Educação

Pandemia gera incertezas no âmbito da educação infantil

Escolas particulares do Distrito Federal enfrentam cancelamento de matrículas, demissão de funcionários e adaptação ao ensino remoto

Instituições de ensino privado no Distrito Federal têm enfrentado desafios ao longo da pandemia, como exemplo: adaptação a ferramentas de ensino remoto; inadimplência dos contratantes; demissão, redução de salários ou suspensão de contratos com professores; negociações com pais ou responsáveis, além das incertezas acerca do retorno das aulas presenciais.

Segundo dados do Sindicato dos Professores em Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinproep), 70 instituições privadas do DF realizaram acordo de redução de jornada e suspensão dos contratos de trabalho. Dessa lista, 22 estabelecimentos firmaram a suspensão, 40 estabeleceram a redução, 7 optaram pelos dois mecanismos e, em um colégio, o quadro docente não aceitou a redução, enquanto apenas dois professores chegaram ao acordo de suspensão. O Sinproep disponibilizou, ainda, a quantidade de acordos individuais recebidos: 249 suspensões de contrato e 1.356 reduções de jornada já foram formalizadas junto ao Sindicato.

Na educação infantil, a realidade se agrava: “A situação para as escolas de educação infantil é absolutamente delicada, porque não existe o apelo que as escolas de ensino fundamental, médio e superior possuem, não é uma educação obrigatória, pelo menos não até os 4 anos. Então acaba sendo um dos primeiros cortes que as famílias fazem em caso de dificuldade financeira”, explica a diretora pedagógica da escola Céu de Brasília, Mariana Létti.

Conforme a diretora, há uma dificuldade em se implementar atividades remotas para crianças tão pequenas, até os 5 anos de idade. Por conta disto, à princípio, a escola havia decidido reformular o calendário letivo, de modo que todas as reposições de aulas ocorressem presencialmente, utilizando recessos e até as férias de janeiro. Porém, o método tornou-se inviável com a extensão da pandemia e, no dia 1º de junho, a escola iniciou o ensino remoto, mas não de maneira formal, e sim, inovadora.

Sala de aula vazia na escola Céu de Brasília

Sala de aula vazia na escola Céu de Brasília

Foram instaurados dois projetos: o de mentorias individualizadas com cada família, visando auxiliar nos desafios que os próprios pais estão vivenciando ao lado dos filhos durante o período de isolamento; e outro para as crianças, as chamadas trilhas pedagógicas, desde a turma dos bebês de 1 ano até os mais velhos, de 5. Nessas trilhas, são feitas curadorias de conteúdo abordando interesses como desfralde, pesadelos, medo de escuro, auxílio psicológico, leitura, desenhos animados educativos para cada faixa etária. “A experiência com esse novo formato tem sido muito interessante”, revela Mariana.

Além disso, sempre em comum acordo com a maioria dos pais e responsáveis, a escola preparou um protocolo de segurança de retorno às aulas e adotou uma postura diferenciada: “A gente montou uma comissão de famílias de pais e mães da escola que são profissionais da saúde, para que eles avaliassem e revisassem esse protocolo feito por nós, vissem o que funciona, o que é bom e o que não é, o que tem que ser modificado, o que tem que ser inserido ou retirado e, a partir da validação dessa comissão a gente vai estabelecer os protocolos de retorno”, completa a diretora pedagógica.

Opinião de pedagoga

Luísa Macedo trabalha em um colégio que conta com duas unidades, do berçário ao ensino fundamental 1: “A escola onde trabalho sofreu com as suspensões de matrículas, mas se organizou para entender a situação de cada família. Por ser educação infantil, muitos pais acham que não precisam da escola, tiveram receio de mantê-los e preferiram tirar para resguardá-los em casa”, afirma a professora da educação infantil sobre as mudanças enfrentadas.

Ela também conta como tem sido o processo de adaptação em meio à pandemia: “Estamos com atividades sendo enviadas aos pais desde o início da quarentena. São atividades que eles conseguem desenvolver usando materiais que possuem em casa. Além disso, cada professora, uma vez por semana, entra ao vivo com os alunos em uma live, para não perdermos o contato com eles e, principalmente, para os pequenos não esquecerem do nosso rosto e da nossa voz. Têm funcionado bastante e os pais estão adorando.”

Quando os responsáveis preferem cancelar a matrícula

Nem todos os pais sentem-se seguros em manter os filhos matriculados na educação infantil no período de isolamento social. Amanda Aniszewski decidiu cancelar a matrícula da filha, aluna do Infantil 4, no final de maio. Entre os motivos que a levaram à tal decisão, a mãe da menina de 4 anos explica: “Ficamos semanas sem um feedback da escola, depois começaram a mandar atividades diárias e, por fim, no começo do mês de maio começaram a ter as aulas online, segunda, quarta e sexta. E não funciona”. Segundo Amanda, a interação entre professora, pais e crianças não dá certo pelo aplicativo, pois todos querem falar ao mesmo tempo, causando desorganização.

Aula online é desafio também para os pequenos. Foto: Nadinailda / Agência Brasília

Aula online é desafio também para os pequenos. Foto: Nadinailda / Agência Brasília

Outro fator apontado por Amanda é a preocupação de mandar a filha para a escola caso as aulas voltem em agosto ou setembro deste ano. Isto porque, ela considera difícil evitar o contato físico e a troca de objetos entre as 18 crianças em uma sala de aula relativamente pequena e fechada. Além do mais, a mãe acha o uso correto de máscaras e álcool em gel uma questão complicada para os pequenos.

Finalmente, o financeiro também pesou: “Depois de dois meses pagando integral, a gente pagou março e abril, quando fomos pagar maio, procuramos a escola à respeito de desconto e eles falaram que poderiam dar somente 10% e, se eu concordasse com isso, com esses 10% de desconto, quando retornassem as aulas, eu teria que devolver esse valor diluído nas mensalidades restantes até dezembro. Então, dão agora para tirar depois?”, questiona Amanda, que está à espera do segundo filho e diz não concordar com as condições oferecidas pela escola.

Para tirar a filha do colégio que atende desde a educação infantil até o ensino médio, Amanda teve que pagar a multa rescisória prevista. Ela pretende rematricular a criança no ano que vem, pois está ciente da obrigatoriedade da matrícula escolar para crianças a partir dos 4 anos de idade.

Notice: Tema sem comments.php está obsoleto desde a versão 3.0 sem nenhuma alternativa disponível. Inclua um modelo comments.php em seu tema. in /var/www/publicacao/jornalismo/site-root/wp-includes/functions.php on line 2957

Deixe uma resposta

Educação
GabrielLino_03 Insight no ensino brasileiro
Meio Ambiente
Jardim montado na casa de Juscilene Lima Conheça a história de quem trabalha para salvar o meio ambiente
Comportamento
FOTO 1 PRODUÇÃO9 População brasileira desrespeita o isolamento social

Mais lidas