Baobás, símbolos da herança negra no Distrito Federal

O professor André Lúcio Bento criou o projeto de mapear os baobás existentes no DF. Para muitos povos africanos, essa árvore é sagrada e cultuada como divindade.

Aline Gouveia

Postado em 22/06/2022

Baobás são árvores de troncos bastante espessos. As flores possuem duração efêmera, geralmente em torno de 24 horas. Já os frutos, são ricos em nutrientes. André Lúcio Bento, que é professor desde os 18 anos de idade, conta que é comum que as mulheres grávidas consumam o fruto durante a gestação e no período da amamentação. A riqueza nutricional também garante uma variedade de preparo. Além de pura, a polpa pode ser usada na produção de sucos, bolos, pudins e geleias.

Os baobás também são importantes nos âmbitos histórico e cultural. “Dada a longevidade milenar do baobá, ele recebe a denominação de “árvore da vida”; por ser o lugar onde os mestres griôs contam ou cantam histórias para os mais novos”, explica o professor André. Portanto, com o objetivo de preservar essa herança negra no Distrito Federal, o professor passou a mapear os baobás existentes aqui. Já foram mais de 80 árvores catalogadas. 

Confira a entrevista completa com o professor André Lúcio Bento: 

Gostaria que me contasse um pouco da sua trajetória acadêmica e profissional. Quando tudo começou?

Sou professor desde os 18 anos. Fui aluno da antiga Escola Normal, que habilitava seus alunos egressos ao exercício do magistério para o atual ensino fundamental, anos iniciais. Sempre fui estudante de escola pública de cidades periféricas do Distrito Federal e do Entorno. Estudei em Ceilândia, Brazlândia e em Valparaíso de Goiás. Também fui estudante apenas em universidades públicas. Na Universidade de Brasília, fiz graduação em Letras, mestrado e doutorado em Linguística; na Universidade Federal de Juíz de Fora, cursei uma especialização em mídias e educação; pela Universidade Federal de Goiás, tornei-me especialista em história e cultura afro-brasileira e africana.

Quando e por que surgiu o projeto de mapear baobás na capital?

No ano de 2019, eu atuei como subsecretário de formação continuada da Secretaria de Educação do Distrito Federal e tive a ideia de plantarmos dois baobás nas nossas áreas verdes no Dia Nacional da Consciência Negra daquele ano. No entanto, eu não sabia da existência de outros baobás existente no DF. No ano seguinte, já no contexto da pandemia, durante um live, comentei sobre os baobás, e uma servidora que trabalha no Jardim Botânico me contou que havia dois exemplares lá. Foi aí que comecei a catalogar os baobás de Brasília. Eu quis fazer esse registro como forma de resgatar parte da herança negra na Capital do Brasil. A construção de Brasília contou, em sua maioria, com a força de trabalho de homens, mulheres e crianças negros e negras. 

Qual a importância histórica dos baobás? E qual o significado dessa árvore na cultura africana?

Os baobás têm importância material, pois servem de alimento, reservatório de água e também como fonte de substâncias usadas na medicina popular. São importantes do ponto de vista cultural, tendo em vista que seu entorno serve de espaço para atividades artísticas, lúdicas, esportivas, entre outras. E são importantes na perspectiva religiosa: são árvores sagradas para muitos dos povos africanos e, para algumas religiões, são cultuados como divindades. Dada a longevidade milenar do baobá, ele recebe a denominação de “árvore da vida”; por ser o lugar onde os mestres griôs contam ou cantam histórias para os mais novos, também é chamado de “árvore da palavra”. Essas árvores com toda essa importância vieram parar no Brasil ainda nos navios negreiros, como simbólicos de pertencimento, identidade e ancestralidade dos povos pretos.

Quantos baobás foram identificados até agora pelo projeto? E como é a metodologia para realizar esse mapeamento?

Já são mais de 80 baobás catalogados em áreas públicas, particulares e em espaços sagrados. Não existe uma metodologia, no sentido acadêmico da palavra. Trata-se de uma busca afetiva, uma tentativa de registro de parte da herança negra no Distrito Federal. No processo de catalogação dos baobás, contei e conto muito com a colaboração de amigos, de especialistas, religiosos e admiradores da árvore. É muita gente que vai me indicando onde estão os baobás de Brasília. 

Poderia descrever um pouco das características dos baobás?

Do ponto de vista físico, os baobás (chamados de imbondeiros, embondeiros, calabaceiras, micondós, entre outras denominações em África) destacam-se pelo tamanho e pela espessura colossais do tronco. São árvores, de fato, muito majestosas. Em determinada época do ano, os baobás perdem as folhas, o que faz seus galhos parecerem raízes. É como se a árvore existisse de cabeça para baixo. Do ponto de vista mítico, essa questão leva à crença de que a memória da árvore, portanto, encontra-se em sua raiz.

Além de catalogar e informar sobre essas árvores, o senhor deseja que um processo de tombamento dos baobás seja iniciado, certo? Qual a importância dessa medida?

O tombamento dos baobás significaria o reconhecimento do seu valor cultural, histórico e religioso por parte do Estado. Também seria uma questão importante para o trabalho pedagógico em termos de uma educação patrimonial e, também, antirracista. 

A cultura africana foi marginalizada e até mesmo apagada da história do país. Como a educação pode contribuir para o reconhecimento e preservação da ancestralidade negra?

A educação, numa perspectiva progressista, deve retirar o véu que determinadas narrativas hegemônicas colocaram em alguns fatos da história. É pela educação que saberemos o que foi, de fato, o processo de escravização das populações negras no Brasil, como ocorreram os movimentos em prol abolição, como foi a transição para o período pós-abolição, como a herança negra foi subjugada em todo o processo de formação social do Brasil e, sobretudo, qual deve ser a participação da população negra nos espaços de poder e de decisão na atualidade.

O que é uma educação antirracista? E como o senhor costuma aplicar essa prática nas escolas?

Educação antirracista é um movimento educacional e pedagógico que busca reposicionar à África e seus descendentes no justo lugar da história. Ser professor antirracista é comprometer-se com a busca por legitimar toda a contribuição negra em mais de 500 anos de nação brasileira para que um dia tenhamos oportunidades raciais igualitárias no mercado de trabalho, na escola, na televisão, no cinema, no teatro, nas universidades e em quaisquer esferas de atuação humana. 

Como foi criado o livro Tâmara e Tamarindo na Terra das Coisas e das Pessoas Doces ? Qual é a principal mensagem que o senhor quer passar com ele?

Eu quis contribuir com a representividade negra na literatura. Fui uma criança que só viu nos livros infantis personagens brancos. Não vi um menino nos livros que tivesse a minha cor, a textura do meu cabelo, o formato dos meus lábios e nariz. O pior: não vi livros infantis que trouxessem aspectos da minha ancestralidade, da minha identidade de criança negra. O mundo mágico de Tâmara e Tamarindo na Terra das Coisas e das Pessoas Doces traz uma mensagem de diversidade. Os personagens são constituídos a partir de duas frutas africanas (tâmara e tamarindo) e protagonizam uma história mágica que trata das misturas.

O racismo religioso faz com que as religiões de matriz africana sejam alvos de perseguições, principalmente em um país majoritariamente cristão, em que o Exu é associado a demônio. Como especialista em cultura africana e afro-brasileira, o senhor poderia explicar quem é Exu?

Exu é um orixá que representa a comunicação e a interação entre o material e o imaterial, entre o humano e o divino. É a divindade mensageira. O tratamento de Exu de forma demonizada significa, mais uma vez, a ação da força hegemônica do colonizador cristão. O demônio é uma figura existente para quem segue determinados credos religiosos e jamais poderia ser usado para caracterizar qualquer divindade de outra matriz religiosa. Isso mostra que o racismo é, acima de tudo, uma questão de falta de alteridade e de empatia.

Os baobás são árvores exóticas, como deve ser o planejamento de plantio deles por aqui? 

Apesar de serem exóticos, os baobás não são árvores invasoras. Isso significa que eles não vão se proliferar indefinidamente, sem que haja uma intervenção humana. Algumas árvores são exóticas e invasoras, então elas vão se reproduzindo, chegando ao ponto, inclusive, de fazerem mal aos biomas para onde foram transportadas. Esse é um problema que não vamos ter com os baobás. Do ponto de vista do plantio, tem que ter planejamento e cuidado, porque são árvores grandes. 

Além do mapeamento dos baobás, o senhor sabe da história do surgimento dessas árvores no DF? Por exemplo, qual é a mais antiga?

Os baobás mais antigos, em área pública, estão em frente a Embrapa Cenargen, que fica na Asa Norte. Dois foram plantados em 1996, a partir de sementes vindas de Moçambique e o outro foi em 1998, com sementes da Angola.

Link do mapa dos baobás no DF: https://www.google.com/maps/d/u/0/viewer?mid=1tA8uPI6LkxHAS0cNYqL4fYXfq9X8XS1d&ll=-15.734759442311205%2C-47.95189118529505&z=10