Beirute, o bar das memórias afetivas
“O Beirute era como uma grande rede social da época”, diz o artista Rogério Quintão
Postado em 24/03/2025
Tradição, cultura, gastronomia, alegria, encontro e diversidade. Essas são algumas das palavras ditas por clientes para definir o que o bar e restaurante Beirute da 109 sul representa. Apelidado carinhosamente de “Beiras” ou “Beira” por frequentadores, ele foi inaugurado em 1966 na capital federal e, em abril, a casa original comemora 59 anos. Reunindo pessoas dos mais diferentes perfis, o bar continua atravessando gerações e acumulando boas histórias.

O Beirute serviu de cenário para a construção de memórias afetivas, como as da professora Jane Rúbia Machado, 63 anos. “Passei minha adolescência sendo frequentadora assídua do bar. Ia sempre com a turma do teatro; quando acabava o ensaio da peça a gente ia farrear, jantar e era aquela coisa, sempre tinha muito artista”.
Natural de Anápolis, Jane diz que ao morar em Brasília começou a sentir muita falta da avó e da comida árabe que ela fazia. “o Beirute foi o primeiro restaurante de culinária árabe que conheci e foi nele que pude matar um pouco a saudade de casa”. Ela diz que tem belas memórias afetivas associadas à cozinha e ao ambiente do bar.
A jornalista Gabriela Gallo, 25 anos, também tem boas recordações do Beirute, mesmo sendo de outra geração. Ela afirma que frequenta o local desde criança e se recorda claramente de brincar no parquinho. “Me lembro de quando meus pais me levavam ao Beirute, sempre gostei do bar, por isso tenho uma relação especial com ele até hoje”. Para ela, o Beirute representa tradição brasiliense. “Um lugar de alegria e confraternização”, diz.
Já para o artista Rogério Quintão, 59 anos, o Beira é mais que um bar e restaurante, é um lugar de encontro. “O Beirute era como uma grande rede social da época. As mesas eram os chats, onde a galera interagia e trocava ideias”, brinca.


O brasiliense, que trabalha com artes digitais, compara o ambiente do bar ao ambiente virtual, combinando gírias antigas com termos da internet usados hoje em dia. “Desde o início, o Beirute conecta as pessoas, proporcionando momentos de descobertas, diálogos e experiências”, conta.
E apresar do clima de nostalgia, o bar não parou no tempo. Com a criação de uma unidade na 107 norte e a realização de diversos projetos culturais, conquista mais clientes e permite a construção de novas memórias.
Comida, diversão e arte
Um dos proprietários do bar e restaurante Beirute, Francisco Emílio, afirma que gerencia o bar há mais de 30 anos e representa a nova geração. Ele explica o porquê do bar ser conhecido não só pela sua comida, mas também por ser um espaço que promove arte e cultura na cidade.
“O Beirute já teve vários projetos culturais”, diz Francisco. Um deles é o Beira Cultural. “Visto o envolvimento de vários tipos de artistas com o bar, achamos que seria interessante não só o Beirute ser um ponto de cultura, mas também um espaço fomentador dela”, afirma.
A programação começou com o Beira Literário, com lançamentode livros. Com o sucesso do projeto surgiu a necessidade de fazer outros movimentos. “Pensamos que DJs tocando um som mais ambiente iria compor a identidade do bar e foi o que aconteceu”, diz o proprietário.
Também existem as feirinhas, chamadas de “feirute”. Elas propiciam aos artesãos um momento para desenvolver algum projeto pessoal. “Percebemos que essas ações, que se tornaram fundamentais para propagar a cultura, já faziam parte do “DNA” do bar”, conclui.
Sempre se renovando
Dia 16 de abril o Beira da asa sul completa 59 anos de existência. E eles estão se preparando para a comemoração. “Traremos de volta alguns pratos que saíram do cardápio devido à pandemia”. Uma programação cultural dedicada a homenagear o bar também está prevista.
O Beirute foi palco de momentos marcantes. Um deles, conta Francisco, foi a celebração dos 40 anos do bar. “Fechamos a rua e a banda Liga Tripa conduziu a festa. Pessoas de várias gerações estavam presentes. “Realmente esse evento foi especial para mim”, recorda. Ele conta que eram pessoas de várias partes de Brasília cantando e dançando ao som da famosa banda dos anos 80. “Esse dia foi inesquecível”, diz.
Para finalizar, Francisco afirma que o Beirute tem uma clientela muito fiel. “Existe realmente uma ‘família beirutiana’ que faz parte da nossa história. “É interessante ver ela sendo passada de pai para filho, de mãe para filha e por aí vai. As pessoas se recordam de frequentar o Beirute em fases diferentes da vida”, comenta.
Mas chama atenção para um ponto. “Temos que nos atualizar sempre, trazer novidades, conversar com o público que está chegando agora e não deixar que o bar fique ultrapassado”. Francisco diz que os gestores do bar buscam mesclar uma parte da tradição com novas tendências. “Por isso costumamos dizer que o Beirute é a tradição que se renova”, relata.