Sono regulado e um bom desenvolvimento cognitivo estão entre os benefícios de ficar longe das redes sociais
Especialista em Terapia Comportamental Dialética explica que o distanciamento saudável pode ajudar a diminuir o estresse e a ansiedade provocados pelas comparações ou pela sobrecarga de informações.
Postado em 24/03/2025
Em abril de 2024, o Brasil foi classificado como o segundo país do mundo que mais passa tempo nas redes sociais, segundo o relatório publicado pela Datareportal. O uso excessivo de telas traz diversos problemas para a saúde mental, e por esse fator, algumas pessoas decidem encarar o desafio de ficar longe das redes sociais, em uma sociedade que está imersa nelas.
Livia Pimentel tem 26 anos, nasceu em Brasília, e em meio a produção de dois Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), e um exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), decidiu ficar longe das redes sociais por quatro anos para conseguir desenvolver projetos acadêmicos. Ao entrar nessa nova dinâmica, Lívia descobriu novos hobbies, como ouvir podcasts, e percebeu que as interações por mensagem com os amigos se tornaram menos superficiais.
Há um ano, Lívia decidiu voltar a usar as redes e logo percebeu o quão maléfico elas podem ser a saúde mental. “Me senti mais ansiosa, insegura com a minha aparência, fiquei mais crítica com meu estilo de vida, aquela sensação de ‘atraso’. Minha atenção piorou demais, essa piora também ocorreu com meu raciocínio e minha dicção. Nem preciso citar a fatura do cartão de crédito. É inegável o quanto as redes sociais estimulam o consumo” , explicou. Atualmente, Lívia considera excluir as redes sociais novamente.
Como a ‘FOMO’ pode atrapalhar esse processo
A psicóloga especialista em Terapia Comportamental Dialética, Êdela Aparecida Nicoletti, explica os efeitos que esse distanciamento pode causar. “Pode gerar sensação de desconexão ou falta de informação, principalmente para quem depende das redes para manter contatos profissionais ou acompanhar acontecimentos do cotidiano”, explicou a especialista. Esse foi o caso de Maik Uchôa, jornalista de 27 anos que passou duas semanas sem redes sociais. Ele relata que nos primeiros dias sentiu ansiedade e medo de estar por fora de assuntos relacionados ao trabalho.
Esse sentimento tem se tornado cada vez mais comum entre as pessoas, conhecido também como ‘Fear of missing out’, ou ‘FOMO’, que pode ser definido como o medo de ficar por fora de atualizações e eventos das redes sociais, sentimento que dificulta o desenvolvimento do uso equilibrado das delas.
As redes podem afetar a nossa percepção temporal
Uma das diferenças percebidas pelas pessoas que passaram por essa experiência foi a percepção do tempo. Michelle Garcia, jornalista de 24 anos, decidiu ficar longe das redes sociais por dois anos e meio ao perceber que não estava tendo tempo de qualidade consigo e com as pessoas com quem ela convivia. Como resultado, Michelle conseguiu desenvolver novos hobbies e estar presente em atividades coletivas das quais antes ela não participava.
Lívia também percebeu essa mudança. “Você, com redes sociais, não possui as mesmas 24 horas de você sem as redes sociais. Dez minutos no TikTok são os dez minutos que você arruma seu quarto, responder aquele e-mail que está adiando, bate a meta de leitura do dia, liga para um amigo querido”, conta a brasiliense.
A comparação entre usuários
Segundo a especialista, as redes sociais também podem afetar a autoestima. “As redes sociais podem ser uma fonte de ansiedade devido à constante comparação pessoal e profissional, ou seja, com a vida de outros, que muitas vezes é retratada de forma idealizada”, explicou. No tempo em que Lívia passou longe das redes, ela pode perceber o impacto que elas tinham na sua visão pessoal. “Passei a comprar bem menos (roupas e maquiagens, principalmente), fiquei em paz com o espelho e dormia mais cedo”, relatou.
Como manter o equilíbrio?
Os benefícios de ficar longe das redes influenciam em diversas áreas da vida, no desenvolvimento pessoal, autoestima, relações sociais e até no gasto excessivo de dinheiro. A psicóloga Êdela Aparecida explica que é essencial ter o entendimento de que as pessoas compartilham apenas recortes da própria vida, não a realidade. “Para evitar a comparação, é importante adotar uma postura crítica e realista em relação ao que se vê nas plataformas”, relatou.
A especialista também compartilha hábitos importantes para alcançar um uso equilibrado das redes. “É importante estabelecer períodos sem o uso de redes sociais, criando espaços para atividades que exigem maior concentração, como leitura ou práticas de mindfulness ou meditação”, explica a especialista.