Educadores defendem a valorização do ensino de arte nas escolas

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece a arte como um componente curricular nos ensinos fundamental e médio.

Aline Gouveia

Postado em 15/06/2022

“Ser professora sempre pareceu ser algo grande para mim, daquilo que vivi e percebi. A arte veio como um fundamento, o meio pela qual a educação poderia ser corpo, movimento e ação”, conta Isadora Lima. Ela é professora de artes da rede pública no Paranoá e Itapoã e defende que a disciplina deve ser mais valorizada nas escolas. Além de dar aulas, Isadora também é pesquisadora, artista e atua na cultura popular local como brincante. Ela avalia que a educação, arte e cultura nacional não são prioridades do atual governo. “A arte ainda é elitista, e como professora de arte de escola pública e periférica tento inverter essa ordem”, afirma.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece a arte como componente curricular dos alunos. No ensino fundamental, a disciplina é centrada nas linguagens: artes visuais, dança, música e teatro. Já no ensino médio, faz parte da área de Linguagens e suas Tecnologias. De acordo com o documento da BNCC, “a aprendizagem de Arte precisa alcançar a experiência e a vivência artísticas como prática social, permitindo que os alunos sejam protagonistas e criadores”.

Além de objetivar a autonomia para criar, a arte é uma ferramenta para compreender a sociedade em que se vive. Ainda de acordo com a BNCC, a arte possibilita a conexão entre racionalidade, sensibilidade, intuição e ludicidade. “Ela é, também, propulsora da ampliação do conhecimento do sujeito relacionado a si, ao outro e ao mundo”.

Carlione Ramos, mais conhecida como Carli Ayô, é arte educadora e atuou por 9 anos na educação infantil e 3 anos com estudantes do ensino médio. Formada em Design de Produto, Carli já trabalhou como acompanhante de professor em sala e como apoiadora. “Comecei dando aulas em uma brinquedoteca de São Sebastião, apesar de ser uma brinquedoteca as crianças faziam muitas coisas além de brincar, como aulas sobre racismo, bullying, musicalização, alfabetização. Como arte educadora eu criei com várias turmas, de 5 e 6 anos, apresentações em festivais onde construíamos tudo. Figurino, coreografia, texto e cenário”, lembra.

Interdisciplinaridade

Carli defende que a arte pode ser utilizada nas aulas de outras disciplinas também, a fim de auxiliar no aprendizado dos alunos. Para ela, a interdisciplinaridade é fundamental. “Acredito que a arte está em tudo, separar turmas e matérias é um dos nossos maiores erros na educação, física com arte fica muito bom. Acabamos por deixar belos talentos passarem em branco durante o período escolar por achar que ele não é bom nisso ou é melhor em aquilo… A interdisciplinaridade transforma a escola”, ressalta.

Ainda nesse sentido, teóricos que contribuíram para o desenvolvimento das teorias de aprendizagem, como o psicólogo russo Vygotsky, já defendiam que os estudantes deveriam ter papel ativo no processo de construção do conhecimento. E para alcançar esse objetivo, a professora Isadora Lima usa o diálogo e a escuta como partes da abordagem pedagógica. “’O que é arte?’ sempre pergunto nas primeiras aulas. ‘Não sei’, ‘Nunca parei para pensar’. E aquele muro ali quem grafitou? O que vocês vêem? E essa música que vocês estão escutando, o que elas dizem? O que vocês sentem? E a batalha de rima que acontece ali no metrô, porque estão fazendo? O que as vozes dizem?”, exemplifica Isadora acerca da condução das aulas.

A sala de aula como espaço de presença, entrega e relação

A professora Isadora Lima conta acerca de um dos projetos desenvolvidos em sala de aula em que ela propôs a construção de autorretratos. A atividade foi desenvolvida em 2019 com estudantes do ensino médio. “Durante quatro semanas pedi para que pensassem em algo que os representavam: um objeto, uma música, uma pessoa, uma imagem, um desenho, um filme, uma roupa, um cabelo, e por aí vai”, explica. Ao longo dessas semanas, Isadora foi conduzindo conversas e propondo reflexões sobre os elementos apresentados pelos alunos. “Em resumo, cada estudante ia compondo com todos esses elementos compartilhados seu autorretrato, apresentando a questão ‘quem sou eu, afinal?'”, destaca.

A professora relata que com essa atividade foi possível perceber que o autobiográfico também é coletivo, ao identificar o porquê das escolhas de cada elemento pelos alunos e como isso se relacionava uns com os outros. “Outro dia, encontrei uma estudante em Taguatinga, e a primeira coisa que ela falou foi desse dia, o quanto aquilo tinha sido fundamental para ela se reconhecer, acreditar e continuar – hoje ela está cursando pedagogia na Universidade de Brasília, porque acredita na educação e quer continuar acreditando na educação pública”, lembra.