gente passou a fazer entrega 1 vez por semana. É quase nada em relação ao que era. A gente tinha o dia inteiro com o Café funcionando e movimentado. Às quartas-feiras era dia do jazz, que sempre tem mais gente, o café da manhã de domingo também tinha mais movimento e, de repente, não tem nada disso.

Por que não adentrar com mais força no mundo do delivery por aplicativos?

É o oposto do nosso modelo de negócio. A lógica dos aplicativos de entrega é muito cruel. Sua concorrência é nivelada por outras perspectivas, por exemplo, quando você abre um aplicativo desse, o que aparece para você? Pratos à 10 reais. É uma lógica diferente do nosso negócio, que tem o princípio do preço justo, mas não consigo fazer um prato a 10 reais. Eu uso queijo canastra, uso um pão de fermentação natural, uso tomate confi a base de azeite, meu bolo é amanteigado. Eu não vendo só comida, vendo experiência, vendo produção local, toda outra perspectiva. Eu vendo comida de verdade. Não compro praticamente nada de ultraprocessado, a gente produz tudo! Então quando você entra num instrumento desses, você é nivelado por preço. É cruel para quem tá entregando, é cruel para o comerciante, o percentual é cerca de 27%… É uma lógica que não atende ao mundo novo da comida de verdade, da alimentação saudável, do ambiente. Não dialoga.

 

“Vai ser um leão por dia, não vai ser fácil mas vamos superar esse momento”

 

O cardápio teve que passar algum tipo de adaptação?

Tiramos algumas opções e deixamos algumas outras que podem chegar na casa do cliente com qualidade. Demos uma diminuída no cardápio. A gente tá fazendo alguns testes, algumas outras preparações, um outro tipo de linha, com qualidade também, mas mais barata. Coisas congeladas também para pessoas que estão de saco cheio de cozinhar.

E como tá a perspectiva para o futuro?

A gente tá na expectativa de voltar no em junho. E vai voltar muito diferente… Vamos ter que redobrar as precauções e os cuidados, as normas sanitárias do Café, isso aí é ponto pacífico. E as pessoas vão ficar com medo de sair, de se encontrar, então a gente vai ter um tempo pela frente de muitos cuidados e precauções.
Estamos revendo horário de abertura, provavelmente a gente não fique o dia inteiro, a gente tá fazendo uma linha de produtos que chegue na casa do cliente com qualidade, algumas preparações novas, que possam ser servidas à distância. A gente tá mexendo um pouco no cardápio. Vamos fortalecer o Clube do Bolo, que é um flanco que a gente não tinha, que são as encomendas. Não tem muito do que ir além disso. Vai ser um leão por dia, não vai ser fácil mas vamos superar esse momento.
Do ponto de vista das políticas públicas, de alguma maneira isso tem que chegar nos nos comerciante e pequenos empresários, porque não vai sustentar os negócios. E eu não digo nem ajudar pois não é caridade, pois se você compara com outros países, o que o Brasil está fazendo é muito vexaminoso.

A esperança é de voltar a ver o Gentil Café assim, cheio. Foto Luís Tajes.

A esperança é de voltar a ver o Gentil Café assim, cheio. Foto Luís Tajes.

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