Comportamento

Em meio a pandemia, deficientes visuais enfrentam desafios para não serem contaminados

São 6,5 milhões de deficientes visuais enfrentando desafios para se protegerem do novo coronavírus

No Brasil, são pouco mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 582 mil cegas e 6 milhões com baixa visão, segundo pesquisa da Empresa Brasil de Comunicação – EBC ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Diante do cenário atual, com uma pandemia causada pelo novo coronavírus, todos os cidadãos do mundo precisam ter cuidado, fazer a higienização das mãos conforme instruções passadas pela Organização Mundial de Saúde – OMS para todas as autoridades da saúde de cada país. Com isso, entra a situação dos deficientes visuais. É um grupo de pessoas que precisam ter os cuidados mais do que redobrados pois a fonte principal deles para reconhecimento dos objetos e pessoas é o tato.

Todos já estavam acostumados com uma rotina. É como conta a Laísa Mangela Gomes Cardoso, de 29 anos, mestre em Ciência Política, que tem baixa visão em decorrência de glaucoma congênito. Ela saía de casa todos os dias pela manhã, usava o transporte público para chegar até o trabalho, fazia aulas de dança, tinha o costume de usar a academia do prédio onde mora, ia ao cinema e supermercado. Porém, tudo teve que mudar, para a tristeza das pessoas como Laísa.

Laísa Cardoso mora sozinha desde 2015 e, com toda essa situação, novas medidas tiveram que ser implementadas. “Como eu não tinha estrutura para trabalhar de casa, tive que vir para a casa da minha mãe, em Goiânia. Aqui, só saio para ir ao mercado”. E dessa saída ao supermercado, disse que toma todas precauções de segurança. Como precisa fazer o uso da bengala, a higieniza muito bem ao voltar da rua. Deixa a máscara de molho e depois a lava, usa bastante álcool em gel também.

Com relação às orientações especiais, ou seja, mais específicas sobre o dia a dia no manuseio de objetos, entre outros, Laísa demonstra sua felicidade diante dos cuidados que algumas entidades ligadas às pessoas com deficiência tiveram. Mas também deixa sua indignação pela falta de clareza da mídia, como melhor descrição das orientações. “Algumas entidades ligadas às pessoas com deficiência fizeram materiais específicos, o que ajudou bastante. Senti e sinto falta de um maior cuidado da mídia em relação a uma melhor descrição das orientações – têm feito tudo de forma muito visual”.

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Boas orientações de higienização precisam ser passadas aos deficientes visuais nesses tempos de pandemia

Já sobre os sentimentos ao ter que ficar isolada, sem o contato como de costume, a mestre em Ciência Política mostra um fato da realidade vivida por ela e muitos outros deficientes visuais. “De certa forma, pessoas com deficiência já se encontram em isolamento social, por causa do preconceito e da falta de acessibilidade. Ainda assim, é ruim não poder fazer meus exercícios e ir ao cinema. Pra falar a verdade, já sinto falta até do tumulto da rodoviária”!

E deixa seu ponto de visão por toda a situação em que se encontra no atual cenário mundial. “Eu vejo como um período de oportunidades. A realidade nunca mais será o que era e isso não é ruim. Afinal, não vínhamos sendo uma humanidade das mais humanas, né? Então acho que é bom poder rever a forma como fazemos as coisas e como nos relacionamos uns com os outros”.

Deficiente visual com cão guia

O cão guia é auxiliar e amigo, de certa forma, para os deficientes visuais. Companhia bastante inteligente para enfrentar o dia a dia com essas pessoas. Mellina Hernandes Reis, de 36 anos, é influenciadora digital e moradora de São Paulo. Ela conta que por trabalhar em casa, no manuseio de seu blog, não tem muita rotina, cada dia é diferente do outro. Portanto, mesmo antes da pandemia, ela informou que acorda, toma café e faz um passeio com a sua cão guia, ao menos de três a quatro vezes ao dia obrigatoriamente. Pegavam muito transporte público, faziam viagens… Mas, os cuidados tiveram que redobrar tanto consigo mesma, quanto com a Hillary, sua cão guia.

Com o isolamento, Mellina conta com preocupação a rotina de sua cão guia. “Não estamos pegando mais transporte público, evitando ao máximo sair de casa. Mas Hillary, mesmo antes dessa pandemia, tem que fazer sessões de Fisioterapia, por causa da idade. Ao menos uma vez ao mês a levamos. Porém, está sendo complicado porque ela fica muito entediada. Portanto, tomando cuidado, eu desço com ela, ficamos em frente ao condomínio para ela fazer as necessidades. Às vezes dou uma volta com ela no quarteirão. Eu sinto que ela precisa disso e sei que é necessário”.

A influenciadora ainda conta que faz bem sua higienização. E não esquece de usar máscara. Disse que em seu condomínio colocaram álcool em gel por todas as entradas dos prédios. Antes de entrar em casa, ela limpa todas as patas da Hillary e o equipamento de acompanhamento também. Porém, ela acrescenta. “Não recebi nenhum tipo de orientação. O que eu vi foi pesquisando, vendo televisão, escutando sobre os cuidados com pets, mas nada voltado aos cães guia”.

Mellina já não foi orientada, como Laísa, quanto a higienização pessoal. Mas seus familiares a ajudaram da melhor forma possível, via TV e mantendo a atenção no Whatsapp. Só que ela achava muito resumidas as informações que recebia e não conseguia acompanhar. “Meus pais que me ensinaram como usar a máscara”.

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Ainda existem deficientes visuais que não receberam boas orientações para se prevenir

Em meio a todas as situações vividas, Mellina Reis conta suas preocupações. “Tá muito complicado não poder fazer as coisas, sair… Ainda mais nós, deficientes visuais, que dependemos do tato para fazer o reconhecimento dos objetos e etc. Dá medo de fazer algo. Por exemplo, eu não sei como vai ser quando tudo voltar, quando eu for pegar transporte público acredito que vou ficar com receio e angustiada por não saber quanto tempo isso vai durar.”

E ela retoma a situação da cão guia e o quanto está sendo difícil para si mesma em diversos aspectos. “Ela não pode ficar parada, porque acaba perdendo condição física. Já vai fazer 9 anos. Pode atrapalhar no trabalho dela, apesar de estar no último ano de trabalho. É bem complicado mesmo”.

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