Cultura

Vai passar… mas quando?

Uma tentativa de achar uma resposta nos versos de Chico Buarque

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#pandemia chico buarque crônicas

Como diria Marisa Monte: “não é fácil”. Duvido muito que a compositora carioca já previa a pandemia do coronavírus; a continuação “não gostar de você” é que a entrega, pois odiar a covid-19 e suas consequências é bem fácil, na verdade. Se tem uma música que é mais cabida ao momento, esta seria “Vai passar”, composição de Chico Buarque de Holanda, lançada em 1980.

O que a gente espera que passe começou, para este estudante brasiliense que vos escreve, no dia 11 de março e até agora nada… Nada seria demais, muita coisa já passou, entre elas: 2 ministros da Saúde, 1 ministro da Justiça, 1 ministro da Educação, 1 secretária especial da Cultura, 2 secretários da Saúde do estado do Rio de Janeiro, laranjas atravessaram “cada paralelepípedo da velha cidade” de Atibaia e invadiram um escritório de advocacia. Mas a pandemia, tá aí firme e forte.

Photo by Monique Carrati on UnsplashTer começado logo após o maior – e melhor – feriado nacional, reforça o argumento de que a música de Chico é a que melhor descreve o momento. “Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais”, cantou o exímio compositor de profundos versos e olhos azuis. E quantos de nossos ancestrais não morreram por causa de nossos pés dançantes e ajudaram a disseminar o vírus? Este autor, inclusive, estava no epicentro inicial da covid-19, dividindo seu glíter entre a Faria Lima e Avenida Paulista como em qualquer um dos últimos 26 carnavais que ocorreram durante a minha vida.

Mas o próprio Chico traz o antídoto: “vai passar”. Mas enquanto não passa, Chico, o que eu faço enquanto batemos recordes e recordes negativos de casos por dia, mortes por dia, taxa de contaminação, superlotação de hospitais em diversas cidades, covas rasas abertas nos cemitérios? O que faço enquanto eu estou em casa recluso, com esporádicas idas ao mercado, para ver pessoas fazendo festas com aglomerações, ao passo que médicos da linha de frente são agredidos por “cidadãos do bem”? Enquanto empresários e líderes políticos, aproveitando que “a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída, em tenebrosas transações”, minimizam um vírus que matou mais em 3 meses do que qualquer outro evento na história tupiniquim? Ou pior, quando assisto de coração na mão as notícias na televisão, para então me deparar com mais “cidadãos de bem” clamando por pautas antidemocráticas, fechamento do Supremo e intervenção militar, o que faço?

Sei que você, Chico, vai até concordar comigo e dizer que estamos “num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações”. Mas não seriam os momentos de paz, tranquilidade e harmonia proporcionais ao período carnavalesco se toda nossa história fosse reduzida a um único ano? Afinal, esses “filhos, erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais”? E então, somente de sexta à quarta de cinzas, deixamos as pedras de lado e vestimos a fantasia de, como chamava seu pai, o homem cordial?

Enfim, 105 dias após aquele 11 de março e ainda estamos aqui. Frustrado por não sair da quarentena e ainda mais com quem o faz. Mas você tá certo, Chico, afinal já havia cantado, literalmente, a pedra de que teríamos, um dia, afinal, direito, e talvez o último: “a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia, que se chama o carnaval”.

No fim, só restam as cinzas. Foto Vinícius de Melo/Agência Brasília

No fim, só restam as cinzas. Foto Vinícius de Melo/Agência Brasília

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