Muçulmanos de Brasília praticam o Ramadan durante todo o mês de abril

Por 30 dias, o jejum é total entre o nascer e o pôr do sol. Praticantes evitam mentiras, brigas e xingamentos

Artur Felipe Lesnau

Postado em 27/04/2022

Segundo o relatório “World Factbook” de 2020, da Ci, agência de inteligência americana, o islamismo é a segunda maior religião no globo, com 24,1% da população seguindo a crença. No Brasil, o cenário é diferente. Segundo o último censo do IBGE, de 2010, o islã abocanhava a parcela de 0,02% dos brasileiros. Como comparação, o catolicismo sozinho compreendia 64,63%.

Apesar do número não ser tão expressivo proporcionalmente, a comunidade islâmica está presente no Brasil há décadas. Apenas a comunidade árabe-brasileira já corresponde a 11,6 milhões de pessoas. Fora, naturalmente, outras etnias que abraçam o islamismo e que compõem o quadro islâmico no Brasil. 

Na religião, todos os muçulmanos que entram na puberdade passam pelo Ramadan, período medido pelo calendário lunar que corresponde com o período em que o Alcorão teria sido revelado ao profeta Muhammad, ou Maomé. 

O Ramadan é um pilar do islamismo. Abdel Hamid e o sheik receberam a reportagem e explicam que foi decretado por Deus para que os fieis mostrem obediência a Ele. Para eles, não é tortura nenhuma se abster de comida, bebida – e aqui se inclui também água –, e qualquer ato que seja contra a vontade de Alá. “Mentira, falar alto, gritar, xingar os outros… O Ramadan elimina essas coisas e, nele, você se contém mais. Nesse período, você está se preparando e aprendendo a ter disciplina. E quando termina, a gente segura essa disciplina, essas coisas boas que a gente aprendeu”, conta Hamid. 

Eles dizem que não há relação alguma entre o jejum do Ramadan e o da quaresma, apesar de ambos os períodos serem de reflexão nas respectivas religiões. Pontuam que o jejum islâmico é fixo e integral: abstinência de alimentos, de vícios e até mesmo de relações sexuais. Durante essa época, os muçulmanos comem apenas antes do nascer do sol e após o pôr do sol. Diferente do caso da quaresma, que é mais flexível para os cristãos, em que, em muitos casos, o próprio fiel pode escolher por qual abstinência quer passar. 

Os muçulmanos, no Ramadan, acordam de madrugada para comer. É o que chamam de Sur-Hoor, ou “refeição da madrugada”, e depois disso, realizam a primeira oração, a al-Fajr, ou “oração da alvorada”. Esse rito é primordial devido ao jejum que começa logo após.

Além da Sur-Hoor, no islã, reza-se mais quatro vezes, sempre em direção a Meca, no Oriente Médio. Foto: Artur Lesnau

Terrorismo e a religião da paz

Durante a entrevista para esta reportagem, os muçulmanos não se furtaram a responder perguntas de todo o teor, inclusive sobre terrorismo e jihad. Disseram que, como muçulmanos, não podem julgar nenhum outro irmão. Explicam que existe o live-arbítrio: Deus não impediria um seguidor de Alá de cometer pecados, como um assassinato ou um atentado terrorista, por exemplo, mesmo que seja contra o que diz o Alcorão e mesmo sendo contra as leis dos países. Afirmam, entretanto, que, no fim das contas, quem irá se resolver com Deus é esse irmão, e que Ele iria julgar. Garantem ainda que a jihad, ou “guerra santa”, como instituição do cânone do Islã não é mais entendida como certa. A jihad ocorria, dizem, quando um dos profetas era atacado, e os seguidores iam defendê-lo.

Uma das coisas que mais se ouviu nessa roda de conversas foi que o islã é a religião da paz e da alegria. Contam que acreditam em uma coisa chamada Hidayah, ou “guia”. Para eles, Alá atrai as pessoas para perto, sem a necessidade da pessoa já ser muçulmana. Entendem a fé como um movimento “de fora para dentro”, e não “de dentro para fora”. 

No primeiro caso, a fé e a atração a Deus chegam e tocam espontaneamente o indivíduo, mesmo que ele não frequente a mesquita. Diferente é o caso de algumas igrejas, por exemplo, em que a fé é criada culturalmente e a pessoa a adquire porque já está inserida no meio.

No islã, entende-se que Alá, Deus, atrai as pessoas para serem seus fiéis. Foto: Artur Lesnau

Como em algumas linhas do catolicismo, os muçulmanos têm algumas peculiaridades na fala. Enquanto alguns cristãos evitam falar palavras negativas como “desgraça” e outras interjeições, no islã, é proibido exclamar um “nossa!”, “credo!”, ou mesmo um “vixe”. 

As três palavras, têm origem no catolicismo e remetem, respectivamente: à figura de Nossa Senhora, mãe de Jesus Cristo; à crença em Jesus como o messias; e à Virgem Maria, outro nome para a mãe de Jesus. 

“Essas palavras são coisas de Shaytan, são coisas de Satanás. ‘Nossa Senhora’ é uma coisa que não é nossa, de muçulmanos, sabe? ‘Virgem Maria’, ‘Ai, meu Deus do céu’, ‘Ai, meu pai do céu’, que isso?”, diz Hamid.

Perguntados sobre quais expressões o muçulmano deve usar para exclamar no lugar desses termos, Hamid resumiu em uma única interjeição: “ya ‘iilahi”, que significa “ó, meu Deus”.

Muçulmanos em Brasília

Abdel Hamid relata que a população islâmica na capital federal é numerosa, apesar de raramente aparentar. 

“Tem uma quantidade razoável. Não temos uma estimativa precisa da quantidade dos muçulmanos, porque, às vezes, a pessoa é velha, a gente não conhece, ele não sai de casa, ou muçulmano que tem filhos, netos, bisneto e tal que não são declarados… a gente não sabe se são muçulmanos ou não”, disse ele.

Segundo o Censo de 2010, o Distrito Federal tinha 972 pessoas que se declararam muçulmanas. Isso correspondia a 0,04% da população. Proporcionalmente, era a segunda maior população dentre as Unidades Federativas.

O islã chegou a Brasília por meio dos migrantes palestinos, libaneses e sírios, principalmente. Hoje, segundo Hamid, muitos são empresários: donos de restaurantes, pousadas, hotéis, dentre outros empreendimentos.   

Segregação e preconceito

Os muçulmanos relatam que há certa segregação, em partes, principalmente devido à diferença entre as culturas islâmica e ocidental. Sami, muçulmano, descreve que mora em um condomínio sem nenhum outro seguidor de Alá, até onde sabe. É fiel à conduta que o Alcorão exige, sem deixar de ser amigo de todos os vizinhos. 

Certa vez, durante o Ramadan, um amigo chamou ele, a esposa e os filhos para um churrasco à beira da piscina. Disse que Sami poderia ir de sunga, a esposa e filhas de biquíni, e que levassem a carne para passarem o dia. “Eu não consegui responder, nem sim, nem não. Falei apenas ‘vai com Deus, irmão’”, relembra como ficou atônito com o convite. Além de não poder comer durante o dia no Ramadan, muçulmanos não expõem o corpo com roupas curtas, especialmente as mulheres. Além do mais, sexta-feira é dia de ir à mesquita.

Outro caso de Sami foi quando deu carona ao vizinho. Ele estava levando os filhos e esposa junto e todos recitavam o Alcorão, para praticar. Conforme o andamento da viagem, com todos estudando em voz alta o Livro, Sami conta que viu o vizinho encolhido no banco do passageiro, com as mãos juntas em sinal de súplica, demonstrando medo, em posição semelhante à de um cristão orando. 

Com isso, exemplifica que, devido ao choque cultural, há, sim, uma certa separação consensual. Aqueles que falaram à reportagem concordaram que não há falta de respeito ou agressão à crença um do outro, muçulmano e não-muçulmano. A relação continua saudável, mas há um distanciamento. 

O Alcorão, livro sagrado no islamismo, escrito em árabe. Nas edições disponíveis para consulta na mesquita, há a tradução em português. Folheia-se as páginas da direita para a esquerda, segundo a tradição da escrita árabe, mas os textos traduzidos se leem de esquerda para a direita, conforme o padrão ocidental

“O Profeta falou: aquela pessoa que é teu amigo, é a favor de você, mas não é muçulmano, ela é tua aliada, não é tua inimiga. Por exemplo, a vizinha da frente me dá limão todo dia, um outro pergunta se eu preciso de alguma coisa. Ninguém é muçulmano, mas quando tem festa ninguém me convida”, relata Sami, contente, porque gosta de viver a vida conforme manda o islã e, para isso, entende, um certo distanciamento de quem vive diferente é importante.

Sami e Abdul Hamid, outro fiel a Alá, não disseram sofrer preconceito. Sami denota que recebe muito carinho, até mesmo de quem não esperava receber. Hamid fala que não há esse preconceito escancarado no Brasil. Compara com outros lugares e diz que, devido a religião, teve que sair do país em que estava e voltar ao Brasil.

Financiamento e funcionamento da mesquita

Na mesquita, não há dízimo. Não há obrigação de contribuir para a manutenção das atividades. Nas igrejas cristãs, geralmente há um valor estipulado, muitas vezes em percentual em relação ao salário do fiel, que deve ser ofertado à congregação. No islamismo, isso não existe. Pelo menos, não na mesquita do Centro Islâmico de Brasília.  

Quem paga pelas despesas e financia as atividades é a Arábia Saudita. O país inaugurou a mesquita em 1990. O estilo da construção é em árabe saudita moderno. É simples, minimalista, sem muitos ornamentos. O salão de orações comporta até 1.000 fiéis.

A oração na mesquita é às sextas-feiras, dia sagrado para o islã, a partir das 13h, quando o sol está em seu ponto mais alto. Esse é o horário e data ideais, segundo a tradição religiosa.