Em 2025, mais de 2 mil mulheres no DF denunciaram agressões, muitas presas a um ciclo de violência

No DF, 31% das mulheres já foram vítimas de violência doméstica ou familiar, segundo o DataSenado.

Ana Cláudia Botelho de Lima

Postado em 19/03/2025

Violência física representou 45% dos casos contra mulheres no DF em 2022, aponta relatório. (Crédito: Ana Cláudia B. Lima)

Um lar vai além de paredes e endereço; deve ser um espaço de segurança e afeto. No entanto, para muitas mulheres do DF, essa realidade se inverte, tornando-se um ambiente de medo e violência. Em 2024, foram mais de 21 mil casos de violência doméstica —57 por dia, segundo dados do Relatório de Violência Doméstica 2024. Em 2025, os números seguem alarmantes: de acordo com informações da PCDF, nos primeiros 40 dias, foram registradas mais de 2 mil denúncias, muitas de vítimas reincidentes.

A violência contra a mulher no Distrito Federal é uma realidade alarmante que persiste ao longo dos anos. De acordo com a 10ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado, 31% das mulheres do Distrito Federal já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem, sendo que 21% desses casos ocorreram nos últimos 12 meses.

Marcas de um ataque

Gisele (nome fictício para proteger a vítima), de 24 anos, entrou para essa estatística quando foi violentada e mantida em cárcere privado pelo seu ex-companheiro. O caso ocorreu em outubro de 2024, o casal havia rompido o relacionamento há cerca de 4 meses. De acordo com a PMDF, por volta das 23h30 de terça-feira (22/10), o homem teria invadido a casa da ex, no Recanto das Emas (DF). 

Superação e trauma: sobreviventes carregam cicatrizes físicas e emocionais da violência doméstica. (Crédito: Ana Cláudia B. Lima)

Segundo relatos, vizinhos teriam ouvido os gritos de Gisele, sugerindo que ela poderia estar sofrendo violência e, posteriormente, a jovem teria sido forçada a entrar no carro do homem. A vítima relatou que o homem a agrediu durante todo o tempo em que permaneceu presa no veículo. A agressão só parou na madrugada de quarta-feira (23/10), quando uma equipe do Grupo Tático Operacional do 9º Batalhão (Gtop 29) interceptou o carro no Gama (DF).

Foi desesperador. Quando ele entrou na minha casa, eu sabia que alguma coisa muito ruim ia acontecer. Eu tentei gritar o mais alto que pude, mas ele veio pra cima de mim muito rápido. Me segurou pelos braços e me jogou no chão. Ele me xingava, dizia que eu tinha acabado com a vida dele, que eu era culpada por tudo. Me bateu ali mesmo por um tempo, depois me arrastou até o carro. Eu não tinha escolha, fui obrigada a entrar. Dentro do carro, eu só queria que aquilo acabasse. Toda vez que eu tentava falar alguma coisa, vinha mais um soco ou um tapa. Ele dirigia rápido e muito furioso, como se estivesse completamente doido. Quando as viaturas cercaram o carro, eu ainda nem conseguia acreditar. Eu não sabia se chorava, se agradecia, se ficava calada. Eu só queria sair dali. Só queria que tudo aquilo tivesse sido um pesadelo”, relata a vítima.

Esse caso é apenas uma amostra do que acontece em diversos lares da capital. Em 2022, foram notificadas 3.824 ocorrências de violência contra a mulher no Distrito Federal, representando 35,8% do total de 10.678 casos de violência registrados no período, de acordo com informações publicadas pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal. A violência física foi a mais frequente, correspondendo a 45,1% (1.725 casos) das notificações, seguida pela violência sexual, que representou 33,7% dos casos. 

O olhar da polícia sobre o problema

Deise Andrade, policial civil, psicanalista e ativista social, mantém uma perspectiva otimista para o futuro. Para ela, a violência contra a mulher não é um episódio isolado ou algo pontual, mas um problema enraizado na sociedade e na maneira como as relações foram historicamente construídas. Por isso, destaca que a questão vai além do individual — é um desafio estrutural. 

Deise Andrade, policial civil, psicanalista e ativista social. (Foto: Arquivo pessoal)

“Mas eu acredito que existe, sim, uma luz no fim do túnel. A gente tem que acreditar na possibilidade de mudança, porque se não acreditarmos, quem vai? Só que essa mudança não acontece sozinha, ela precisa ser construída. E tudo começa com conscientização. Enquanto a sociedade enxergar a violência contra a mulher como um problema distante, que só acontece com os outros, nada vai mudar de verdade”, diz Deise em entrevista.

A policial civil destaca que a violência não surge espontaneamente, mas é fruto de uma cultura que legitima o controle, a posse e o abuso. Por isso, enfrentá-la requer um esforço conjunto da sociedade.

“Como policial, vejo todos os dias o impacto devastador que essa violência tem na vida das mulheres. Algumas sobrevivem, mas carregam marcas para sempre, já outras não têm a chance de contar sua história. O feminicídio não é só um crime, é o ponto final de um ciclo que começou lá atrás, muitas vezes com um xingamento, uma humilhação, uma ameaça. Se queremos mudança, precisamos falar sobre isso, educar, denunciar, cobrar políticas públicas eficazes. E, acima de tudo, mudar mentalidades. Porque, no fim das contas, o que alimenta essa violência é a forma como ainda enxergamos as mulheres e suas relações dentro da sociedade. Quando isso mudar, a realidade também muda”, pontua Deise.

No primeiro semestre de 2024, houve uma redução de 63% nos casos de feminicídio no Distrito Federal, em comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme dados do Observatório da Mulher. Essa tendência acompanha o cenário nacional, ainda que de maneira pouco expressiva, onde foi registrada uma queda de 5,1% nos casos de feminicídio em 2024 em relação a 2023, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. 

Ao relembrar os momentos difíceis que enfrentou, Gisele conta como sua vida mudou após o ataque do ex: “Eu sobrevivi, mas não saí a mesma. Nos primeiros meses, quase não dormia, qualquer barulho me fazia congelar. Ainda tenho medo, mas não deixo mais isso me paralisar. […] Voltei a trabalhar, a ver meus amigos, a tentar viver sem carregar aquele peso. […] Olhando para trás, vejo o quanto já caminhei — e isso, por si só, já é uma vitória”.