Projeto da UnB e Comitê de Grafite fortalecem movimento na capital
Arte que nasce das ruas carrega mensagens de identidade, resistência e se consolida como forma de expressão e ocupação do espaço público
Postado em 31/03/2025
A Lei n° 14.996/2024, sancionada pelo presidente Lula, reconhece o grafite como manifestação cultural brasileira. A medida busca garantir a livre expressão artística e facilitar sua preservação. Em Brasília, a arte urbana tem sido incorporada em projetos como o “Grafite no Campus”, que revitalizou pontos de ônibus da UnB.
Arte que nasce das ruas carrega mensagens de identidade, resistência e se consolida cada vez mais como forma de expressão e ocupação do espaço público. A professora Anastasiya Golets, do Centro de Excelência em Turismo da UnB, ressalta que o grafite não é apenas estética. “O grafite provoca reflexões, incomoda e ressignifica o ambiente. Ele pode transformar bairros inteiros e atrair tanto visitantes quanto investimentos”, afirma.
A estudante de arquitetura da UnB Marília Bravo considera a iniciativa necessária para dar mais visibilidade à arte urbana. “Acho muito importante ter o @ dos artistas nos murais. Ser artista não é fácil, e isso ajuda a divulgar o trabalho deles”, pontua.
Grafite e urbanismo em Brasília
A artista Tainha, grafiteira, produtora cultural e uma das participante do Grafite no Campus, aponta que a inserção no Plano Piloto é restrita a poucos nomes conhecidos. “Se você não está entre os cinco ou seis artistas mais famosos, você simplesmente não grafita aqui. Nas regiões administrativas, a comunidade acolhe mais, oferece apoio e até comida para quem está pintando”, relata. Segundo ela, o grafite também enfrenta desafios na capital, com maior fiscalização e restrições no centro. “Se você grafitar ilegalmente no Plano, a polícia bate na hora”, completa.

A professora Golets avalia que o grafite pode ser um atrativo turístico para Brasília, como ocorre em outras cidades. “Circuitos de arte urbana são comuns no mundo todo. Por que não em Brasília? Temos artistas talentosos e uma administração que já permite essas manifestações culturais em espaços tombados”, afirma. O Comitê de Grafite, vinculado ao poder público, tem promovido iniciativas para integrar a arte urbana ao cenário cultural da capital.
O Comitê de Grafite
Criado em Brasília e associado à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF, o Comitê de Grafite do DF é o primeiro do Brasil e busca estruturar a cena para artistas urbanos. “O Comitê é um exemplo para outras cidades. Ele nos permite organizar encontros, garantir materiais e até mesmo cachês para os artistas”, diz Tainha. Segundo ela, o Comitê já inspirou outras capitais a criarem estruturas assim, ampliando a profissionalização do grafite no país.
Espaço e representação
A expansão do grafite para museus e galerias gera diferentes opiniões na cena artística. Para alguns, essa inserção pode descaracterizar a essência do grafite, que surgiu nas ruas como expressão espontânea. Para Tainha, no entanto, essa transição representa um avanço. “Tem que estar sim. Porque é ali que as pessoas ricas vão ver que a gente existe”, afirma. A artista reforça que ocupar esses espaços é essencial para dar visibilidade e credibilidade ao grafite como arte. “As ruas já são uma galeria a céu aberto. Se o grafite está nas ruas, por que não pode estar dentro das galerias também?”, questiona.

A ocupação de espaços públicos por meio do grafite é um processo de democratização, segundo a artista. “Quando fazemos grafite, estamos dizendo que aquele espaço é de todos. Não apenas das pessoas que moram ali”, afirma. Ela também destaca que mulheres e artistas de grupos minorizados têm buscado ampliar sua presença na cena. “Ainda somos minoria, mas estamos criando nossos próprios espaços, seja em mutirões, coletivos ou eventos voltados para mulheres no grafite”, diz. Com novas políticas e iniciativas, o grafite segue ganhando espaço em Brasília, consolidando-se como parte do ambiente urbano.
Grafite na Galeria Dos Estados / Foto por: Mirna Silveira Grafite de Tainha na Colina, UnB. Este grafite é uma crítica em prol das mulheres palestinas refugiadas / Foto por: Mirna Silveira Muro grafitado do posto de gasolina da SQN 409 / Foto por: Mirna Silveira Grafites das artistas urbanas Tainha e Siren, localizado na SQN 410 / Foto por: Mirna Silveira Grafite feito pelo artista Neew em um muro da W3 Sul / Foto por: Mirna Silveira Parada de Ônibus da Reitoria da Unb grafitada pelo artista Jedi / Foto por: Mirna Silveira Obra da artista Siren na Galeria Dos Estados / Foto por: Mirna Silveira