Cultura do autocuidado: bem-estar ou pressão social?
Especialistas analisam o impacto das redes sociais na busca pelo corpo perfeito e na relação das pessoas com a própria autoestima.
Postado em 20/03/2025
A busca pelo bem-estar físico e mental nunca esteve tão em alta. Praticar exercícios, manter uma alimentação balanceada e cuidar da aparência são atitudes incentivadas por especialistas da saúde. No entanto, a obsessão pelo autocuidado pode transformar essa prática em uma pressão social que gera ansiedade e insatisfação. As redes sociais têm um papel central nessa influência, promovendo padrões estéticos muitas vezes inalcançáveis.
Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), em 2023, mais de 2 milhões de cirurgias plásticas foram realizadas no Brasil, representando um aumento significativo em relação à média anual de 1,5 milhão registrada em 2018. Atualmente, o país ocupa a segunda posição mundial em número de procedimentos estéticos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Esse crescimento reflete não apenas o acesso facilitado a intervenções médicas, mas também a influência das redes sociais na idealização de uma aparência perfeita.
A neuropsicóloga e psicóloga clínica Juliana Gebrim destaca que o autocuidado é uma maneira de se desconectar do mundo, relaxar e se dar um carinho. “Fazer atividades físicas é uma das formas mais indicadas de cuidar da mente e do corpo. Quando a gente se mexe, libera endorfina, o hormônio da felicidade, que ajuda a melhorar nosso humor e autoestima”, afirma. Ela alerta, porém, que precisa ser uma prática prazerosa e não uma obrigação. “Nas redes sociais, vemos muitas imagens de corpos perfeitos e rotinas de beleza impecáveis, o que pode nos levar a acreditar que precisamos nos encaixar nesse padrão”, completa.
Pressão invisível
De acordo com um estudo da Royal Society for Public Health, do Reino Unido, plataformas como Instagram e Snapchat estão entre as redes sociais que mais afetam negativamente a autoestima dos usuários, principalmente jovens mulheres. A pesquisa aponta que a exposição constante a padrões irreais de beleza pode levar a sentimentos de inadequação e ansiedade. Além disso, um relatório da Dove Self-Esteem Project revelou que 80% das meninas já usaram filtros ou editaram suas fotos antes de postar, indicando uma preocupação crescente com a autoimagem.
Uma jovem de 21 anos, que preferiu não se identificar, relatou como sua relação com a própria imagem foi moldada desde a infância e intensificada com a internet. “Quando criança, eu era a única menina de cabelo cacheado na família, rodeada por primas de cabelo liso. Comentários feitos em tom de brincadeira me afetaram de um jeito que só percebi depois de adulta. Hoje, a relação com a minha aparência é contraditória: em alguns momentos me acho lindíssima, inteligente e uma mulher admirável e em outros, sinto que há algo errado comigo”, conta.
Além disso, ela aponta o impacto das influenciadoras digitais e das propagandas de procedimentos estéticos como fatores que intensificam sua frustração. “Acompanho muitas blogueiras, de diversas áreas e, às vezes, ainda que eu me policie ao máximo para que isso não aconteça, me pego imersa em uma angústia que surge em consequência da comparação”, destaca.
O estudante Kauan de Melo, 20 anos, morador de Valparaíso de Goiás, acredita que as redes sociais podem levar as pessoas à obsessão pelo corpo ideal. “A ascensão das atividades físicas é positiva, mas junto com ela vem a preocupação excessiva com a imagem. Pessoas influentes abusam de procedimentos estéticos, e com a facilidade de acesso a esse tipo de conteúdo, mais pessoas são pressionadas a alcançar um corpo perfeito, muitas vezes inalcançável sem intervenções médicas ou dietas extremas”, aponta.

Apesar disso, Kauan busca manter um equilíbrio. “Quase todo mundo sonha em ter um físico bonito esteticamente e que, de certa forma, esteja dentro dos padrões. Mas, eu treino porque gosto e sei que é um processo. Tomo cuidado para não ultrapassar limites nem me tornar paranoico”, conclui.
O nutricionista Pedro Melo alerta sobre os perigos das dietas extremas que muitas pessoas adotam influenciadas por conteúdos online, sem um acompanhamento profissional. Ele explica que costumam demonizar ou idealizar certos alimentos como sendo o grande “vilão” causador de todo o mal, o que pode gerar sérios riscos à saúde e à rotina das pessoas. Como exemplo, cita a dieta carnívora, que ganhou repercussão mundial e gerou relatos de pacientes com alterações no colesterol, incluindo um homem que teve gordura vazando pelas mãos. Para evitar esses riscos, ele recomenda fugir dos extremos e buscar informações baseadas na ciência.
Relação com procedimentos estéticos
Em 2023, o Brasil registrou cerca de 3,4 milhões de procedimentos estéticos, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS). Desse total, aproximadamente 2,2 milhões foram cirurgias e 1,2 milhão, procedimentos não cirúrgicos. A busca pela harmonização da aparência cresce impulsionada por padrões estéticos cada vez mais difundidos.
Natasha Vasconcelos, 20 anos, também moradora de Valparaíso de Goiás, fez botox aos 18 anos e conta que a decisão partiu de um desejo pessoal, mas reconhece as oscilações em sua autoestima. “Sempre me achei bonita, mas queria melhorar. Fiz preenchimento na boca e no queixo para equilibrar o rosto. Meu objetivo era me sentir ainda mais bonita do que já era, não por um padrão de beleza”, comenta.
Ela, porém, admite que sua autoestima não é estável. “Sei que sou bonita, mas tenho momentos de insegurança. Se pudesse, faria outros procedimentos, como silicone. Por causa da puberdade, meu corpo mudou muito, e hoje, meu peito é só pele”, finaliza.

A psicóloga Juliana Gebrim ainda ressalta que o autocuidado deve ser sobre sentir-se bem consigo mesmo, não sobre atender a expectativas externas. “Recomendo que as pessoas criem uma rotina de que realmente gostem, seja uma aula de dança, uma caminhada no parque ou um banho relaxante”, propõe. Ela também sugere a desconexão das redes sociais como uma estratégia para evitar comparações nocivas e o acompanhamento profissional caso a pressão pela imagem ideal se torne insuportável.