Impulsionadas pelas redes sociais, micro tendências agravam o consumismo

De acordo com Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), mais de 70% dos brasileiros já fizeram compras influenciados pelas redes sociais.

Ana Beatriz Souza Cotrim

Postado em 24/03/2025

Os ciclos de moda foram fortemente alterados pelas redes sociais para se adequarem a algoritmos que, cada vez mais, exigem conteúdos rápidos, constantes e novos. Uma dessas alterações, é a facilidade do surgimento de micro tendências que logo depois desaparecem, de uma forma que se não fossem pelas peças esquecidas em guardas roupas não se teria prova de que elas existiram.

“Os algoritmos são os verdadeiros donos do poder nas redes sociais. Eles determinam o que ganha ou não visibilidade, influenciando diretamente quais tendências se consolidam”, diz Júlia Lyz, publicitária especialista em moda e fundadora da Entrelinhas, uma página sobre como a cultura afeta a moda. 

Essa influência vai além do simples ranqueamento de postagens: define comportamentos, impulsiona marcas e molda a percepção do que é relevante ou desejável. Daniela Negreli, psicóloga especialista em terapia de aceitação, sobre como as redes sociais afetam o consumo na moda, diz: “Ensina-se que a vida ou a identidade das pessoas não estará realmente completa enquanto não adquirirem tal item. Nesse contexto, tudo parece essencial, necessário e urgente.”

O que são micro tendências?

Consultora de estilo, Ísis Barreto descreve micro tendências como aquelas tendências de moda que ganham destaque por um curto período de tempo e logo vão embora. “As micro tendências hoje têm surgido muito movimentada pelas redes sociais e divulgadas pelos influenciadores. Antigamente, inclusive, micro tendências surgiam muito através das novelas, quando algum personagem usava um acessório marcante, uma estampa e todo mundo começava a usar“, explica ela.

Essas tendências, além de passageiras, muitas vezes também são apenas versões repaginadas de estilos já existentes. Como por exemplo, o boho, que surgiu nos anos 70 com o movimento hippie e voltou novamente a receber atenção no início do anos 2010. Agora, mais uma vez o estilo volta à popularidade, com o nome “boho chic”, sendo uma versão mais limpa, que abandona a essência original do estilo, que era justamente a bagunça da vida boêmia dos hippies.

Imagem feita com o Canva

A influência dos criadores de conteúdo de moda

Em um país como o Brasil, que é, segundo a Forbes, o terceiro maior consumidor de redes sociais do mundo, é importante discutir a influência que criadores de conteúdo podem exercer sobre o consumidor. O alcance massivo dessas plataformas permite que tendências se espalhem rapidamente, moldando hábitos de compra e até a percepção de valor dos produtos e serviços. 

O tipo de conteúdo criado por alguns influenciadores pode ser danoso, pois incentiva o consumo desenfreado. “Os influenciadores de moda deveriam ter um compromisso maior com a sustentabilidade, já que a indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo. Mas, hoje, a maior parte deles ainda baseia seu conteúdo em incentivar o consumo, com unboxings intermináveis, looks novos o tempo todo e recebidos sem fim”, diz Júlia Lyz.

“O conteúdo onde mostra o que comprei é um dos que mais gera engajamento”, relata a criadora de conteúdo de moda, Miranda Fuzikawa. Apesar disso, ela demonstra preocupação em como seu público pode receber esse tipo de conteúdo: “Tento limitar a quantidade de conteúdo de compras, já que genuinamente não acredito que seja necessário comprar peças novas para se vestir bem”.

O marketing digital se utiliza de estratégias psicológicas para manter o usuário comprando cada vez mais. “O influenciador mostra uma vida, um corpo e uma estética desejáveis e difíceis de obter por meios comuns”, destaca Daniela Negreli, “Isso cria desejabilidade em tudo que ele mostra usar e comprar. Naturalmente, a lógica que fica é: se quero a vida e aparência que ele tem, devo comprar o que ele tem”. 

Como não cair na onda das micro tendências

É cada vez mais necessário desenvolver um olhar mais crítico para evitar decisões impulsivas, além de priorizar um consumo mais consciente e alinhado com necessidades reais. Para isso, a consultora de moda Isís Barreto aconselha: “O segredo para identificar uma peça que terá maior durabilidade no guarda-roupa é analisar três fatores principais: versatilidade, atemporalidade e conexão com seu estilo pessoal”.

Uma peça de roupa ou acessório é versátil quando pode ser usada de diversas maneiras, adaptando-se ao estilo pessoal e a diferentes ocasiões. Essa versatilidade permite criar combinações variadas com praticidade, tornando o guarda-roupa mais funcional. Além disso, está diretamente ligada à atemporalidade do item, garantindo sua relevância mesmo diante das mudanças nas tendências da moda.

A melhor forma de desenvolver um guarda roupa versátil e atemporal é desenvolvendo o próprio estilo pessoal. Esse estilo é desenvolvido de várias formas, mas toma inspiração principalmente das experiências da vida. “Desenhos animados como Três Espiãs Demais, as bonecas da Monster High e da Bratz, as subculturas emo e scene, moda de rua japonesa. Todas essas coisas ajudaram a formar meu estilo”, diz Miranda Fuzikawa sobre como foi desenvolver seu estilo pessoal.

Como identificar se está caindo em hábitos consumistas

Uma peça de roupa ou acessório é versátil quando pode ser usada de diversas maneiras, adaptando-se ao estilo pessoal e a diferentes ocasiões / Foto:Ana Cotrim

Redes sociais, como o Instagram, já têm plataformas de venda integradas à própria rede social, o que Júlia Lyz descreve como um problema: “Com um clique, conseguimos comprar um item que acabamos de ver no post de uma influenciadora. Isso reduz o tempo de reflexão sobre a compra, aumentando a impulsividade”. 

Por isso, Daniela Negreli dá exemplos de comportamentos associados com o consumismo: “Quando o hábito de compras passa a acarretar prejuízos relevantes para a pessoa ou para outras pessoas ao redor dela. Gastos excessivos, dívidas, conflitos com familiares, aquisição de muitos itens desnecessários e esconder dos outros o comportamento de compras excessivas são exemplos de sinais que a relação com as compras não anda bem”. Saber identificar esses comportamentos é parte do processo para reduzi-los, acompanhamento psicológico pode ser uma das soluções.