Cidades

Projeto voluntário constrói escola para crianças em situação de rua no DF

Por causa da pandemia, crianças e adolescentes que vivem em ocupações pararam de frequentar a escola. Sem acesso a internet e aparelhos tecnológicos para participar de aulas a distância, receberam ajuda da ONG “Bsb Invisível”

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Quando foi publicado o decreto que suspendeu as aulas presenciais no Distrito Federal, por causa da pandemia de coronavírus, Raíssa não imaginou que passaria tanto tempo sem ir à escola. Porém, aos 10 anos de idade, no 6º ano do ensino fundamental, a garota está há 127 dias sem ter aulas com a professora de que tanto gostava. Raíssa estuda em uma escola pública na Vila Planalto, mas sua realidade não é a mesma que a de seus colegas. Isso porque ela vive em uma ocupação na L4 Sul, com pelo menos 90 pessoas. Destas, mais de 30 são crianças ou adolescentes. O grupo não tem acesso a água potável, lazer, tecnologias, e muito menos à internet.

Sem uma moradia fixa, e sob risco de ter a estrutura em que vive derrubada pela Secretaria de Proteção da Ordem Urbanística (DF Legal) – como aconteceu no início de junho, quando pelo menos 20 barracos foram destruídos no local –, Raíssa sente falta dos colegas de turma, da professora, e principalmente, do “recreio”. A escola em que a garota estuda está dando aulas na modalidade a distância há mais de um mês, mas sem ter acesso a tecnologias e internet, não é possível acompanhar os conteúdos regularmente.

A mãe de Raíssa, Ivânia Silva, catadora de recicláveis que tem outros dois filhos, até tentou ajudar as crianças a estudarem sozinhas, mas não foi suficiente para motivá-los a recuperar o atraso escolar dos últimos 127 dias. “Eles têm muita dificuldade para aprender, mesmo quando as aulas estavam acontecendo presencialmente, tanto que alguns aqui nem sabem traduzir um texto. É o caso do meu outro filho, que está no 9º ano”, conta Ivânia.

Mas a situação melhorou para a comunidade quando, no início de julho, a ONG “Bsb Invisível”, que faz trabalho voluntário com populações em situação de rua no DF, deu início ao projeto “Escola do Cerrado”. Com o objetivo de construir um espaço para auxiliar essas crianças na jornada acadêmica, o projeto reune professores voluntários de diferentes idades e formações.

O primeiro processo seletivo para a escolha de professores aconteceu no início de setembro, mas quatro voluntários da ONG já estão dando aulas há algumas semanas, seguindo as medidas de proteção recomendadas pelo Ministério da Saúde contra a Covid-19. Segundo a coordenadora do projeto e membro da Bsb Invisível, Rafaella Sereno, o único pré-requisito para participar da iniciativa é ter conhecimentos básicos do ensino fundamental I e II, e claro, “muita disposição”.

“O projeto surgiu de uma situação de emergência”, conta Rafaella. “Os voluntários ajudam principalmente na questão de dar aula. Mas também tem voluntários que querem muito ajudar mas que, como não podem estar aqui dando aula, vamos entregar deveres de casa e exercícios dos alunos para eles corrigirem de casa”.

Os voluntários também podem auxiliar na organização do projeto. “Recebemos muitas doações de livros didáticos, então vamos organizar e montar uma espécie de biblioteca aqui”, explica a jovem, de 21 anos, que também é professora de inglês.

Quase todos os dias, Rafaella busca exercícios e apostilas na escola das crianças que vivem na ocupação, e se junta ao grupo de voluntários para ajudá-los nos deveres de casa. Ela afirma que as crianças que já tiveram as aulas voluntárias têm se adaptado muito bem ao projeto.

“As crianças estão super empolgadas. Quando eu coloquei os materiais na sala de aula que construímos, não tinha piso, não tinha nada. Então, eu cheguei aqui um dia e as crianças falaram que tinham uma surpresa pra mim. Entrei lá e tinham colocado uma lona no chão para diminuir a poeira, tinham colocado um quadro na parede, balões, e até flores”, conta a jovem. “Também é uma boa distração para eles”, acrescenta.

Sala de aula do projeto "Escola do Cerrado" foi decorada pelos estudantes da ocupação na L4 Sul | Foto: Rafaella Sereno/Bsb Invisível

Sala de aula do projeto “Escola do Cerrado” foi decorada pelos estudantes da ocupação na L4 Sul | Foto: Rafaella Sereno/Bsb Invisível

Segundo a voluntária, o objetivo é continuar com o projeto mesmo após a pandemia, como uma forma de “reforço escolar” para revisar conhecimentos básicos. “Também queremos fazer algumas oficinas de arte no futuro, para contar histórias, até rodas de conversa com os adultos, algo assim”, diz.

No momento, a “Escola do Cerrado” alcança apenas a ocupação na L4 Sul, mas a ONG considera expandir a iniciativa para outras comunidades do DF. “Mas só depois que tivermos um banco maior de professores, pensar em uma forma de organizar isso. Mas o mais importante é fazermos um ensino de qualidade, mesmo que seja para poucas pessoas e que a gente consiga manter uma frequência com elas. É melhor do que fazer em cada lugar de 15 em 15 dias, porque passou 15 dias e a criança já não lembra de mais nada”, explica Rafaella.

Evolução

A mãe de Raíssa, que está tendo aulas voluntárias de matemática, português, história e inglês, conta que, desde que o projeto começou, percebeu uma evolução nos conhecimentos e na qualidade do aprendizado da filha. Segundo Ivânia, sempre que os professores chegam na ocupação, é como uma “festa” para as crianças. “E para as mães também, porque a gente vê os filhos nesse lugar sem acesso a nada, e esses professores vêm de lá pra cá. Para mim já é um afeto muito grande que eles têm por essas crianças, só de vir aqui pra dentro”, afirma.

“As crianças ficam muito empolgadas, porque também fizeram muita amizade com os professores. Eles gostam de estudar agora, tem muito interesse, mas antes não tinham não, antes eles não estavam nem querendo ir para a escola. Eu espero que possam continuar o projeto depois da pandemia”, acrescenta Ivânia.

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