A arte como um grito anticolonial no mundo

Juliana Gomes é uma artista visual indígena e foi selecionada para expor no Carrousel du Louvre, em Paris. Para ela, a arte enquanto ferramenta de luta sobrevive como arte independente, contra o Estado e apesar do Estado.

Aline Gouveia

Postado em 06/04/2022

Juliana Gomes é mais conhecida como Jaguatirika, um apelido de infância dado por seu avô. Descendente do povo Xokleng, ela mora em Araruama, no Rio de Janeiro, tem 21 anos, é artista visual, estudante de história na Universidade Federal Fluminense e foi selecionada para expor no Carrousel du Louvre, em Paris, no mês de setembro. Carrousel du Louvre é uma galeria comercial que fica entre o Museu do Louvre e o Jardim de Tuilerie. Para a artista, essa exposição é importante pois é a oportunidade de levar o trabalho a lugares que ela não imaginava chegar. Para custear a viagem, Juliana criou uma vaquinha para arrecadar dinheiro de doações. A produção artística da Jaguatirika é, em suma, uma arte de denúncia e educação. É um grito anticolonial no mundo, como ela diz. As obras são pinturas e artes digitais que apresentam questões como a demarcação de território e luta contra ideais colonizadores. A artista também faz releituras de telas clássicas da história da arte, como a Criação de Adão e O Nascimento de Vênus, sendo que no lugar dos personagens europeus, Juliana pinta figuras indígenas como protagonistas. As telas da artista são publicadas no Instagram nos perfis @jaguatirikapintora e @abyayalese.

O povo Xokleng se autodenomina Laklãnõ, que significa “povo que vive onde nasce o sol” ou “gente do sol”. Crédito: Arquivo Pessoal

Desde quando a arte está presente em sua vida? E qual é a importância dela para você?

A arte sempre esteve presente na minha vida e sempre fui artista, desde que nasci. Todo mundo ou quase todo mundo sempre pintou quando criança, sempre fez experimentações ou ouviu e sentiu as músicas que a natureza faz, seja o som dos ventos, ou dos pássaros, ou do ruído das águas de um rio. Eu só nunca parei de fazer nada disso. E isso acontece para mim porque a arte enquanto uma instituição, isolada do que naturalmente é a vida, é uma invenção europeia. É a mania ocidental de desnaturalizar tudo aquilo que é natural e colocar em compartimentos em que só alguns teriam acesso e fariam parte. 

É isso que essa sociedade colonial e capitalista faz: desnaturaliza o natural, aliena e faz as pessoas desaprenderem a viver. O que nossos ancestrais sabem fazer a milênios geralmente as pessoas hoje em dia não sabem mais. Precisam de soluções prontas e inventadas pelos mesmos que criaram os problemas. E eu acho que todo mundo nasce artista, só que alguns vão deixando de ser a medida que vão desaprendendo a viver. E para mim é fundamental me permitir ser artista, porque me permitir ser artista é me permitir ser. Nem sempre tive essa coragem. Mas não quero deixar mais nenhuma parte de mim para trás.

Você é conhecida como Jaguatirika. Como o nome surgiu? Qual o significado?

Jaguatirika é meu apelido desde bem criança, porque eu era muito pequena, muito braba e sempre fugia para o mato. Quem começou a me chamar assim foi o meu avô Chico quando ele ainda estava vivo. Além de me identificar com o apelido é importante para mim manter a memória do meu avô viva.

O que significa Abya Yala? E como o termo se relaciona com seu propósito na arte?

Abya Yala significa Terra Madura ou Terra de Florescimento para o povo Kuna. E para nós enquanto movimento indígena e movimento anticolonial significa também a desinvenção da América. O termo renomeia todo esse continente originário que recebeu esse apelido em homenagem ao colonizador. Portanto, esse termo é  uma redefinição pelos nossos próprios parâmetros, é uma reivindicação da nossa autonomia, orientado por  nossa história e ancestralidade. É deixar claro que não iremos submeter nossas identidades às  invenções coloniais, a América não existe. Foi inventada e será desinventada, junto de todas as suas fronteiras. E é  esse o propósito da minha produção artística, é ser um grito anticolonial no mundo, é destruir fronteiras. É ajudar as pessoas a entenderem que a roda da colonização continua a girar e que precisamos para-la para que a terra não entre em colapso.

Qual é o seu objetivo na arte? Qual mensagem você quer passar quando pinta?

Meu trabalho é em sua maioria arte denúncia e arte educação. Meu objetivo a curto prazo é levar nossas narrativas e demandas a lugares que talvez não chegassem sem ela. Quando eu pinto eu consigo ampliar nossas vozes e cosmovisões que são silenciadas, é uma forma de nos verem e nos ouvirem. A mensagem que eu quero passar é que estamos vivos e lutando, que precisamos de aliados e que temos alternativas. 

Você foi selecionada para expor no Carrousel du Louvre, em Paris. Como se sente? Qual a importância dessa exposição para você?

Eu me sinto bem ansiosa com a responsabilidade. Mas essa exposição é importante para mim porque levará meu trabalhos a lugares que jamais imaginei. É uma grande oportunidade de passar uma mensagem importante para milhares de pessoas, de gerar uma grande visibilidade para o meu trabalho e de conseguir um bom retorno financeiro de modo que eu possa compartilhar com os meus. 

Eu gostaria de saber mais sobre a exposição no Carrousel du Louvre. Como foi o processo de inscrição e seleção?

Houve um processo de seleção de alguns artistas para essa exposição pela empresa de arte nacional e internacional Vivemos Arte, mais especificamente pela assessoria da Lisandra Miguel. Ela analisou meu currículo, meus trabalhos, tivemos uma entrevista e fui selecionada.

Como você avalia a valorização e incentivo à arte no país?

A arte que não é esvaziada e transformada em produto, que não é usada  como ferramenta de manutenção do pensamento hegemônico, essa arte é sim muito desvalorizada. E sempre será enquanto a burguesia existir. A arte enquanto ferramenta de luta sobrevive como arte independente, contra o Estado e apesar do Estado. A arte que é produzida na margem, que é o grito dos oprimidos e não segue a cartilha do belo e inofensivo não é só desvalorizada, é censurada. O incentivo à arte no Brasil é muito escasso, de difícil acesso. É como se fosse um clube muito restrito que definitivamente não chega às periferias. Isso não é por acaso.

Ano passado, espaços como a Bienal de Arte de São Paulo, Pinacoteca e Masp tiveram obras indígenas expostas. Você acha que realmente há uma maior abertura para a arte indígena no cenário brasileiro?

Fico realmente muito feliz de ver a arte indígena contemporânea finalmente ganhando espaço. É muito sintomático que essas exposições tenham demorado tanto pra acontecer dentro do que hoje chamam de Brasil, mas que é todo território indígena. Acho que essa abertura foi e continua sendo feita pelos próprios artistas que lutaram por esses espaços, e grandes artistas contemporâneos como Jaider Esbell, Daiara Tukano e Denilson Baniwa entre outros desempenharam um papel desbravador muito importante para todos os artistas indígenas.

Há em curso PL’s que ameaçam o meio ambiente e os povos indígenas, o chamado pacote da destruição. A arte indígena é em suma arte política? De denúncia? 

Estão sempre tentando retirar cada vez mais nossos direitos, então precisamos estar sempre atentos. Não há a opção de não lutar. Mas também não vou dizer que toda arte indígena é arte de denúncia, porque também tem muitos trabalhos sobre histórias ancestrais, sobre as cosmovisões de diferentes povos, sobre a natureza e muito mais. A arte indígena é complexa e é milenar. Mas agora nesse contexto contemporâneo acho realmente difícil ser indígena e se afastar dessas questões que são gritantes. Não é o único tema a ser tratado, mas acaba muitas vezes sendo algo incontornável. Para fazermos arte primeiro precisamos estar vivos.

Link para a vaquinha: http://vaka.me/2680024