Educação

Insight no ensino brasileiro

Tecnologia, metodologia e gestão: ferramentas utilizadas corretamente podem virar alicerce à educação brasileira

É difícil imaginar um serviço de prestação que consiga permanecer firme sem utilizar a internet como utensílio. Tente imaginar qualquer organização perdurar sem atrair usuários devido a alguma falha em rede. Cada vez mais o consumo vai mudando do que está exposto em vitrines para o mercado virtual.

Pense agora na educação do país. Como o acesso à inclusão digital consegue impactar a vida dos quase 50 milhões de estudantes do ensino público e privado? Qual é o desafio do profissional da educação atualmente?

Os professores Leonardo e Rafael Rocha perceberam, na experiência dos ensinos fundamental e médio, que os docentes têm dificuldade em alinhar aprendizagem, metodologia e tecnologia. Dentre os principais motivos estavam a dificuldade de acesso e o receio da utilização das ferramentas na educação.

Leonardo Rocha

Leonardo Rocha, professor do Centro Universitário Unicatólica em Quixadá, Ceará (arquivo pessoal)

Quando os irmãos ingressaram no ensino superior vivenciaram os mesmos problemas e decidiram criar alternativas para aproximar o educador da tecnologia. “Em razão da necessidade que o aluno precisa interagir mais no processo de ensino e aprendizagem, conseguimos vislumbrar que a tecnologia é de suma importância para conciliar o professor construir o conhecimento”, conta Leonardo Rocha, mestre em educação e informática.

Juntos, criaram a TiEDUCA, rede social que faz curadoria de metodologias voltadas para a educação por meio da tecnologia. O projeto acontece em três mídias sociais, Facebook, Instagram e YouTube, e visa sanar a demanda e respectivas dúvidas.

Leonardo recorda a boa experiência que foi introduzir a robótica na sala de aula. “Eu já conhecia a robótica industrial e passei aplicar com a educacional, isso trouxe o aluno totalmente a meu favor, passei a ter realmente prazer de estar em sala de aula”, conta.

Rafael Rocha

Rafael Rocha se oficializou como professor em 2011, após sua primeira graduação, onde começou adquirir experiência em educação (arquivo pessoal)

Ele ainda cita que em outra ocasião a secretaria da escola tinha dificuldade em acionar o sinal dos turnos das aulas corretamente e a solução veio por meio da construção de um robô pelos alunos do 3º ano do ensino médio. O projeto contou com apoio da diretoria do colégio, em Quixadá (CE), e resultou na automação para disparar o sinal nos horários previstos.

Rafael, mestre em informática aplicada e especialista em gestão educacional, entende que a inclusão digital já é uma realidade, apesar da resistência de muitos professores em utilizar novos recursos. “Os professores muitas vezes ficam esperando pelo gestor, e o gestor espera o professor se capacitar. No fim das contas, não acontece”, considera.

Pense no problema

A internet é essencial para propiciar soluções educacionais. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o meio mais usado para acessar a rede é o celular, utilizado por 99,2% dos internautas. O aparelho já é possuído por 79,3% das pessoas com 10 anos de idade ou mais. É preciso, então, conectar esses usuários.

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Estes são os dados de matrículas realizadas em 2019, número de escolas atuantes. Cerca de 0,5 milhões de matrículas não foram efetuados no ensino regular (Fonte: Censo 2019)

Pensando nisso, a MCONF, startup que nasceu em 2011 como projeto de pesquisa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, classificou como caras e pouco acessíveis as soluções disponíveis para videoconferência. Após projetos em parceria com a Rede Nacional de Pesquisa, surgiu a Elos, plataforma com soluções para conferências, como enquetes, quadro branco para anotações, relatórios de uso mensais, integração com outras plataformas e chats público e privado.

Laura

Laura Spina, UX Researcher da Elos, explica a importância da criação de ferramentas intuitivas (arquivo pessoal)

Laura Spina, pesquisadora da Elos, explica que o campo educacional é o principal utilizador. “A maior parte do público é educação, não só do ensino da faculdade. Uma grande parte da faculdade utiliza a integração; também utilizam professores de línguas ou yoga, não necessariamente da educação formal”, conta.

Laura avalia que é preciso pesquisar o uso da tecnologia na educação, e não basta “a tecnologia por tecnologia”. Para ela, a ferramenta precisa ser intuitiva. Uma vez que professores e gestores vivenciam responsabilidades, precisam resolver também problemas técnicos quando operam os produtos. “Dificuldade na utilização, não é bonito”, resume.

Na Secretaria de Educação do DF, a educadora Simone Côrtes reconhece a necessidade de agregar tecnologia e metodologias ativas, mas admite que os caminhos ainda não estão claros. “Precisamos, como secretaria de ensino, investir em informação que suporte essas temáticas, então, sabemos que isso é importante para educação do século XXI. Já é um senso comum, entretanto, ainda não é nítido como isso acontece nas escolas”.

A utilização da tecnologia na educação ganhou força em 2020, com a pandemia de coronavírus e o consequente isolamento social, que fechou escolas e universidades em todos o país. No setor privado, houve corre-corre para adoção de ferramentas que permitam o ensino remoto, enquanto na rede pública a adesão foi menor. Muitas cidades, estados e universidade optaram por suspender o calendário acadêmico.

Para os criadores de softwares é importante estar por perto das pessoas observando como utilizam, e através dessa experiência, entender como o usuário precisa do recurso — fugindo do risco de criar um produto que não alcance a comunidade. “Não vejo as pessoas vivenciando problemas com a tecnologia, o problema é que às vezes está muito distante do que conseguem lidar (ou podem lidar); acho que aí tem a ruptura”, diz Laura.

É importante também que as escolas estimulem o papel de suporte auxiliando educadores, mas o que acontece em muitas ocasiões: resta para o profissional ter domínio e escolher qual recurso adotar. “Procuramos fornecer soluções para aqueles que necessitam de recursos sem obrigatoriamente usar internet. É claro que tem algumas ferramentas que vão precisar, mas tentamos sanar as dores dos professores”, acrescenta Rafael.

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Dados de 2019 mostram a disponibilidade de itens tecnológicos: lousa digital, computadores, tablets, internet; os dispositivos de tecnologia, estão menos presentes no ensino fundamental do que nas escolas que oferecem o ensino médio (Fonte: Censo 2019)

Ensino não acontece sem testes — principal mecanismo de avaliação desses profissionais. Por isso, é necessário que os educadores testem suas métricas antes mesmo de utilizá-las, para tentar bons resultados. “Só mencionar o produto dificilmente o professor consegue entender. Utilizamos três exemplos de como aplicar a metodologia em cada ferramenta. Precisa ocorrer a percepção, se não acontecer a tecnologia não vai sanar e, então, não resulta a integração”, explica Leonardo.

O professor Rafael defende o uso do celular em sala, já que os estudantes de agora são nativos digitais. “Muita vezes, eu tenho que propiciar um mecanismo para estimular a participação dos alunos, então por que eu não utilizo o que eles gostariam para poder ampliar o processo de aprendizagem?”, questiona.

Antes, porém, é preciso qualificar os docentes para o uso da tecnologia. É o que sentencia Leonardo Rocha: “O primeiro passo é a formação dos professores, vivenciamos isso há 10 anos. Acredito que todas as profissões, sem exceções, a partir do avanço da tecnologia passou por reformulação, a única que está se arrastando, infelizmente, são os professores (a educação em geral). É tornar a educação disruptiva”.

A metodologia a distância

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Bem usada, a tecnologia pode ser uma importante aliada para a educação (Annie Spratt / Unsplash)

O recurso digital tem sido alicerce para os colégios da rede Marista, no Distrito Federal, em tempos de isolamento social por conta da Covid-19. O uso da tecnologia já era rotineiro na escola.

Ao longo dos últimos anos, os professores e equipes do núcleo pedagógico receberam diversas certificações em metodologias e recursos digitais. Com o fechamento temporário, a escola ofereceu alternativas como videoaulas, chats, lista de exercícios, indicação de sites e vídeos.

Alexandra

Alexandra Pereira, estudante da UniCEUB, adorou a experiência do estudo remoto na pandemia: foi importante a disciplina dos horários em tempos de isolamento social (arquivo pessoal)

“Todos estamos acostumados com o ensino presencial. Porém, estamos vivendo uma grande oportunidade de trabalhar com uma geração que domina as tecnologias ligadas à internet, e já desenvolveu para muitas áreas a capacidade de aprender por meio de tutoriais ou dicas feitas remotamente”, conta o porta-voz do Marista, Rony Ahlfeldt.

Rafaela Mendes

Rafaela Mendes, estudante da UnB, pensa que se as universidades adotassem características únicas e design atrativo, seriam mais utilizadas (arquivo pessoal)

A estudante da biologia na Universidade de Brasília Rafaela Mendes explica que alguns professores tentam usar meios remotos de ensino, mas com limitação. “Percebo também que a plataforma não é estimulante, não é atrativo. Deveria ter uma plataforma com mais interatividade. Se cada entidade possuísse a própria ferramenta, e com características da universidade, seria uma vantagem”, avalia. Oficialmente, a UnB suspendeu o semestre durante a pandemia.

Alexandra Pereira, estudante de jornalismo do UniCEUB, gostou da solução adotada pela faculdade. “Não está sendo algo monótono, flui naturalmente. É como se estivéssemos mesmo em uma sala. Claro que a experiência não é a mesma ou completa”, conclui.

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