Tatuagens passam a ser utilizadas para ressignificar cicatrizes e imperfeições na pele

Alta demanda fez com que mais profissionais tatuadores se especializassem em tatuagens de cobertura e micropigmentação paramédica

Noreen Jaral

Postado em 10/10/2021

Nos últimos anos, a tatuagem tem estado em ascensão. O que antes era visto como um estigma negativo, hoje, cada vez mais é considerado um tipo de arte. Feitas por diversos motivos, como homenagem aos entes queridos ou de representação a algo que goste, para algumas pessoas as tatuagens têm sido utilizadas para superação emocional e/ou recuperação de autoestima. Dessa forma, procedimentos de cobertura de cicatrizes na pele, manchas, queimaduras, estrias, marcas de nascença, dentre outros, tem se tornado a especialidade de muitos tatuadores profissionais.

Segundo pesquisa do Instituto Alemão Dalia, de 2019, o Brasil ocupa a nona colocação no ranking de países que mais tem adeptos à tatuagem, o que mostra o exponencial crescimento e mudança de antigos ideais. Os desenhos na pele estão presentes na sociedade desde séculos atrás e já foram utilizados como parte de rituais, de expressão cultural, como símbolo de rebeldia ou até de identificação entre gangues. E agora, mais aceita pela sociedade, as pessoas têm recorrido à essa arte como meio de recuperação de autoestima e para superar alguma ferida emocional. 

Cicatrizes no corpo podem ser a causa de muito sofrimento emocional, seja pela história que carregam ou pelos olhares e comentários que recebem. Atualmente, a tatuagem como técnica de estética tem aumentado, no entanto, o procedimento de cobertura pode ir além disso. Para muitas pessoas as cicatrizes, marcas na pele ou marca de nascença, podem despertar sentimentos negativos, pela autoestima ou por possuírem uma carga histórica. Poder cobri-las ou incorporá-las com desenhos pode ser um meio de ressignificação na vida das pessoas. 

Antes e depois de uma cicatriz no joelho coberta por tatuagem floral. Crédito da imagem: arquivo pessoal

O poder da tatuagem  

Para a tatuadora Sarah Catarina, de 23 anos, poder ajudar uma pessoa que se sente insegura com alguma parte do seu corpo, a voltar a se sentir feliz após uma tatuagem é o que a deixa satisfeita com o seu trabalho. Seu caso mais marcante foi o de uma cliente que pediu para cobrir uma cicatriz grande que havia no braço, com uma tatuagem, e no processo descobriu que a história por trás da cicatriz tinha sido uma tentativa de suicídio. Trabalhando em conjunto para chegar em uma arte final, fizeram um desenho que não cobrisse totalmente a cicatriz, mas que juntasse a lembrança triste com algo que ela gostasse. “Ela falou que deu um tom meio engraçado pra cicatriz, e toda vez que ela olha, antes algo que a deixava com vergonha e escondendo o braço, hoje em dia faz ela rir. E os amigos e familiares dela pensam a mesma coisa. E ela falar isso me deixou mais emotiva”, falou Sarah a respeito do relato da cliente.

A ideia da tatuagem foi que a cicatriz fizesse parte integral do desenho, não a cobrindo inteiramente. Crédito da imagem: arquivo pessoal

A arte pode ser um meio para o empoderamento, de recuperação da autoestima e para mudar o olhar que se tem do passado. Com seus diferentes significados, as marcas também são parte da história individual das pessoas contada na pele. Cleidiane de Aguiar, 38 anos, passou pela frustração de uma cirurgia malfeita que ocasionou em um queloide em seu ombro. Por ser uma cicatriz grande e receber muitas perguntas sobre a origem dela, ela tinha associado lembranças ruins a essa marca. Para ressignificar, fez uma tatuagem de borboleta, pela simbologia de transformação e renovação, com a queloide se tornando o corpo do animal. 

Para Cleidiane de Aguiar as suas tatuagens têm significados pessoais, ressignificando histórias e traumas. Crédito da imagem: arquivo pessoal

“O interessante é que tudo é marca na pele, mas a tatuagem não choca, ela não gera perguntas. Hoje quando veem minha tatuagem não perguntam o que que foi, só falam ‘nossa, ela tem alto-relevo’. Então isso melhora a autoestima e evita perguntas sem noção e das pessoas ficarem olhando”, comentou Cleidiane.

Para Raimunda Coelho, de 49 anos, sua tatuagem de cobertura foi feita para evitar comentários de outras pessoas. Em um acidente doméstico, Raimunda caiu sobre sua mão e cortou o pulso ao proteger sua filha mais nova, quando ainda era criança. Diante da inconveniência de vários questionamentos do motivo da cicatriz, decidiu cobri-la com uma borboleta, e em suas asas carrega as iniciais de seus dois filhos e o símbolo do infinito. 

Para Raimunda a cicatriz não era sinônimo de incômodo, mas sim, os comentários negativos que recebia a respeito. Crédito da imagem: arquivo pessoal

A tatuadora Sarah, que procura sempre aprimorar seu trabalho através de cursos, comenta: “Estou pretendendo fazer um curso para poder fazer a reconstrução do mamilo, a micropigmentação paramédica. Essa é a minha parte favorita, de poder ajudar e melhorar a autoestima das pessoas, isso para mim é maravilhoso. Porque tem muita gente que tem muitos problemas com o corpo, a gente sempre tem alguma insegurança e acho que a tatuagem ajuda muito com isso”.

A micropigmentação paramédica, mais conhecida nos casos de mastectomia, consiste na camuflagem de cicatrizes e na reconstrução do mamilo, a deixar com a aparência o mais natural possível. No início do mês de junho de 2021, o Projeto de Lei n° 1.411, de 2020, foi aprovado pela Câmara Legislativa do DF, visando incluir a micropigmentação paramédica como serviço assistencial complementar do Sistema Único de Saúde (SUS). A intenção é fazer parcerias com tatuadores para atendimento de mulheres que sofreram traumas, queimaduras e diferentes ocorrências, que resultaram em marcas e cicatrizes na pele.