Saúde

Com procura crescente, tatuadores precisam se reinventar

Por conta da pandemia do novo coronavírus, infectologista aconselha que os procedimentos sejam postergados

O mercado de tatuagens já cresce 25% ao ano no Brasil, segundo o Sebrae. Já são mais de 150 mil estúdios em todo país. O Brasil ocupa 9º lugar no ranking de nações com mais pessoas tatuadas, 38% da população têm pelo menos uma tatuagem. De acordo com a revista americana de moda GQ, o período pós-coronavírus vai presenciar um boom ainda maior da procura pelo serviço. “Parece que todo mundo está planejando fazer uma tatuagem quando tudo isso acabar, porém, a realidade atual do setor, é de crise por conta do vírus”, afirmou a revista.

Em uma arte e um ofício que necessita de contato físico, como é a tatuagem, os profissionais da área no Brasil precisaram rapidamente se reinventar  para conseguir ter uma chance de sobreviver nesse novo modelo de mercado, durante a crise da covid-19. Alternativas criativas como a comercialização de outros produtos, como prints, máscaras e camisetas, além da venda de vouchers de desconto para trabalhos futuros, os tatuadores tentaram buscar novos clientes através das redes sociais nos últimos tempos.

Mas mesmo com todos os materiais de proteção, os riscos de infecção ao tatuar são grandes. O cliente se desloca até o local, desrespeitando o isolamento social, e o processo é todo feito com uma alta proximidade física entre o tatuado e o cliente, o que vai contra a recomendação de distância física mínima de 1 à 2 metros. O tatuador, por sua vez, entra em contato com fluidos corporais, além de, muitas vezes, sangue.

Especialistas em ferramentas de trabalho para tatuadores, FK Irons, deram dicas para os trabalhadores se manterem mais seguros durante a pandemia. “É preciso usar máscaras e luvas durante o tempo todo, também é bom lavar sempre as mãos ao tirar as luvas.”

Eles também falam para que os clientes sejam encorajados a usar álcool em gel dentro dos estúdios, adiar horários de clientes que estejam doentes ou se o tatuador estiver se sentindo mal. “Também é preciso limitar a quantidade de pessoas que estão dentro do estúdio ou da loja, limpar constantemente as ferramentas e o local de trabalho para evitar contaminação”, afirmou a empresa.

 Opinião do cliente

João Gabriel Calixto, estudante de publicidade de 22 anos, é cliente assíduo dos estúdios de tatuagem de Brasília. Ele tem, atualmente 42 tatuagens, e contando. “A minha relação pessoal com a tatuagem é que eu sempre a admirei desde pequeno. Estudar sobre a arte da tatuagem me abriu muitas portas como pessoa, a história da tatuagem tem muitas virtudes e ela é uma arte muito linda, eu sempre gostei”, conta o estudante.

Ele afirma que vai aos estúdios com uma boa frequência, cerca de uma vez a cada quatro meses. Durante a pandemia ele já esteve em duas sessões diferentes, em uma foi retocar o seu braço, que é praticamente fechado em blackwork (estilo neo-tribal onde o foco é a tinta preta), e uma nova tattoo na palma da mão.

Ele diz já ter percebido mudanças nos procedimentos de segurança e higiene nos estúdios. “Foi pedido para que desde que eu entrasse no estúdio, tirasse o tênis e lavasse a mão. Foi higienizado o local que ia ser tatuado, fiquei sempre de máscara e o tatuador esteve sempre com álcool em gel do lado”, explica o jovem.

Para ele, esses procedimentos já deviam ter ido implementados antes da pandemia. “Nós estamos atrasados em questão de biossegurança, tem tatuador que não leva isso a sério, como cliente eu espero entrar em um estúdio e saber que eu não vou contrair nada lá.”

João Gabriel não acredita que essa é a melhor hora para uma reabertura total dos estúdios. “Estamos passando pela segunda onda do vírus e os cidadãos não estão respeitando, não tinha quarentena, não tinha 60% das pessoas em casa.” Ele conta, porém, que notou outros meios pelos quais os artistas podem ganhar dinheiro com a tattoo.

João Gabriel Calixto, já possui 42 tatuagens e fez procedimentos durante a pandemia.

Visão dos profissionais

Daniel Parga é um artista da tatuagem e teve que se reinventar durante o período da pandemia do novo coronavírus. “Fiz vários projetos e vendi alguns, porém foi bastante difícil porque ainda está tudo incerto. Durante a quarentena eu não tatuei clientes, somente minha esposa que ficou isolada comigo.”

As redes sociais têm ajudado bastante os profissionais como Daniel Parga. Ele conta que o estúdio em que trabalha é fora do convencional. “Sempre gostei de trabalhar sozinho e de portas fechadas, então redes sociais sempre foram aliadas ao meu trabalho, tanto na divulgação quanto no contato com o cliente”, explica o tatuador.

“Acredito que seja imprescindível um curso de biossegurança e controle de infecção, desta forma aprendemos sobre doenças, transmissões, barreiras, EPIs e formas de conter infecções. Durante a quarentena fiz um curso pela Fiocruz sobre covid-19 e controle de infecção, para poder me atualizar e tentar entender mais sobre o vírus”, conta Daniel.

Ele acredita que a forma que trabalha, em estúdio privativo, um tatuador e um cliente se tornarão uma nova norma para evitar aglomeração e diminuir o risco de infecção e contaminação cruzada no ambiente.

“Em meio à situação atual teremos que nos adaptar para poder seguir em frente. Como também sou tatuador, entendo a dificuldade que nós, da área da arte, estamos passando e precisamos reinventar os estúdios e atendimentos”, finaliza o artista.

Confira o trabalho do tatuador Daniel Parga:

David Manji, tatuador há cinco anos, tem a profissão como ganha pão. “A tattoo é o amor da minha vida.” David esteve completamente isolado do contato social por cerca de dois meses. “Eu permaneci ativo, tanto estudando diariamente, quanto desenvolvendo projetos de ilustração e pintura sob encomenda”, conta.

“O que possibilitou  que nesse período eu continuasse tendo uma fonte de renda e eu me mantivesse  saudável mentalmente e criativo”, explica Manji que montou um pequeno ateliê em casa. “Confesso que tem sido muito prazeroso desenvolver projetos artísticos nele.”

Para ele, questões relacionadas à saúde e assepsia devem estar arraigadas na mente do profissional sério e devem ser um pilar do exercício do ofício comercialmente. David acredita que em um “mundo ideal” todos deveriam estar em isolamento total, pelo menos até a curva de contaminação achatar seguramente. “Mas falando pragmaticamente não temos uma política pública funcional de segurança financeira para a população”, afirma o profissional.

“Aluguel, água, luz, escola dos filhos continuam a ser cobrados e continuamos precisando nos alimentar e viver com o mínimo de dignidade”, expõe. Ele está certo de que não é o melhor momento para abrir as portas. “Mas não vou julgar o trabalhador médio que precisa trabalhar para sobreviver”, diz Manji.

“Julgo um governo que não se importa com nossas vidas nem mortes por que ‘não é coveiro’. Talvez reabrir um estúdio privado duas vezes por semana e clientela limitada seja um problema menor”, finaliza o tatuador.

Conselhos de especialista

A infectologista do Hospital Águas Claras, Ana Helena Germóglio, afirma que por mais que o estúdio de tatuagem siga a risca todas as recomendações dos órgãos de saúde pública, o cliente precisará se deslocar  de casa ao estúdio, aumentando a circulação de pessoas na cidade e ajudando a espalhar o vírus.

“Em tempos de pandemia,não podemos esquecer que as tatuagens requerem uma série de cuidados. Elas podem levar a reações alérgicas, formação de cicatrizes (queloides), além de serem possíveis fontes de doenças transmitidas pelo sangue caso se utilize material contaminado (hepatites B e C, HIV)”, explica a doutora. Ela afirma que todo o material que penetre a pele do usuário e entre em contato com sangue deve ser descartável ou deverá passar por processo de esterilização

Sobre novas medidas a serem adotadas pelos profissionais e pelos donos de estúdios, a infectologista afirma que além da nova consciência de distanciamento social, é esperada uma maior higiene de mãos e etiqueta respiratória, que são amplamente divulgadas para combate ao coronavírus.

“Espera-se que o público usuário de estúdios de tatuagem e piercing tenha mais rigor quando da seleção do local onde serão realizados esses procedimentos”, aponta a especialista. Germóglio entende que, neste momento, o adiamento de qualquer procedimento estético, tatuagem, piercing é colocado fora do enquadramento de atividades necessárias que pedem exposição ao ambiente externo.

“Sempre que saímos de casa, para realizar qualquer atividade, aumentamos nosso risco de exposição. Portanto, a recomendação é postergar esses procedimentos”, finaliza a infectologista.

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