O silêncio nas redes: quando a vergonha impede os jovens de se expressarem online

Razões para não postar incluem medo de rejeição à sensação de que a vida dos outros é sempre mais interessante

Vitória de Souza Lucena

Postado em 03/04/2025

As redes sociais tornaram-se parte integrante da vida dos jovens, são plataformas de conexão, expressão e entretenimento. No entanto, para muitos, essas plataformas também são fontes de pressão e insegurança. O medo de se expor, a ansiedade em relação ao julgamento alheio e a constante comparação com padrões idealizados têm afetado significativamente a saúde mental dos jovens e adolescentes.

A psicóloga Bárbara Alcântara Peixoto explica que as redes sociais ativam um ciclo de recompensa no cérebro, liberando dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. Essa gratificação instantânea pode reforçar a busca por curtidas e aprovações, levando alguns jovens a evitar postagens por medo de não receber a aceitação esperada.

As redes sociais criam um ambiente de comparação constante. Muitas vezes, os jovens sentem que a vida dos outros é mais interessante que a deles, o que pode gerar insegurança e desmotivação para se expor“, afirma a especialista.

Pessoa utilizando as redes sociais/ Imagem: Vitória Lucena

Essa realidade é confirmada pelos relatos de adolescentes que vivenciam essa pressão diariamente. Arlane Cruz Carvalho, 16 anos, compartilha como a insegurança influencia seu comportamento online. “Eu penso muito antes de postar as coisas, porque tenho medo das pessoas me criticarem, me julgarem e de não me encaixar no padrão das redes sociais. Às vezes, fico dias refletindo antes de decidir se vou postar algo ou não.”

A jovem Gabriela de Jesus Silva Santos, de 20 anos também relata essa dificuldade. “Sempre que penso em postar algo, fico com medo dos comentários que podem surgir. A internet nem sempre é um ambiente amigável. Às vezes, fico olhando uma imagem várias vezes antes de decidir se vou postar, e na maioria das vezes acabo desistindo“, relata.

A necessidade de se encaixar em um padrão imposto pelas redes sociais faz com que muitos jovens se sintam inadequados. Arlane comenta que já sentiu pressão para atender a um ideal inatingível. “Eu já tive a sensação de que precisava ser perfeita, bonita e magra para me encaixar no padrão que as redes sociais impõem. Isso me fez deixar de postar várias coisas por medo de críticas.

Essa percepção também é reforçada pela Gabriela, que destaca como as redes sociais contribuem para essa comparação constante. “A internet impõe um certo padrão, e a gente fica com medo de não estar à altura. Parece que tudo precisa estar perfeito antes de postar, e isso gera desconforto e até faz desistir de compartilhar qualquer coisa.”

A psicóloga explica que essa busca por perfeição está diretamente ligada à comparação social e ao medo do julgamento. “As redes sociais funcionam como vitrines, onde as pessoas mostram apenas o que querem destacar. Quem se compara com essas versões editadas da realidade pode sentir que sua vida é menos interessante, o que pode minar a autoestima e aumentar a insegurança.”

Atualmente, plataformas como WhatsApp, TikTok, Instagram e YouTube estão entre as mais populares entre os jovens e pré-adolescentes.

De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 88% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos possuem perfil em redes sociais. O estudo também revelou que o uso frequente dessas plataformas é uma realidade para a maioria dos jovens, sendo que 70% acessam redes sociais todos os dias. Entre os aplicativos mais utilizados estão WhatsApp (70%), YouTube (66%), Instagram (60%) e TikTok (50%).

Os dados reforçam a influência das redes sociais na vida dos jovens e como essas plataformas podem impactar sua autoestima e bem-estar emocional. O alto índice de acesso diário ressalta a importância de promover um uso consciente e equilibrado, evitando a dependência digital e os efeitos negativos da comparação social.

Imagem com plataformas digitais/ Imagem: Banco de imagens Pexels

Embora as redes sociais possam ser desafiadoras, é possível utilizá-las de forma mais leve e consciente. A psicóloga sugere algumas estratégias:

Diminuir a comparação social: lembrar-se de que o que se vê nas redes é apenas uma parte da vida das pessoas.

Postar sem esperar validação externa: compartilhar o que faz sentido para você, sem se preocupar com curtidas e comentários.

Filtrar o conteúdo consumido: seguir perfis que trazem inspiração e bem-estar, evitando aqueles que geram pressão ou insegurança.

Estabelecer limites no uso das redes: controlar o tempo gasto online e equilibrar com atividades offline.

A entrevistada Gabriela também sugere uma abordagem mais positiva. “Acho que a gente deveria parar de se comparar tanto e lembrar que nem tudo o que vemos é real. Se um amigo meu tivesse medo de postar, eu diria para ele não se preocupar, que está tudo perfeito e que ele pode se expressar livremente.”

As redes sociais podem ser ferramentas incríveis para conexão e aprendizado, mas também podem gerar insegurança e ansiedade. “Nós estamos na era digital, então a gente precisa sim, fazer um uso consciente, a gente precisa ir dosando”, ressalta a psicóloga.