Educação

“A gente está vivendo uma grande revolução na gestão educacional”

Especialista fala sobre a experiência educacional vivida pelos brasileiros com a suspensão das atividades presenciais durante a pandemia

A suspensão do calendário de atividades presenciais nas redes pública e privada do ensino básico ao superior, causada pela pandemia do novo coronavírus, trouxe incertezas sobre o destino dos estudantes. Algumas instituições particulares tiveram suporte para manter as aulas de maneira remota, com o auxílio de ferramentas de TI específicas para a necessidade de cada instituição e de cada um dos alunos. Desse modo, os estudantes não ficam tão prejudicados e seguem realizando as atividades em casa. Mas não sabemos até que ponto esse aprendizado está sendo qualitativo.

Já as escolas do governo seguem com uma dificuldade maior em relação a esse tipo de suporte. Recentemente o Ministério da Ciência e Tecnologia anunciou a volta às aulas para esses estudantes e a disponibilização de alguns canais abertos para a transmissão de conteúdo escolar. Já a Universidade de Brasília está levantando uma pesquisa para mapear a situação de cada integrante da comunidade acadêmica para um possível retorno às aulas.

A coordenadora do Núcleo de Inovações Pedagógicas do IESB, Michelle Jordão, esclarece algumas dúvidas quanto ao destino desse ano letivo e fala sobre a importância dos meios de comunicação e das tecnologias nesse processo de reestruturação ao ensino remoto.

Foto: Ana Correa Souza

Durante esses anos, você já vivenciou algo parecido com essa pandemia que estamos vivendo? Houve transformações na forma de ensino e aprendizado tão radicais como essas?

Eu tenho Doutorado em Educação, na docência da educação superior. Eu estou há 18 anos na área e nunca vivenciei nada parecido com esse momento. Sempre fui da área das tecnologias, meu doutorado é em relação ao ambiente virtual de aprendizagem, mas nunca vivi algo em que a mediação é apenas pelas tecnologias.

Qual sua visão a respeito do que está acontecendo e a importância da tecnologia nesse processo de adaptação?

A gente está vivendo uma grande revolução na gestão educacional, da educação básica à educação superior na dimensão da docência, pois antes nós tínhamos um convite para o uso da tecnologia e agora não é mais um convite e sim um único meio de comunicação que temos hoje. A gente teve que aprender de uma certa forma a lidar com isso, porque não dava só para transpor do presencial para o virtual o nosso planejamento porque a gente tem muitos desafios na plataforma. E o papel do docente no ambiente virtual de aprendizagem mediatizado pela tecnologia é um papel de mediador que não tem o protagonismo de uma aula expositiva. São muitos desafios para criar estratégias novas que os professores não conheciam e os estudantes também não, todos tivemos que nos adaptar. São parâmetros que todo mundo teve que aprender num curto espaço de tempo.

Do ponto de vista pedagógico, esses estudantes vão sofrer algum déficit de ensino?

Dizer que esse momento a gente não tem aprendizagem e vamos ter um ano perdido, porque tem pessoas dizendo isso, não acho que seja verdade. Não vamos ter um ano perdido pois já aprendemos muitas coisas. O sócio emocional e a forma de se relacionar é fundamental também. Não só a dimensão cognitiva. Obviamente, temos que criar instrumentos e nem todos os objetivos iniciais poderão ser atingidos na dimensão cognitiva. Nós estamos aprendendo muito. Toda essa situação de isolamento social tem gerado um excesso de pressão no ambiente escolar, seja de educação básica ao ensino superior. Não produzimos conhecimento com excesso de pressão, na verdade produzimos déficit de atenção, esse excesso traz a dispersão e este deve ser o ônus para o aprendizado.

O que os professores têm feito para driblar todas as dificuldades do ensino a distância? Sejam elas de acesso, de didática etc.

Estamos falando de algo que é diferente nesse momento. É diferente porque a educação a distância tem um sistema mais padronizado por ter um número maior de estudantes numa mesma turma, o mesmo material, o planejamento e a sequência das atividades estabelecidas para todos. E na atividade remota nós temos um diferencial, porque fazemos de acordo com as especificidades dos alunos, dos estudantes, dos professores. Então, o professor não pega algo pronto, ele vai adaptar as estratégias de ensino de acordo com cada caso levando em consideração tudo aquilo que foi traçado e que foram desenvolvidas este ano, como no caso da educação infantil e fundamental a partir da Base Nacional Comum Curricular.

Vi relatos de pais e mães que têm dificuldades em ajudar com as atividades. O que eles podem fazer para ajudar? E pensando pelo lado do incentivo, da motivação, é importante o grupo familiar estar presente nesse momento?

A escola não pode se eximir da orientação às famílias e não podemos passar essa responsabilidade para as famílias. Os responsáveis vão ter que criar uma experiência compartilhada, inclusive de intercessão com a escola. A presença do grupo familiar é essencial.

Professora, como medir o aprendizado desses estudantes nesse novo formato de ensino temporário? É possível ter essa ideia?

Agora já estamos em outra fase, que é a avaliação de tudo aquilo que a gente fazia. Tanto que fizemos, inicialmente, tanto por intermédio das estratégias que foram criadas para serem abarcadas no ambiente virtual quanto dos estudantes para estudar. O que fomos percebendo é que ter uma rotina de estudos, ter uma disciplina é fundamental.

De toda essa experiência, o que pode permanecer quando toda a situação da Covid-19 se normalizar ou no caso de um possível retorno?

Devemos cuidar de todos os procedimentos para evitarmos aglomeração, fazer isso de uma forma escalonada para que as pessoas se sintam preparadas. Cada escola e Universidade precisará fazer seu plano de retorno, do que é essencial, os horários de entrada e saída, os intervalos. Isso tudo porque as crianças vão querer voltar e se abraçar como se fosse o mesmo processo que elas haviam deixado, mas não vai ser da mesma forma. Isso precisa ser feito de modo cauteloso, com todas as medidas de proteção. isso tudo faz parte do nosso desafio como gestores, também, vamos ter que mapear isso com a ajuda de todos.

 

Foto: Lara de Oliveira

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