Mulheres ainda enfrentam dificuldades para protagonizar o cenário do rap

Assédio e desigualdade de gênero são persistentes na indústria musical, impedindo que artistas consigam executar o próprio trabalho.

João Ribeiro

Postado em 25/03/2025

Em 2022, a pedido da Revista Observatório do Itaú Cultural, uma pesquisa identificou que apenas 8% do rap brasileiro é protagonizado por mulheres. Majoritariamente ocupado por homens, o cenário da indústria musical é envolto por machismo, racismo e assédio, dificultando que mulheres consigam produzir e divulgar a própria arte.

Neste ano, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) divulgou o relatório “Mulheres na Música 2025”. Os dados apontam que, apesar do crescimento de artistas femininas nos últimos anos, os valores atribuídos à elas continuam abaixo de 10% do total repassado pelo setor.

“A cultura do Brasil é muito forte. O que mulheres negras têm para cantar é muito forte. O que o hip-hop tem para cantar, o que o funk tem para cantar é muito forte”, afirma Afro Honey.

Afro Honey, nome artístico de Mel Colonna, é cantora, comunicadora e criadora de conteúdo. Seu trabalho artístico é voltado para a perspectiva da cibercultura e afrofuturismo, apelidado pela artista de cyberpink, visando a utilização da internet para a emancipação de corpos negros e a idealização de novos futuros através da arte.

De acordo com a artista, atualmente a indústria está passando pela democratização do “fazer música”. Hoje, existem mulheres rappers e trappers que cantam e conseguem colocar isso em larga escala, fazendo com que sejam ouvidas. “Tem aquela frase, né? Quando uma mulher negra se move, toda sociedade se move junto”, afirma Honey.

“O rap vem com a função muito importante de a gente se enxergar em novos lugares, de a gente se enxergar em narrativas para além do que a grande mídia colocou na nossa cabeça”, explica. “Sair daquele estereótipo de ‘negra mulata gostosa’ ou aquele estereótipo de ‘você vai ser a vovózinha fofa que cozinha para todo mundo’ ou ‘você vai ser a negra que ri demais’. O rap, protagonizado por nós, nos permite cantar sobre o futuro que a gente quer, para além dessas caixinhas de estereótipos racistas que o sistema está cantando para a gente desde sempre.”

O Brasil está passando por um momento em que as mulheres estão começando a ganhar visibilidade no rap. Honey faz comparativos entre o show de uma mulher e de um homem. Segundo a cantora, o show protagonizado por uma mulher, muito provavelmente, vai ter roupas personalizadas, dançarinas e/ou alguma jogada de marketing, enquanto os homens estão tendo que ‘correr’ para chegar ao nível da artista feminina. “Eu acho que as mulheres estão trazendo para a indústria musical algo que está mexendo e cutucando no público masculino, que eles estão tendo que se movimentar muito.”

“Elas trazem uma visão muito mais macro e autônoma da cena, e que, de fato, está mexendo na estrutura de como o mercado vem pensando, tanto em coletividade quanto em militância, para além da boca para fora”, afirma.

A movimentação no cenário atual não é de agora. Honey esclarece que são frutos das mulheres que, por anos, trabalharam, mas foram silenciadas. Quando uma mulher fazia toda a produção executiva de um disco e era excluída dos créditos ou quando era vista apenas como ‘a mulher do cara que está cantando’, ou ‘a mulher que pede a pizza quando a galera passa a noite inteira no estúdio’ ou ‘a mulher que grava os stories’ foram algumas das formas de silenciamento — e que acontecem até hoje.

Como algumas das iniciativas vistas no cenário atual, Honey cita o Fórum Nacional de Mulheres do Hip-Hop, que busca a criação de políticas públicas para dar voz às mulheres que participam da cena e utilizam da arte como forma de expressão e denúncia. Outras iniciativas citadas são os projetos Poetizas no Topo e o Set AJC, da rapper Ajuliacosta, onde diversas artistas da cena se juntam e utilizam os versos como forma de crítica à indústria do rap.

Afro Honey vê o rap como uma ferramenta de hackeamento, citando como exemplo a música ‘Você parece com vergonha’, de Ajuliacosta. “Bota a camisinha nesse mano que ‘cê conheceu, o que ele fez com a ex dele, vai ser B.O. seu”, diz um trecho da música. Honey aponta que a música faz um alerta sobre relacionamento abusivo, ajudando na identificação de situações problemáticas.

Honey também destaca como as mulheres trans e cis enfrentam repressão e críticas, sendo até desacreditadas ou minimizadas ao cantar sobre as próprias dores e experiências. Ela questiona se esse cenário é falta de entendimento ou se a indústria, dominada por homens, simplesmente não está disposta a aceitas vozes femininas e outras realidades.

“Eu acho que a gente tem o problema dos rappers entenderem que mulheres vão cantar sobre as suas dores. Muitas mulheres desistem de ir para a batalha tanto pela repressão que sofrem, quanto por umas coisinhas do tipo ‘não canta isso, porque é pederastia’ ou ‘não canta isso, você está desrespeitando o mano'”, critica. “Será que fulano é muito ‘cricri’ ou vocês só não estão se articulando o suficiente para receber essa mina? Ou a mina vai lá e faz um uma denúncia de abuso e o cara continua na batalha, o cara continua frequentando e os mano continuam batendo palma?”

Honey também denuncia o apagamento das mulheres na indústria, sofrendo com a falta de investimentos e visibilidade. De acordo com a artista, uma das formas que o machismo se manisfesta na produção musical é a predominância de homens nos palcos e nos bastidores, fazendo com que as mulheres do rap sejam ignoradas e desvalorizadas. A questão não é falta de profissionais mulheres, mas a falta de interesse em apoiar essas artistas.

“Você vai render para o público machista ou você vai jogar contra a corrente e de fato abraçar a causa? O fato de mulheres terem menos visibilidade é porque a gente tem menos investimento. Investem muito mais nas músicas protagonizadas por homens, do que em músicas protagonizadas por mulheres, sabe? Isso desde o underground até o macro”, afirma.

De igual para igual

” As pessoas ainda têm muito o que entender do ódio que existe dentro delas”, pontua a cantora.

Em 2023, a cantora Ebony lançou uma disstrack — termo utilizado no rap para se referir à faixas que têm como objetivo insultar ou expor uma pessoa — criticando diversos homens da cena do rap. Afro Honey afirma que a cantora não foi levada a sério.

“Quantas pessoas lançaram uma diss em resposta para ela? Ninguém. Porque ninguém levou ela a sério o suficiente, sacou? Porque esses mano, de duas a uma, ou não levou a sério o suficiente ou não tem vocabulário para saber responder ela sem ser machista”, a artista destaca. “Porque, se tivesse um vocabulário bom, respondia. Quando eles vão parar de nos tratar como café com leite? Como cota? E ver a gente como parte do game mesmo? Não com apenas um espacinho, mas com fatias iguais de bolo, sabe?”

Ela acredita que a responsabilidade é de quem faz gerar o dinheiro, como os produtores de evento e as pessoas que escrevem editais. Honey afirma que as mulheres não têm que ser cota, mas equidade. Há a desculpa de que as artistas femininas não vendem, mas isso se daria porque as pessoas aprendem a consumir o que mais aparece para elas. O silenciamento das rappers femininas impede que suas vozes alcancem o público e aumentem o consumo da arte produzida por elas.

“A cultura do Brasil é muito forte. O que mulheres negras têm para cantar é muito forte. O que o hip-hop tem para cantar, o que o funk tem para cantar é muito forte. Então, se a indústria se preocupasse, de fato, com a estrutura com ‘trabalhe igual um doido e aí, quando você explodir, a gente vai pegar e te puxar’, muita coisa estaria diferente”, afirma a artista.

“As pessoas ainda têm muito o que entender do ódio que existe dentro delas. Quando homens perceberem que eles, de fato, ainda são muito machistas, muita coisa vai mudar. Mas, enquanto eles acharem que isso é apenas gosto, muita coisa terá que ser trilhada. Eles juram na cabeça deles que é sobre gosto, mas não é. É porque ali está passando uma mensagem que incomoda, que está colocando mulheres negras em outro tipo de narrativa que não convém a eles, que não é o que está dentro de suas cabeças, que não é na posição de servidão que sempre foi idealizada.”

Elas no Mic

Fugazzi afirma que o Elas no Mic é mais que uma batalha, sendo um projeto que visa o protagonismo feminino no cenário musical — principalmente as rappers, a fim de que tenham um estúdio onde possam se sentir mais à vontade.

Fugazzi, nome artístico da rapper e produtora cultural Letícia Ribeiro, acredita que o protagonismo feminino na cena do rap é um pontapé de esperança. “Eu tenho 25 anos e o grupo de rap feminino do DF que eu mais curtia tem a minha idade”, relembra. “Quando elas iniciaram, a gente tinha poucos espaços ou nenhum tipo de oportunidade. Elas lutaram para que a nossa geração tenha esse lugar, que é uma minoria ainda.”

“Então eu acredito que a gente seja a esperança para que o futuro das artistas dentro do rap seja um lugar de acolhimento, porque as mudanças que estamos propostas a fazer no cenário vai afetar bastante o futuro, já que não lutamos só pelo nosso espaço dentro da cena musical ou no rap em si, mas no hip-hop todo”, afirma Fugazzi.

O Elas no Mic teve início em 2021, por meio de uma plataforma online chamada Taboom. Uma seletiva foi realizada no aplicativo e Fugazzi apresentou um projeto que tinha a intenção de reunir mulheres MC’s do Brasil inteiro. Batalhas de rima, com premiação, eram realizadas na plataforma. “Inclusive a gente teve várias ‘manas’ de outros estados”, Fugazzi relembra. “Era muito legal a interação, e uma coisa que foi muito interessante é que era seguro. Você estava dentro de casa. Eu conseguia soltar os beats, a gente podia ficar junto, fazer a apresentação, como se fosse uma batalha normal, mas tudo online e sem a galera gritando. Mas era bem mais seguro ali do que na rua.”

Após a pandemia, o projeto foi levado para as ruas, consolidando a batalha Elas no Mic. Os encontros passaram a não acontecer de forma semanal, mas em edições especiais, realizadas quando uma boa parte das integrantes do projeto estavam disponíveis. Fugazzi afirma que o Elas no Mic é mais que uma batalha, sendo um projeto que visa o protagonismo feminino no cenário musical — principalmente as rappers, a fim de que tenham um estúdio onde possam se sentir mais à vontade.

“Eu trouxe esse projeto para o lado musical, pensando em tudo aquilo que eu não tive como artista, e quis levar para todas elas essa oportunidade de fazer acontecer”, pontua. “Muitas mães perguntam se não vou me incomodar de trazerem o filho, eu falo que não. A gente fica aqui, troca uma ideia, brinca, brinca, brinca… a criança dorme e a gente vai lá e grava. Um produtor masculino não teria essa empatia toda, essa paciência ou essa gestão.”

O projeto conta com um estúdio, que, apesar de não ser exclusivo, é voltado para o Elas no Mic. Atualmente, um disco com protagonismo totalmente femino — com mulheres cis, trans e pessoas não-binárias — está em desenvolvimento.“O projeto surgiu para que elas [as mulheres] tenham esse espaço de fala e de aceitação, tudo que englobar para que elas realmente se sintam acolhidas com o cenário — que é muito machista, hostil e muito difícil de se lidar e se sentir confortável para entregar totalmente a nossa música.”

Em 2023, a União Brasileira de Compositores publicou uma pesquisa apontando que 76% das mulheres na indústria da música já sofreram assédio em algum momento da carreira. “Elas acabam tendo uma privação de onde gravar, então acredito que ter produtoras mulheres influenciam muito nisso também, porque dá mais segurança dentro da gravação e do estúdio”, Fugazzi afirma. “Eu, como mulher, fiz questão de lançar meu próprio estúdio por conta disso. Não me sentia confortável gravando com produtor masculino, porque são vários relatos do cara não querer o dinheiro da gravação, mas querer outra coisa. Isso acaba afetando e atrasando o processo artístico, porque a gente sempre pensa em uma coisa primeiro: segurança.”

O estúdio de Fugazzi, o 23Records, conta com vagas sociais para pessoas que não têm condições de pagar uma produção. Por mês, duas vagas são abertas para produzir esses artistas — que podem ser tanto homens quanto mulheres. “Para as mulheres, em específico, tem o Elas no Mic, onde qualquer mulher que tenha a intenção de fazer uma faixa, e tiver disponibilidade, eu estou aqui para fazer a produção.”

Além disso, está em desenvolvimento o projeto Elas na Cultura, voltado para o audiovisual, que buscará contar a história de mulheres que têm a cultura como principal fonte de renda.

Nas batalhas proporcionadas pelo Elas no Mic, as mulheres ganham um lugar de fala. Indo além de uma simples batalha, o projeto é um espaço de poesia, pocket show e outras iniciativas, a fim de que sejam proporcionadas outras modalidades de rimas. Fugazzi também dá oficinas de produção musical, artística e cultural, além de comportamento artístico — ensinando como a artista pode evoluir. “Muitas mulheres têm a rima, mas não tem a presença de palco, a coragem de cantar no microfone ou têm vergonha. Então eu ministro oficinas para que elas tenham força de vontade e autoestima para fomentar o trabalho delas”, informa.

As mulheres no cenário do rap atualmente

“Eu trouxe esse projeto para o lado musical, pensando em tudo aquilo que eu não tive como artista, e quis levar para todas elas essa oportunidade de fazer acontecer”, pontua Fugazzi.

As mulheres e as pessoas LGBTQIAPN+ ainda são minorias, mas novas políticas colaboram para que os espaços desses grupos sejam priorizados e garantidos. A rapper explica que agora é obrigatório ter mulheres na ficha técnica e nas batalhas de rima. Fugazzi acredita que a presença de artistas femininas vai abrir portas, não apenas janelas, para que as mulheres realmente se sintam protagonistas de suas próprias histórias e não coadjuvantes de um grupo masculino.

“Para você se destacar no rap, além de você ter que se destacar dos homens, você tem que se destacar das mulheres também. Até porque os próprios homens dentro do cenário colocam as mulheres umas contra as outras”, Fugazzi explica. “Então é muito difícil você se manter centrada no seu objetivo ou conseguir as mesmas oportunidades que um homem tem. Normalmente a gente só consegue isso no mês de março, que é quando as mulheres bombam na arte como um todo. Para lidar com isso, eu fui estudar produção cultural, produção artística e produção musical. Porque, como eu era uma mulher e muitas pessoas queriam passar a perna em cima do que a gente podia fazer, eu acabei ficando muito triste com a cena.”

O pontapé inicial que a rapper teve para lidar com essa frustação foi construir o próprio estúdio musical, que deu energia para ela continuar na cena. “Se não derem meu lugar, eu vou tomar ele por direito”, declarou a artista. Muitas rappers não têm oportunidades porque não tem um estúdio musical para gravar ou faixas o suficiente para cantar, sendo o estudo algo essencial para mudar essa realidade. “Faça suas músicas, faça sua arte. Quando alguém falar que você não pode estar lá, você vai ter um portfólio para provar o contrário.”

Fugazzi aponta que, atualmente, as batalhas de rima têm uma política de ter duas vagas garantidas para mulheres, mas o total de vagas na lista é de 16. Outra questão apontada é sobre a maternidade. De acordo com a rapper, as pessoas julgam se a mãe quer ou não estar no ambiente, se a mãe estava e, depois da maternidade, não pode estar mais. Essa é uma das formas que o machismo se expressa na cena, além de quando a mulher é colocada apenas para fazer refrão ou para tirar fotos, sendo coisas que incomodam as artistas atualmente.

Para Fugazzi, é importante que as rappers sejam incentivadas a serem produtoras musicais e que cursos e oficinas sejam proporcionados a fim de ensinar a executar o próprio trabalho. Para conseguir o próprio estúdio, ela trabalhou por três anos consecutivos, abrindo mão de várias coisas — como bens materiais — para conquistar seu lugar e apoiar a própria arte. Já sobre as gravadores maiores, que acabam por captar mais recursos, elas deveriam investir mais em vozes femininas e dividir bem as vagas de captação de artistas.

Outro ponto abordado é o incentivo. A rapper afira que as artistas são incentivadas sempre com uma blusa ou um press-kit, dando como exemplo um evento que aconteceu no DF, onde os organizadores não queriam dar premiação para os artistas e disseram que eles ganhariam um press-kit do evento, que estava sendo vendido a R$50, sendo isso uma forma de desvalorização da arte. “A galera pensa que tá ajudando, mas no fim só está afundando a gente mais ainda. Esse evento, em específico, eu fui campeã, mas não recebi cachê e nem premiação. Quem recebeu foram os jurados: três homens. E o evento era em uma área nobre do Plano Piloto. Nesse ano, eles pagaram um cache de R$250 mil para o Felipe Ret e não tinham R$100 para dar de premiação ou ajuda de custos para eu voltar para casa.”

Sobre os efeitos que o protagonismo feminino no rap pode causar, a rapper acredita que várias músicas serão tiradas do mainstream — palavra que significa uma tendência na música, algo que, de acordo com Fugazzi, as mulheres da cena ainda não conseguem conquistar. Até as mais conhecidas ainda passam dificuldades, que podem variar do recebimento de cachê ao tratamento em eventos. Ela cita o caso de Clara Lima, rapper que foi impedida de subir ao palco porque o próprio evento atrasou o line e, para não cortar um artista masculino, cortaram a artista feminina. 

“Mulheres inspiradoras inspiram novas gerações a terem pensamentos que talvez um homem nunca tenha trazido para a música, para o rap em si.”

— Fugazzi, rapper e produtora cultural

Como solução para a falta de protagonismo feminino no rap, reuniões para debater maneiras de quebrar paradigmas são sugeridos, além de batalhas temáticas — como a edição contra o feminicídio da Batalha das Gurias.

Mais eventos familiares também são importantes. Fugazzi se dá como exemplo, que deixou de frequentar festividades pela proibição da entrada de crianças ou por não ser um ambiente acolhedor para famílias. Rodas de conversa, oficinas e eventos de capacitação também são essenciais.

“Se todas nós nos unirmos, eles não nos derrubam mais. Eles [homens da indústria do rap] nos colocam contra nós mesmas. O que derruba nosso cenário feminino somos nós, porque acreditamos neles. É sobre se autoconhecer. A gente tem muitos encontros femininos que trazem essas experiências, para que a gente possa fortalecer nossos vínculos e para que eles não nos prejudiquem por fofocas e picuinhas que não deveriam estar no nosso meio. Se nos unirmos, nada mais nos derruba”, conclui a rapper.