Você tem FOMO de quê?

Fenômeno compromete interações sociais e aumenta ansiedade em quem acha que está sempre perdendo algo

Karol Oliveira dos Santos

Postado em 17/03/2025

O medo de estar perdendo algo, nomeado como FOMO (Fear of Missing Out), tem se tornado um fenômeno crescente, principalmente entre jovens que passam horas conectados às redes sociais. Esse fenômeno está diretamente relacionado à ansiedade e à necessidade constante de validação, causando impactos negativos na saúde mental, na autoestima e nas relações interpessoais dos jovens. 

Um estudo publicado no Journal of Social and Clinical Psychology (2018) revelou que o uso excessivo de redes sociais está diretamente associado ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão, especialmente entre jovens adultos. A busca por estar presente em tudo e não perder nenhuma informação ou evento cria uma sensação de desconexão com o momento presente, o que resulta em frustração constante e sobrecarga emocional.

Ana Luísa Miranda, jovem de 21 anos, observa os efeitos do FOMO em seu cotidiano. “É como se eu sentisse que o tempo inteiro tem algo acontecendo e que eu estou sendo deixada de fora. O que acaba me levando a ir a lugares que eu não quero estar, ficar uma quantidade absurda de horas nas redes sociais e também me deixa frustrada quando tem algum evento que eu não posso participar”, relata.

Ana Luísa Miranda, jovem de 21 anos – “Ver pessoas que estão vivendo uma vida maravilhosa nas redes sociais enquanto eu estou estudando ou trabalhando, mesmo que a gente saiba que não é tudo verdade, traz a sensação de que eu poderia estar fazendo outras milhares de coisas naquele momento.” Foto: Karol Oliveira

Os impactos do FOMO não são exclusivos. Um relatório da American Psychological Association (APA) revelou que 72% dos usuários de redes sociais se comparam com outras pessoas online, o que pode gerar sentimentos de inadequação e baixa autoestima. Além disso, a Global Web Index mostrou que 64% dos usuários já se sentiram pressionados a participar de eventos apenas para não se sentirem excluídos. 

Ana expõe que já esteve presente em eventos pelo medo de perder algum acontecimento. “Já aconteceu diversas vezes de eu ir a algum evento ou compromisso que eu não desejava realmente ir, porque eu sei que eu ficaria com a sensação de que eu estaria de fora se eu não fosse. Essa ansiedade me levou a estar em lugares que eu não queria estar ou nem tinha energia para aparecer, só para eu não me sentir excluída.”.

Outra jovem que sofre de FOMO é Amanda Raquel Borges, de 19 anos. Ela explica como perder eventos desperta ansiedade e irritabilidade. “Sempre quando eu estou tendo um momento em família e eu sei que está tendo algum show ou alguma outra coisa que eu não estou participando é agoniante, sabe? Eu fico no celular o tempo todo ou fico irritada mesmo que eu não esteja acompanhando on-line. Acaba com o meu dia saber como os meus amigos estão se divertindo sem mim, é meio triste”.

Para a psicóloga Luiza Souza Caldas, o FOMO está diretamente ligado à necessidade de aceitação e pode ser mais intenso em pessoas com baixa autoestima e ansiedade. “Apesar de o FOMO poder afetar todas as pessoas, aquelas com uma necessidade de aprovação social maior podem estar mais propensas sim. Pessoas com baixa autoestima e ansiedade podem se sentir mais vulneráveis sobre seu valor social e ter a sensação de estar perdendo experiências que poderiam validá-las ou torná-las mais aceitas”.

Luiza Sousa Caldas, psicóloga – “A saúde mental deve ser avaliada e o acompanhamento psicoterapêutico é essencial para compreendermos melhor esse e outros fenômenos da era digital.” Foto: Arquivo pessoal

Estratégias para reduzir as consequências do FOMO incluem psicoterapia, diminuir o tempo nas redes sociais e aderir a mentalidade do JOMO (Joy of Missing Out), que valoriza a felicidade de estar desconectado. “A psicoterapia é definitivamente uma alternativa eficaz, já que ajuda no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento”, enfatiza Luiza.

Carolina Meneses, jovem de 23 anos que buscou psicoterapia para o tratamento de FOMO, conta como atualmente lida melhor com esse fenômeno. “Quando você percebe e quando você começa a se desintoxicar é muito bom. Eu hoje tenho uma relação saudável com as redes sociais, tenho meus momentos de olhar o que meus amigos estão fazendo, mas não deixo de fazer minhas obrigações para ficar no Instagram, por exemplo”.

A especialista de saúde ainda destaca que as próprias plataformas digitais poderiam minimizar o impacto do FOMO, tornando a experiência online mais saudável e menos focada na comparação social. Enquanto isso, entender os gatilhos desse fenômeno e buscar equilíbrio entre o mundo online e offline pode ser um passo fundamental para a preservação da saúde mental.